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Leitores escrevem sobre “Abril”… 39 anos depois!

Tribuna Livre

 

Os leitores do “Etc e Tal Jornal” expressam-se, de seguida (*), sobre a data que mudou, historicamente, a vida dos portugueses: 25 de abril de 1974. O crescimento e as crises económico-financeiras, a democracia e tudo o que durante 39 anos a fortaleceu ou a deixa em risco. No espaço livre, responsável, e democrático que se segue, é “o povo quem mais ordena”…

 

abril 02 - 01abr13

“OPTÁMOS PELA PARTIDOCRACIA E AGORA ESTAMOS AMARRADOS A PROFISSIONAIS DE MANIPULAÇÃO DE CÉREBROS”

 “As centenas de milhares de pessoas que no passado dia 2 de março saíram à rua em muitas localidades do país, com facilidade, qualquer pessoa minimamente atenta lia estampada nos rostos daquela multidão a enorme tristeza que pesadamente carregava, em declarado contraste com a explosão de alegria provocada pela alvorada libertadora do 25 de Abril.

O escandaloso retrocesso que os herdeiros de Abril têm vindo a provocar a um povo que tanto o deviam respeitar e orgulhar, não só por aquilo que somos – é ver as centenas de jovens portugueses por esse mundo fora, acarinhados e admirados nas suas mais diversas atividades, nomeadamente na I&D – como por aquilo que fomos – refletir na nossa história com cerca de 900 anos!

E então isto acontecerá porquê?

– Por ideologia, pelos verdes anos, por incompetência, por despudor, por… seja lá pelo que for, tal aventureirismo é absolutamente inadmissível, pois trata-se do governo de um povo, e que este não pode estar aos caprichos de tais paladinas criaturas.

É claro que dirão, é a Democracia. Pois é. Ou melhor, não é. A Democracia tem regras e, no caso presente, optámos conscientemente pela partidocracia pura e dura e agora, como toxicodependentes, estamos amarrados a estes profissionais de manipulação de cérebros e só eles poderão alterar o rumo que tal embuste democrático tem vindo a seguir.

Evidentemente que eles não estão minimamente interessados. Os partidos são importantes para a democracia, mas esta não se esgota no partidarismo.

Acontece, porém, que só os deputados poderão alterar este rumo de coisas e legislar a premissa para que grupos de cidadãos possam participar ativamente na vida democrática do país, tendo liberdade para aprofundarem a democracia no sentido de ela cativar permanentemente os cidadãos a transformarem o cinzentismo, o mar-morto do quotidiano, as ditaduras-democráticas, numa vida livre, aberta a todos em igualdade de oportunidades. Uma verdadeira democracia poderá resolver os problemas de uma forma óbvia, harmoniosa e mais fácil, numa caminhada para uma sociedade mais fraterna e justa, promovendo uma hierarquia de competência e patriótica.”

Júlio Cardoso

(Ator/encenador) – Porto

 

abril 03 -  01abr13

“O LEGADO DO 25 DE ABRIL CORRE PERIGO”

 “O 25 de Abril trouxe novas condições de liberdade que permitiram o acesso à cidadania de largos segmentos da população que tinham estado impedidos de defender os seus direitos. Não só direitos cívicos e políticos, mas também direitos sociais e económicos.

De facto, a rutura do poder político fascista possibilitou a libertação de conflitos latentes e as movimentações populares que se seguiram, ou seja, as lutas pelo pão ou pela habitação, produziram dinâmicas que consagraram valores que viriam a ser assimilados e que fundamentaram os princípios básicos para a redefinição das políticas. E para a construção do chamado “Estado social”.

Hoje, esses princípios estão a ser postos em causa. E há ameaças claras às funções sociais do Estado. O legado do 25 de Abril corre perigo.”

