A estratégia sobre que soluções para o futuro do Hospital Dr. Francisco Zagalo, de Ovar, continua muito dependente das conclusões de um estudo encomendado pelo Governo, o qual aponta para incluir esta unidade hospitalar ovarense, numa estrutura onde se inclua o Hospital São Sebastião, da Feira, e os hospitais de S. João da Madeira e Oliveira de Azeméis, juntando ainda os centros de saúde de seis concelhos do distrito de Aveiro.
Mas o caminho apontado pelo designado “plano de negócios”, para justificar uma Unidade Local de Saúde de Entre Douro e Vouga, EPE (ULS), que já há cerca de um ano tinha surpreendido profissionais de vários serviços de saúde e responsáveis políticos e autarcas locais, acabou por dar tempo ao tempo para ir esvaziando algumas resistências, dúvidas e inquietações então manifestadas sobre as soluções para o Hospital de Ovar ao ponto de, nem no Parlamento, nem na Assembleia Municipal de Ovar as forças políticas da maioria que viabilizam o Governo, se entenderem sobre alternativas ao atual empasse.
Com o Hospital de Ovar a funcionar num quadro de incerteza quanto ao tipo de organização no futuro, acaba recorrentemente por merecer atenção das diferentes forças politicas. Curiosamente até na rede social facebook, uma noticia que tinha sido publicada já há um ano, em que o reeleito presidente de Junta da União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e São Vicente de Pereira Jusã, Bruno Oliveira, exigia a reabertura das Urgências no Hospital de Ovar. Deu origem a uma entusiástica onda de apoio a tal pretensão, como tendo finalmente despertado na população local uma consciência cívica, ainda que, com estranhas nuances para esquecer os partidos ou “despir a camisola”. Muitas dezenas de mensagens realçavam a “falta de peso político” e outras, a contestação às atuais dificuldades de atendimento no Hospital de São Sebastião para onde são encaminhados os doentes de Ovar.

No entanto, a defesa do Hospital de Ovar parece não despertar os tradicionais movimentos cívicos que em outras circunstâncias, alimentariam e dariam rosto às reivindicações populares no caso dos serviços públicos, como neste caso da Saúde. A onda de disponibilidade manifestada no facebook, para apoiar o presidente da Junta, que entretanto não voltou ao tema, já que tal exige confrontar o seu próprio Governo sobre investimentos na área da Saúde, diluiu-se na comoda indignação da rede social, restando aos partidos o natural espaço e campo politico natural, para continuarem a esgrimirem argumentos para encontrarem alternativas na perspetiva de politicas de proximidade nos serviços de Saúde, que neste caso do Hospital de Ovar continuam a dividir as várias forças politicas, sempre que há iniciativas como as que têm sido assumidas pelo PCP ou BE.
Depois da campanha desenvolvida pelo PCP em torno de uma petição em defesa do Hospital de Ovar, que viria a ser apresentada em junho no Parlamento como um diploma com vista á defesa da autonomia desta unidade e contra a tentativa da sua integração numa Unidade Local de Saúde (ULS), assim como no reforço em meios técnicos e humanos. Posição que defendia ainda a articulação deste Hospital com outras unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS), nomeadamente cuidados hospitalares, cuidados continuados e cuidados primários. Medidas propostas pelo PCP em que é ainda defendido no âmbito de serviços de saúde de qualidade e proximidade, a necessidade de se proceder aos estudos necessários para a fundamentação da reabertura do Serviço de Urgência Básico do Hospital Dr. Francisco Zagalo.
Esta iniciativa parlamentar do PCP, apoiada por um amplo movimento de cidadãos subscritores de uma petição em defesa do Hospital de Ovar, acabaria, no que toca a pontos fundamentais como a defesa da autonomia do hospital, por ser rejeitados pelos deputados do PS e PSD, enquanto os restantes pontos mais consensuais, acabaram aprovados por maioria com a abstenção do PS. Para o PCP de Ovar as posições assumidas pelos “deputados do PS e PSD não surpreende e coincidem com as posições das estruturas locais destes partidos”, que na Assembleia Municipal de Ovar em abril, insistiram na recusa de admitirem a manutenção da autonomia do Hospital de Ovar, ao serem favoráveis à integração numa megaestrutura. Posições que levaram o PCP na altura a antever a falta de vontade política de investimento nesta unidade de saúde.
Mais recentemente também o Bloco de Esquerda voltou a levar o tema do Hospital de Ovar à Assembleia da República (AR), propondo a rejeição do estudo encomendado pelo Governo, que segundo este partido, poderia, “traduzir-se na perda de valências e de serviços, principalmente os serviços de proximidade à população”, bem como, “porque teria como consequência o corte de serviços muito importantes para a população, como a realização de exames médicos no hospital de Ovar”. O BE propôs então como alternativa ao caminho que resulta do referido estudo do Governo, “um maior investimento e uma maior concentração de profissionais, garantindo proximidade, melhor acesso e maior qualidade dos serviços de saúde prestados à população”, bem como, “a realização de obras urgentes no bloco operatório do Hospital de Ovar, assim como a reabertura do Serviço de Urgência”.
Mas as propostas do Bloco também acabaram rejeitadas na AR pelos deputados do PS e PSD e com a abstenção do CDS. Partidos que curiosamente, localmente, em Ovar, tinham-se manifestado contra o chamado “plano de negócios” que resultou do estudo. Denuncia assumida pelo deputado bloquista, Moisés Ferreira, junto do Hospital e do Centro de Saúde de Ovar.
Com os mesmos pressupostos de rejeição da projetada megaestrutura que resulta da Unidade Local de Saúde do Entre Douro e Vouga (ULSEDV), o grupo municipal do BE insistiu no tema na sessão de novembro da Assembleia Municipal de Ovar, através de uma recomendação. Mas mais uma vez, no atual quadro político nacional e local, o Hospital de Ovar não reúne consensos partidários e acaba como arma de arremesso, fundamentalmente entre os partidos que se vão revezando no Governo ou no Município ovarense, enquanto os sucessivos governos vão protelando medidas também em função das disputas politicas entre poder local e poder central, o que faz com que o Hospital de Ovar continue numa espécie de bimbo sobre o futuro da sua autonomia, resultando numa natural instabilidade desde logo para os seus trabalhadores.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente “EeTj” em Ovar-Aveiro
01jan18
