(REEDIÇÃO)Há quase dois anos, em excursão, passamos por ela rumo a Santiago de Compostela. Olhamo-la, e vimo-la tranquila, envolta num azul celeste deslumbrante. Pelo Google, fomo-la namorando. Há, sensivelmente, um ano, quando a Vigo nos deslocamos em reportagem, estivemos quase para a visitar. E ela, ali, quieta, no seu milenar sítio, banhada pelo rio Lérez, no sudoeste galego, olhando para nós, sorrindo, como que à nossa espera.
Pontevedra. A “señorita” da Galiza recebeu-nos no dia 02 de fevereiro de 2018.
Ficamos… encantados!
José Gonçalves Pedro N. Silva
(texto) (fotos e vídeo)
A fronteira (Valença) com Portugal “está ali”, a sul, a poucos mais de 50 quilómetros. A norte, Santiago de Compostela (60Km). À beirinha… Vigo. O mar não está distante, e, a muito menos, a Ria de Vigo.
Na margem esquerda do rio Lérez, Pontevedra é considerada a capital da famosa região das Rias Baixas e um ponto central no Caminho Português de Santiago.
Fomos lá. Estivemos lá. Saímos de lá deslumbrados.
Da cidade do Porto abalámos, uma vez mais, com o apoio (?!) ferroviário do “Celta”, que, neste dia, não teve origem em Campanhã a sua viagem com destino a Vigo.
Não!
O comboio internacional em que fomos (vidros sujos, um barulho ensurdecedor de motores etc e tal) veio da Régua e com um atraso de dez que foram vinte minutos. E tinha de ser no “Celta”, porque de “Expresso” – autocarro – os horários não eram compatíveis com as nossas exigências.

Foi a terceira viagem, num espaço de um ano, que fizemos neste transporte com marca CP mas gerido “logisticamente” pela espanhola Renfe. Uma automotora que espera, há muito, pela reforma; reforma essa que – pelos vistos – as catenárias (os “ferros”, em certos sítios, estão ao alto, só lhes faltam os cabos elétricos), teimam em recusar, para lhe ocupar o lugar e função, um comboio movido a… eletricidade.
Digamos que já estamos habituados a andar neste velhinho transporte que envergonha qualquer português – como já referimos, escrevendo-o, por diversas vezes-, mas, o mais engraçado, é que em todas as viagens há novidades. Nesta, o facto de a coitada, mas corajosa, automotora ter vindo da Régua até Campanhã para nos levar até à estação de Guixar. Vigo…


E quanto “guinchou” a velhinha para lá chegar (!) – mesmo parando em Nine, Viana do Castelo e Valença – e, por fim, estacionar em Vigo, como sempre, junto à sua “prima”, moderna e atraente, espanhola, que nos esperava para depois partir rumo à A Coruña, com paragem – claro está – em Pontevedra.
O que interessa é que chegámos bem!
Mesmo atrasados, a verdade é que o tempo que tínhamos para o transbordo (20 minutos) foi suficiente para ainda bebermos um “café solo”.

Estava cumprida a primeira de cinco etapas desta viagem/reportagem.
Em Vigo-Guixar, entramos, pela primeira vez, num comboio espanhol. Quando digo “entramos” digo eu (quem vos escreve) e o Pedro (que vos oferece os registos fotográficos).
Vindo de onde tínhamos vindo, os olhos arregalaram-se. A comodidade do comboio espanhol era outra (melhor! Pior era impossível), ainda que também se tratasse de uma automotora.
É bom, contudo, referir, que os “nossos” inter-regionais, intercidades e urbanos são mais espaçosos que o serviço espanhol por nós utilizado. É verdade que este tem self-service (normal para uma viagem de média ou longa distância) – é verdade, sim senhor! -, assim como, um bom isolamento sonoro com o exterior… muito bem! Mas, por exemplo, os bancos não são tão confortáveis como os nossos.
Pronto, algo em que lhes ganhámos!
A 40 à hora – não estou exagerar – percorremos parte dos cerca de 27 quilómetros que distam Vigo de Pontevedra, a quarta paragem desta curta viagem, que passou (“sobrevoando”) pela bonita Redondela, e nos “brindou” com bonitas paisagens das regiões banhadas pela Ria de Vigo.

Às 13 horas (espanholas) estávamos em… Pontevedra. Nos últimos quilómetros da etapa, o comboio ganhou velocidade.
Pequenina, mas bonita e “mais-que-limpa”, a estação de Pontevedra. O chão… um verdadeiro espelho.