 Maria Rodrigues

(Autarca) – Porto

 

abril 04 - 01abr13

“OS ERROS DO PASSADO”

 “A necessidade de acertar o passo com a história trouxe Lisboa – e depois Portugal – de 1974 à descolonização tardia, esgotado o regime ditatorial hipócrita, que fazia eleições para fingir ser moderno. E fingia ser um império para se sentir poderoso. Mas era incapaz de ser feliz.

Ninguém pode ser feliz amesquinhado e impedido de aspirar a uma vida melhor. Ninguém pode ser feliz agarrado a um passado glorioso quando afinal dele apenas ficou a oportunidade de exploração, para que ainda por cima não se tem sequer unhas. Donde, o lema dos três “D”: descolonização, democracia e desenvolvimento, lançado a 25 de Abril. Nova vida. Por mais 40 anos.

 

Estamos na hora de balanço. E olhando para trás tem-se a sensação de ter cometido outra vez os mesmos erros. Submissão a dirigentes medíocres e oportunistas que desprezam o seu povo e o violam com toda a tranquilidade, como os abusadores fazem com as suas vítimas. Queremos continuar a ser vítimas? Saberemos sobreviver?

A descolonização à bruta redundou da falta de legitimidade do Estado fascista para mobilizar militares, tanto os que estavam em África como os que estavam na Europa (lembram-se da guerra do Solnado?). Abandonados os povos africanos sob tutela portuguesa à sua sorte, ficaram nas mãos das políticas belicistas da comunidade internacional e das tricas internas dos detentores do poder.

Em Portugal, o poder esteve na rua, até que os militares (entretanto refeitos da sua própria degenerescência, apoiados por redes políticas modernizadoras) se sentiram em condições de repor a normalidade, isto é, a velha separação nada democrática entre os que mandam e os que são mandados. Chamámos a isso regime democrático. Ficaram até hoje o excesso de generais.

Triste democracia, com a ideologia na gaveta. O desenvolvimento viria mais tarde. Outra vez a imigração como resposta à crise do início dos anos 80. Desenhou-se então uma exclusividade política para a Europa, sob a palavra de ordem “não ao miserabilismo”. Sim aos subsídios dos fundos estruturais, na altura imaginados como coisa diferente de uma dívida. Os “terceiro mundistas” foram simplesmente humilhados por questionarem as opções europeístas. Acenou-se com um futuro de riqueza para os portugueses, uma vez integrados na Europa, isto é, na CEE. A última carruagem desse comboio era tudo quanto precisaríamos para viver melhor.

Porque não percebíamos (nem percebemos) nada do capitalismo, preferimos um monopólio na política externa – constituído pelos partidos do arco da governação – a um processo de diversificação estratégica, combinando potencialidades e diversificando dependências. Chamam a isso realismo, pois o terceiro-mundismo implicaria uma postura moral de exigência – por exemplo, na denúncia das atrocidades porque passaram os povos lusófonos – incompatível com as políticas europeias dos “bons alunos” ou a moral da árvore das patacas no relacionamento com a China.

A fatura já chegou. A Dona Branca Europa é juiza em causa própria. E em vez de sujeitar-se a julgamento, suspende o Estado de Direito e avança nas perigosas políticas de estigmatização dos PIIGS (porcos em português), organizando contra eles, alegando motivos morais (imagine-se), e com a colaboração da oligarquia dominante no local, saques aos direitos adquiridos, na esperança (porque tomam os desejos por realidades e preferem fazer experiências a fazer contas) de isso ser suficiente para secar o excesso de crédito que jorrou nas últimas décadas em todo o mundo ocidental.

Um espírito mais democrático teria tido a sensatez de não apenas permitir mas estimular a afirmação e desenvolvimento de ideias que pudessem ser alternativas à nossa política externa. Mas habituados a andarmos todos juntos e à molhada, os portugueses não viram nada de mal na formação do centrão, excludente de todas as discussões políticas relevantes e criador de monopólios (de fachada liberal) para usufruto da classe política e dos respetivos aliados: os militares normalizadores, as famílias políticas dominantes na Europa, as raras famílias capitalistas portuguesas, as famílias de ricaços retornadas das respetivas fugas patrióticas para o Brasil.

A contradição entre as promessas meritocráticas de Belmiro, Amorim ou Soares dos Santos nos anos 80 e 90 (nas suas entrevistas publicadas por Maria Filomena Mónica, onde prometiam romper com a tradição das “velhas famílias” de passar a gestão ao herdeiro) e a prática concreta 20 anos depois, no momento da passagem do testemunho, entregue sem exceção aos respetivos filhos, pode ser facilmente confirmada. Os capitalistas industriosos foram assediados e convertidos em rentistas do subdesenvolvimento, gritando em coro o discurso único do neo-liberalismo.

A tudo assistiu o povo português, cúmplice como sempre é o soberano com aquilo que se passa, mas ciente da forma como a história deve passar às gerações vindouras.

Durante as últimas quatro décadas nunca se deixou de comemorar o 25 de Abril e jamais se comemorou o 25 de Novembro. Os corações dos portugueses nunca confundiram a esperança com a resignação. A política do condicionamento democrático, porém, não foi reciclada nem intervencionada. Continuou, a seus olhos, a ser a mesma porca descrita por Bordalo Pinheiro.

O espírito de funcionário irresponsável e oportunista produzido pelo nosso longo Império resistiu ao fim de um ciclo de quinhentos anos virados para o mar. Agora o “ouro” vinha das bandas de terra. A profissão dos políticos tornou-se cada vez mais apetecível do ponto de vista dos proveitos e cada vez mais repugnante aos olhos dos populares. As relações entre política e povo tornaram-se frias e distantes, ligadas por angariadores de fundos, que correm de um lado para o outro: grossas malas para cima, pequeníssimas gorjetas para baixo.

Os angariadores foram recentemente convocados aos respetivos chefes com a seguinte notícia: para manterem o posto de trabalho, cabia-lhes agora organizar o despedimento do povo português do comboio a que se tinha atrelado. Os PIIGS, afinal, somos cada um de nós, que temos dívidas que nunca contraímos; e uma constituição que nunca utilizámos; e uma democracia que nunca mobilizámos.

A repensar na vida, os portugueses olham hoje para o passado, o Império, o fascismo, o marcelismo, o 25 de Abril, a entrada na CEE, a crise do capitalismo, à procura de um futuro. De colonizadores tradicionalistas tornámo-nos em país colonizado. De regime ditatorial tornámo-nos numa democracia oligárquica. De um surto de desenvolvimento industrial frágil tornámo-nos num país modernizado mas sem indústria e sem honra, à mercê dos ultimatos dos nossos parceiros.

Seremos capazes de entender os erros do passado? E tirar deles o proveito para o futuro?”

António Pedro Dores

(Professor universitário, sociólogo) – Lisboa

 

abril 05 - 01abr13 

“QUASE QUATRO DÉCADAS DEPOIS DO 25 DE ABRIL SÓ MESMO A “RUA” AINDA É DO POVO!”

 “Passados 39 anos do 25 de Abril de 1974 em que o Movimento das Forças Armadas pôs fim ao regime ditatorial e colonialista de Salazar e Caetano, que trouxe as liberdades democráticas e abriu as portas, pelas quais irrompeu um impetuoso movimento popular que alcançou conquistas revolucionárias e populares. Ao longo de todos estes anos o 25 de Abril tem sido denegrido e sobretudo esvaziado o seu conteúdo de cariz mais popular.

Mas, se dúvidas houvessem de que valeu a pena esta data histórica para os portugueses e povos que eram oprimidos e colonizados, as grandes transformações politicas e sociais que se operaram em Portugal, que marcaram decididamente uma viragem das mais significativas da nossa história contemporânea, são determinantes da sua importância.