Pouca gente no interior do edifício, mas lá fora… bem, no exterior da estação: um autêntico reboliço, algo de normal numa cidade (cerca de 100 mil habitantes) em dia de trabalho.
Frio (10º). Sol. Algumas nuvens no horizonte. Os meteorologistas anunciavam… “dois aguaceiros” para a tarde.
É altura para almoço.
Os estômagos portugueses – como sempre, ou quase sempre – adaptam-se bem à diferença horária (neste caso: mais uma hora que em Portugal), e, assim sendo, e como que cumprindo aquilo que nos caracteriza, fomos à procura de um restaurante antes de iniciarmos a mais importante etapa desta viagem: descobrir Pontevedra.
Bem. Mas, antes, fomos perguntando (em português) onde situava, mais ou menos, a Capela da Virgem Peregrina, um ex-líbris de Pontevedra.
Um jovem, muito simpático deu-nos, então, a indicação em… “português”, segundo me disse o Pedro.
Não foi em português, foi em galego, mas como o galego é parecidíssimo com o português, o meu camarada de trabalho, pensava que ele estava a fazer um esforço de tradução para ser agradável. Não!
“Baixa por esta rúa e xira á dereita. Entón vai adiante e… estás case. Pronto verás! Non é difícil!”
Entenderam?
Claro que sim!
Mais uma razão para, na Galiza, poderem falar à vontade português. Os nossos “irmãos”, entendem-nos bem!
Ora, como não era difícil o trajeto até ao “casco” histórico de Pontevedra, preparamo-nos, ainda que circulando pelas artérias indicadas, para encontrar um restaurante. Primeiro olhámos e seguimos. Depois parámos e voltamos atrás. O que estava escrito na lousa era convidativo…
O consenso foi rápido. Entrámos no “A Parrilla”. Um restaurante com uma decoração simpática, muito pitoresca. Depois de, amavelmente recebidos, partimos para o ataque ….
No final perguntaram-nos se queríamos mais?! Resposta negativa que se transformou, minutos depois, em nota de arrependimento.
Contas feitas com o estômago (e com o restaurante, pois que fique claro!), partimos, então rumo à Capela da Virxe Peregrina (Capela da Virgem Peregrina), o ícone da cidade; cidade que na altura em que a visitamos se preparava para festejar um Carnaval muito à sua maneira. Festa que resistiu à ditadura franquista, e onde se destacam os disfarces tradicionais, muito parecidos com os dos nossos Caretos.
Até ao casco histórico (zona histórica, se preferirem), passamos por ruas movimentadas, onde o comércio dita leis, destacando-se, curiosamente, o grande número de farmácias existentes na cidade. Cidade que, além do comércio, é particularmente, conhecida pelos muitos serviços (público e provados) lá sediados.
Já no centro histórico de Pontevedra, somos “confrontados” com a primeira das muitas praças que nos surpreendem, praticamente, a cada esquina, como a que abre, por assim dizer, a estreita Rua da Peregrina, onde encontramos a Fuente de Los Niños (Fonte das Crianças). Obra relativamente recente (2002), situada bem perto da bonita Praza (Praça) da Peregrina.
Praça a que num “repente” chegámos. Escondida, mas depois imponente, lá estava a Capela da Virxe… Peregrina (Capela da Virgem Peregrina).
Acabada de construir a 18 de junho de 1778, esta capela começou por ser local de veneração à Virgem do Caminho (Caminho de Santiago) e depois à Peregrina, tendo sido profundamente reestruturada no século XIX.
Logo ao lado, e tendo como a envolver a Praza da Ferraría, temos o Convento de S. Francisco de Pontevedra. Bonito de se ver, ainda que só a Igreja. Há quem diga que foi o próprio S. Francisco de Assis que o terá fundado; outros dizem que já existia quando este passou por Pontevedra a caminho de Santiago de Compostela.
Na Praza (Praça) compramos, num quiosque, o “Diário de Pontevedra”, um jornal interessante, com um grafismo apelativo e – na edição de fim-de-semana – com 80 páginas, ao preço de € 1,20. Em Pontevedra, e na Galiza em geral, os jornais em papel têm um importante estatuto, e ainda que a vertente digital não seja ignorada, a verdade é que a aposta no papel é forte, até porque os índices de leitura na região são significativos.
E continuamos a nosso caminho, não propriamente o de Santiago, mas o de Pontevedra, por ruelas estreitas e algumas praças (esta cidade está recheada de praças e espaços verdes) em direção à marginal do rio Lérez, onde se destaca a Ponte do Burgo, e a Marina, local onde está sediado o Club Naval. A propósito, esta é uma terra de pescadores e marinheiros.
No que diz respeito à Ponte do Burgo, que cruza o rio Lérez e de construção romana, por ela passa o Caminho Português de Santiago, e foi batizada de Burgo, pois na área se começou a edificar o burgo (Ponte Veteri – “Veteri” é palavra do puro latim que em português quer dizer “velho”) que é hoje Pontevedra.
Com algumas nuvens a surgirem no horizonte, e lembrando os dois aguaceiros previstos para o dia, começamos a “dar corda” aos sapatos (melhor, sapatilhas), passando por ruas e praças muito bonitas, onde as casas apresentam uma arquitetura muito própria…
…. e demos, então uma escapadela até à Basílica de Santa Maria A Maior, que é a Igreja Matriz de Pontevedra, e que, estava fechada quando por lá passamos.
Diga-se que a área envolvente não estava muito convidativa a grandes visitas pelo seu aspeto: muito musgo na escadaria, a dar como que uma ideia de incompreensível abandono.
Bem! Sabe-se que a construção desta Igreja (Basílica desde 1962, por decreto do Papa João XXIII) foi promovida por um “grémio de marinheiros” do Bairro da Moureira, e que a visitavam, venerando a Santa sempre que tinham de ir para o mar.
Continuamos o nosso périplo pela marginal até chegarmos à Rúa de Alameda e depois à Praza de España. Aproximava-se a hora do lanche e o cansaço já era notório.