O fim da guerra colonial, as liberdades sindicais, a organização de partidos políticos, a subida de salários, a ocupação de casas devolutas, a organização de comissões de soldados e sua participação fardados nas manifestações de rua ou as nacionalizações, só nos podem deixar verdadeiras saudades, num tempo em que é expresso pelos governantes ao serviço do capital e da troika, um revanchismo ideológico doentio ao espirito do 25 de Abril no capítulo das conquistas populares, que com muita luta, muita alegria, entusiasmo, solidariedade e genuína intervenção política e exercício de cidadania, se construiu democracia, liberdade, poder local, perspetivas de desenvolvimento e progresso de um povo até aí amordaçado e oprimido.

Como afirma o preâmbulo do texto da Constituição da República Portuguesa aprovada pela Assembleia Constituinte em 1976, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.” representando, “…uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.”, concluindo, “…tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.”

Mas tais “princípios fundamentais”, que exigiram sempre ao longo destas décadas de democracia, uma luta titânica entre as camadas trabalhadoras do povo e a burguesia exploradora, numa luta de classe que nunca deixou de o ser, quando as forças ao serviço dos interesses do capital nunca deram tréguas na descaraterização do espirito de Abril, desde logo, em sucessivas revisões da própria Constituição, que foram esvaziando direitos e leis, num braço de ferro traduzido em muitas lutas de resistência, operárias e sindicais, contra o desmantelamento de conquistas que em alguns casos, quase não se chegou a usufruir verdadeiramente, negadas por sucessivos governos do PS, PSD e CDS-PP e suas maiorias parlamentares, com beneplácito e coabitação sempre favorável aos mais poderosos, de presidentes da república, como Cavaco Silva.

À distância destes 39 anos da revolução dos cravos, dos dias em que o Povo inundou as praças, ruas e alamedas do país. Só mesmo a Rua ainda é do Povo, seja através do movimento sindical, da “geração à rasca”, dos “indignados” ou mais recentemente do “Que se lixe a troika”. Respostas de um Povo cansado de ser depauperado por políticas assentes no agravamento da austeridade, que só fomenta mais profunda e prolongada recessão dinamizada por um governo submisso ao capital financeiro que mais está a beneficiar de tão brutal sacrifício das famílias portuguesas, tal é a voragem, sem precedentes, de governantes que anunciam todos os dias novas medidas de austeridade sobre os mais frágeis. Verdadeira declaração de guerra do capital e dos mercados ao trabalho, que é preciso dizer basta.

Entre todas as medidas sociais, económicas e políticas que se vêm abatendo sobre um povo inteiro, impondo-lhe o empobrecimento e o assistencialismo, com todas as consequências nas áreas de serviços sociais fundamentais, como a Educação ou a Saúde, de que o governo se quer desresponsabilizar na linha da pretensão já assumida de descaraterização e esvaziamento das funções do Estado Social apoiado na maioria parlamentar de direita. Bastaria ter em consideração o mais recente anuncio público de uma nova campanha contra os funcionários públicos, que depois de outros ataques desenfreados por diferentes protagonistas neoliberais, o ultraliberal governo PSD/CDS-PP mostra de forma arrogante a sua aversão ao ainda pobre Estado Social surgido do 25 de Abril de 1974.

Num país em que o desemprego atingiu o nível de desemprego mais elevado de sempre, com mais 300 mil desempregados desde que o atual governo tomou posse. Havendo ainda mais de um milhão de pessoas sem emprego e sem receber qualquer tipo de subsídio. Tendência para subir perante a insistente política de austeridade sobre austeridade. O governo mais conservador do pós-25 de Abril, não esconde o seu revanchismo aos direitos e regalias conquistadas pelos trabalhadores, incluindo a conquista de Abril sobre aumento salarial. Por isso, depois de mais uma campanha orquestrada contra o Estado Social, faz chantagem sobre a função pública, com vista a baixar salários dos trabalhadores do Estado e naturalmente do privado, para quem os salários públicos servem de referência.

O resultado é simples. O peso salarial da Função Pública baixou dos 14por cento no produto para 10,4pontos percentuais, muito abaixo da média europeia e a léguas dos 18% de países como a Dinamarca ou a Noruega. Contrastando aliás com o real aumento salarial no pós-25 de Abril, o Governo é curiosamente neste momento o único parceiro a impedir o aumento do salário mínimo nacional.

Para fragilizar ainda mais as funções sociais do Estado resultantes das conquistas de Abril, de um Povo que saiu à Rua e assustou o capital, o governo Passos Coelho/Paulo Portas agora humilha os profissionais da função pública em nome do peso da administração pública, apontando a porta da rua para 150 mil funcionários públicos, escamoteando cinicamente, que durante os anos do anterior Governo do Partido Socialista a administração pública, através da regra 2 por 1 e depois 5 por 1, perdeu mais de 50 mil funcionários.

Agora, em menos de dois anos no Governo, PSD e CDS cortaram 25 mil postos de trabalho no Estado, mostrando-se ainda insaciável ao ponto de anunciar um programa de chantagem violenta sobre os trabalhadores de mais fracos recursos na administração pública, como resultando da continuação dos planos de austeridade, que está a impor a pobreza a quem trabalha.

Perante tanta afronta, tanta chantagem, tanto revanchismo. Impõe-se o essencial de Abril através da resistência das esquerdas e de todas as forças democráticas disponíveis para contrariarem e se oporem com alternativas às políticas fundamentalistas e troikianas que salvem este país em ruinas e as várias gerações à rasca, através da luta também na Rua que ainda é do Povo!

José Carlos Lopes

(Assistente Operacional na Educação) – Ovar

 

 abril 06 - 01abr13

“NASCI EM DEMOCRACIA? O TANAS É QUE NASCI!”

 Aceitei o repto lançado pelo “Etc e Tal Jornal” para dar umas dicas, muito próprias, sobre os “39” de Abril. Já lá vão 39 e eu tenho 39… anos. Portanto, poderá dizer quem lê o meu escrito, que nasci em democracia. Nasci… o tanas!

Se democracia é estar desempregado – como eu mais um milhão e trezentos mil -; se democracia é prestar vassalagem sem condicionalismos ao imperialismo económico-financeiro alemão; se democracia é não ter pão para dar aos filhos; se democracia é, para milhares de pessoas ter trabalho precário; se democracia é ter desgovernantes como estes; se democracia é, para quem tem filhos, saber que os seus netos ainda vão estar a pagar as asneiras dos democratas: ora porra para a democracia.

Mas calma, e para o baile! Se pensam que vou dizer que o outro regime era bom… tirem o cavalinho da chuva porque não! O que quero dizer é que, se a espaços, Portugal evoluiu – e evoluiu – por outro não soube consolidar essa evolução, porque a Justiça não evoluiu, porque deixaram crescer o número de caciques como cogumelos, porque a luxuria é cada vez mais luxuria e os luxuosos mais proxenetas e, enquanto isso, há um senhor que quer empandeirar a juventude pensadora deste país, obrigando-a a emigrar, e outros ministros a lerem todos os dias com muita atenção as páginas de necrologia dos jornais, para saber quantos velhos morreram, me modo a fazerem contas à poupança nas prestações sociais.

Portugal não poderia ser a Cuba da Europa, mas hoje também não pode ser o tubo de ensaio de meia-dúzia de malucos ultraneoliberais da direita tenebrosa.