Subimos, então, a espaçosa e acolhedora Rúa de Alameda, para chegarmos à Praza de España, onde se encontra a Sub-delegação do Governo Regional (câmara municipal) e o monumento aos Heroes de Pontesampaio, assim como um número considerável de pastelarias. Fomos a uma.
Surpreendeu-nos, logo à entrada, uma autêntica “revolta” de pombos errantes (verdadeiros “pombos galegos” como lhes chamamos em Portugal). A bicharada não se contentou com o que lhe deitaram para o chão, e como que insatisfeitos, subiram às mesas, chegando ao ponto de se atirarem às empregadas da pastelaria que os tentava afastar do local…
Uma vez na pastelaria, lá fora, caía o primeiro dos dois aguaceiros anunciados pela meteorologia local. Sentadinhos e com dois “cafés solo” bem servidos e acompanhados por bolos (não apontei o nome das doçuras), foram ainda servidas (para quem vos escreve) dois freixós, um tipo de folhado recheado com natas e frutos. Uma maravilha! O Pedro comeu um pastel recheado de chocolate e frutos que disse ser muito bom (pelo menos, o prato ficou vazio num instante) …
Recompostos. Avançamos para a derradeira parte do nosso périplo por Pontevedra, sempre pelas simpáticas ruas estreitas e praças ajardinadas…
Destaque-se o facto de as placas toponímicas serem muito parecidas com as do Porto no seu design.
De salientar aindao facto curioso que em Pontevedra, ainda que circulem muitos autocarros, eles afastam-se do centro da cidade, dirigindo-se ou chegando à Estação de Camionagem local (junto à de caminho-de-ferro) de diversas regiões da Galiza e também de Portugal (rede Expresso). Na urbe, há, em algumas ruas, uma outra placa sinalizaando paragem de autocarros, mas sem indicação do número da linha/carreira, nem do destino…
E por ruas e ruelas, passamos, então, pelo Teatro Principal…
….e ainda pela Capela da Ánimas, um pequeno e vetusto santuário que passa quase despercebido, mas que é muito lindo..
E avançamos rúa a rúa, praza a praza, sentindo o pulsar de uma cidade, mas já no seus arredores. Tivemos mesmo que nos reorientar, pedindo ajuda a um jovem para nos indicar o caminho para a estação ferroviária. Estávamos lá perto, e ainda tínhamos pela frente uma hora e tal, até a altura de apanharmos o comboio para Vigo.
Gente simpática esta a de Pontevedra, aliás como a de toda a Galiza, não só as das cidades que já visitamos (Vigo, em reportagem deste jornal há um ano, e Santiago de Compostela em excursão, à qual regressaremos no próximo mês de junho), mas também as pessoas que encontramos, e não são poucas, a viver no Porto ou de passagem pela Invicta.
E, pronto. Regressamos ao Porto, com primeira paragem em Vigo (onde “jantamos), e, depois, o retomar de uma viagem “apressada” do Celta até Campanhã.
É claro que muito ficou por visitar neste curto périplo que fizemos pela bela Pontevedra. Um périplo que não saiu caro, para duas pessoas (cerca de 60 euros em transportes – na totalidade. E 30 euros para lanche e afins). Com cem euros faz-se bem a “festa”.
Independentemente das contas que têm de ser sempre feitas (e bem feitas!), a verdade é que vale a pena visitar esta cidade, não só pela sua monumentalidade, mas também por toda uma vivência que marca gerações e que não é visível – a olho nu -, para o turista ocasional.
Esta cidade, além da sua forte ligação à ria e ao mar, entranha estórias relacionadas com a boémia, onde os bons vinhos da região, bebidos – à moda antiga – em “tacinhas brancas” – como nos conta o nosso colunista José Luís Montero – e que marcavam o “estado de espírito da juventude de uma outra época.
E em questões de boémia, destaca-se a de, entre os jovens, de há uns anos, encontrar-se, o também galego e, hoje, chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy, que, com os seus amigos, não deixava de, de vez em quando, “provar” umas Cubalibres, daí o apelido, pelo qual era conhecido, de “Marianito Cubatas”.
Vidas de um Pontevedra que também passavam pelo famoso Café Caravela, em pleno casco histórico, e por outras tasquinhas que dão alma uma zona ribeirinha de pescadores e marinheiros muito peculiar.
De Pontevedra fica a promessa de um regresso (quiçá na companhia de dezenas de pessoas, em excursão) para breve. Ficamos como que “apaixonados” por uma cidade que vale por si só. “Veña aqui e verás que é certo…”
Esta reportagem teve o apoio de…
01mar18

























































































Um bom roteiro que motiva a fazer esta viagem…
IMPECÁVEL, muito bom trabalho…