39 anos depois sinto-me que me tiraram o tapete debaixo dos pés. A mim e aos meus pais que já deveriam estar descansadinhos a passar momentos tranquilos perspetivando o final das suas vidas. Mas não. Por isso, o 25 de Abril sabe-me a pouco, é que ainda não sei onde é que esta a segurança real e concreta quanto à Paz (social), ao Pão, à Habitação, à Saúde e à Educação. Onde? Não me peçam para perguntar ao Sérgio Godinho…

Manuel Cordeiro

(desempregado) – Almada

 

abril 07 - 01abr13 

“ABRIL: 39 ANOS DEPOIS. O PRESENTE! O FUTURO? QUE DESAFIOS!?”

 “A Revolução Portuguesa de 25 de Abril de 1974 inscreveu na História de Portugal um momento de viragem, de rutura com as amarras fascistas da repressão e do empobrecimento generalizado do povo português, de grandes transformações sociais, culturais e económicas, da conquista de direitos e liberdades, que permitiu estabelecer o compromisso da construção de uma democracia rumo ao Socialismo, efetivado com a aprovação da Constituição da República Portuguesa a 2 de abril de 1976, a consagração das conquistas de Abril.

A nacionalização da banca, a reforma agrária, o salário mínimo, a elevação do poder de compra das massas, o poder local democrático, o serviço nacional de saúde, entre muitos outras no domínio político, social, cultural e económico, fazem parte do património das conquistas de abril e que permitiram então, não só responder à crise que mundo capitalista vivia, mas encetar um projeto de desenvolvimento endógeno para o país.

Analisando o Presente, 39 anos depois do 25 de Abril, percebe-se que existe claramente um desfasamento cada vez mais profundo entre aquilo que foram as conquistas da Revolução, patentes na Constituição, as promessas que Abril abria e a prática dos sucessivos governos, PS, PSD, CDS, com a anuência dos respetivos Presidentes da República.

Contrariamente ao delineado pela Constituição, foram consecutivamente submetendo o poder político democrático ao poder económico e financeiro, ignoraram a promoção de uma economia sustentada, a dinamização e desenvolvimento dos meios de produção agrícolas, industriais, e comerciais. Enfraqueceram consecutivamente os direitos de Abril, como o direito à Educação, à Saúde, ao Trabalho, à Habitação, à Cultura, entre muitos outros que foram negligenciados face a uma política autista aos Portugueses e à Constituição da República. Nestes 39 anos, Portugal foi paulatinamente entrando em divergência económica, os seus défices estruturais e a dívida externa forma aumentado agravando a nossa dependência externa, consequentemente foi-se agravado as desigualdades sociais, a exploração do trabalho, o desemprego cada vez mais estrutural, a precariedade laboral e a pobreza.

Como resultado destas políticas, está hoje cada vez mais em causa a soberania e a independência nacional, não só pela submissão de sucessivos governos nacionais a uma integração capitalista europeia, sobre a batuta do grande capital alemão, como sob o pretexto da dívida, somos submetidos, sem consulta popular, ao cumprimento de um memorando e a constantes avaliações pela troika estrangeira – a Comissão Europeia, o  Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.

Ora hoje o Governo PSD/CDS em funções, tal como o anterior, PS, está assumidamente mais preocupado em “honrosamente cumprir a palavra”, servindo a sua cartilha ideológica e num claro ajuste de contas com o 25 de Abril, assumindo o compromisso com a troika estrangeira, do que cumprir com a Constituição e defender os direitos, liberdades e garantias do seu povo, como se tal ato não merecesse maior honra, e que à luz da Constituição, se devesse assumir como um dever prioritário. Um Governo que acrescenta austeridade à austeridade, deixando pelo caminho os despojos da esperança e confiança dos portugueses num futuro melhor, num futuro de Abril.

As consequências desta submissão, são desastrosas e criminosas para o povo Português, e todas as medidas, uma grande parte anticonstitucionais, são vendidas como a única solução de saída.  Ora estas medidas de austeridade não só não tem resolvido os problemas para os quais foram anunciadas, com o défice público a derrapar e a dívida pública a atingir valores históricos, atingindo os 123% do PIB, como foi agravando vertiginosamente a situação económica e social, cujo número desempregados em crescimento galopante é um triste exemplo.

Em 2013, de acordo com as previsões económicas da Comissão Europeia, o PIB nacional estará ao nível do ano 2000, o PIB por habitante ao nível de 1998, o emprego ao nível de 1988, o investimento privado ao nível de 1987, a produção industrial ao nível de 1994, o peso dos salários no rendimento/produto ao nível de 1990 e os salários reiais ao nível de 2007. Com o país em divergência face à União Europeia, com uma contração do PIB nos últimos 3 anos de 10 mil milhões de euros e mais 400 mil desempregados. Este não é o Portugal que queremos, este não é o Portugal de Abril. Esta é a política de direita, das troikas externas e internas que é preciso derrotar.

Estes dados, entre outros, comprovam que o real motivo por detrás das atuais políticas a intensificação da exploração do trabalho, expropriar quem trabalha por conta do capital financeiro, sobretudo estrangeiro, em paralelo com a venda a retalho do país, tornando-o mais apetecível à voracidade capitalista das grandes multinacionais que operam no mercado interno europeu.

No Porto a realidade tem um retrato ainda mais dramático, com os mais de 20.000 desempregados inscritos nos Centros de Emprego, concentrando 6% dos beneficiários do RSI do Continente. Uma cidade em desertificação económica e social, que perde 7 habitantes, 13 postos de trabalho, e 2 empresas por dia. Uma cidade, onde a maioria PSD/CDS que a governa, juntou mais austeridade à austeridade, onde o Orçamento de 2013 é um dos mais baixos de sempre, com o valor mais baixo do investimento e o aumento da carga fiscal, enquanto reduz os efetivos, direitos e remunerações dos trabalhadores municipais.

Percebe-se que o Futuro de Portugal, seguindo este rumo, estará ensombrado, será um futuro hipotecado, negado às presentes e futuras gerações, será um futuro de desemprego, pobreza e exploração, um Portugal a emigrar por melhores condições e um Portugal estagnado suscetível às vontades dos grandes grupos económicos e financeiros. O retrocesso civilizacional, os impactos sociais e económicos, serão catastróficos para a sociedade portuguesa. Há que dizer basta! É urgente e necessário mudar de rumo e mudar de política. Pôr o país de volta aos carris de Abril.

O Desafio a alcançar é esse mesmo, reclamar um país que faça cumprir e avançar Abril. A afirmação dos valores de Abril na construção de um Portugal de progresso social, liberto das amarras da exploração. Com confiança num futuro melhor. A luta continua!

Pedro Carvalho

(vereador CDU) – Porto

 

 

(*)Textos publicados por ordem de chegada à nossa redação.

– Os títulos, quando não indicados pelo leitor, são da responsabilidade editorial do jornal.

 

 

O “Tribuna Livre” é, na realidade, o seu espaço. Aqui pode dizer de sua justiça, abordando, ao pormenor, assuntos que lhe sejam caros e de interesse geral.

Sempre respeitando o Estatuto Editorial deste jornal, pode enviar para a nossa caixa de correio eletrónica (etcetaljornal.site@gmail.com) até ao dia vinte de cada mês, o seu artigo, escrito em Microsoft Word e acompanhado, se assim o entender, da sua fotografia, neste caso em formato JPG ou JPEG.

Contamos com a sua colaboração. Este é um Espaço de Liberdade responsável…

 

1 Comment

  1. Manuel Vilarinho (Lisboa)

    Tudo o que aqui (bem) se escreve, e neste que é considerado um “espaço de liberdade responsável”, é verdade. Faltam mais destes espaços na comunicação social portuguesa, mas também mais gente a escrever. Gostei, particularmente, do texto de António Pedro Dores porque revela certos podres que determinada sociedade ainda quer esquecer, ou fazer-se esquecida.

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