Os católicos da segunda maior Diocese do País (cerca de dois milhões de almas) estão a estranhar a demora na escolha e nomeação do novo bispo do Porto, depois da repentina morte (enfarte fulminante) de D. António Francisco dos Santos, com 69 anos, ocorrida a 11 de setembro de 2017.
O lugar tem sido ocupado, neste período de transição, pelo bispo administrador diocesano, D. António Bessa Taipa, esperando-se, há meses, pela escolha da Congregação de Bispos, na Santa Sé, em Roma- e não diretamente pelo Papa Francisco-, de um dos três nomes sugeridos pelo embaixador da Santa Sé em Portugal, Rino Passigato, para bispo do Porto.
José Gonçalves Pedro N. Silva
(texto) (fotos)
António Augusto Azevedo, bispo auxiliar do Porto; Virgílio Antunes, bispo de Coimbra, e Manuel Linda, bispo das Forças Armadas, são, como noticiou o “Público”, a 31 de janeiro último, as três personalidades levadas a “escrutínio”, sendo, contudo, notório algum mal-estar na Diocese do Porto, quanto ao tempo que está a levar a decisão da Santa Sé.
António Azevedo: o “listado” mais consensual

Ao que o “Etc e Tal jornal” (EeTj) apurou, junto de fontes fidedignas – ninguém por nós contactado quis dar, para já, a cara publicamente -, é o nome de António Augusto Azevedo que reúne maior consenso local.
António Augusto de Oliveira Azevedo, com 55 anos, nasceu na Maia, tendo sido ordenado padre em 1986. Doutorado em Filosofia, foi assistente diocesano do Centro de Preparação para o Matrimónio desde 2005 e juiz do Tribunal Eclesiástico do Porto desde 2004. Antes, trabalhou nas paróquias de Santo Tirso e Vilar do Paraíso, em Gaia, e foi capelão militar na Força Aérea.
A verdade, contudo, é que se D. António Augusto Azevedo for nomeado Bispo do Porto, quebra, com isso, uma tradição na Diocese, uma vez que os bispos para ela nomeados têm, normalmente provas dadas no “cargo” em outras dioceses ou instituições. Por exemplo, D. Manuel Clemente, antes de chegar a bispo do Porto, foi “auxiliar” de Lisboa, e D. António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro.
Sabendo-se que há mais dioceses portuguesas à espera de um novo bispo (Évora, Viseu e Funchal são algumas delas), não será fácil para o Congresso de Bispos encontrar um nome, neste caso específico, para o Porto.
Há ainda a ter em conta o facto de esta sucessão ter sido “imprevista”, ou seja, devido à morte súbita do bispo D. António Francisco dos Santos. Assim sendo, “não se trata de uma sucessão preparada com tempo e com tempo pensada, como por exemplo o é, quando um bispo tem já uma idade avançada, pelo que o processo de escolha demora mais tempo”, referiu ao nosso jornal um padre com responsabilidades numa paróquia do Norte do país.
Nomeação a 25 de março?

De momento, nada se sabe, em concreto, sobre a possível data em que será revelado o nome do novo bispo do Porto, mas “para que seja conhecido antes da Páscoa, terá de ser anunciado num momento importante, como é o de 25 de março, Dia da Anunciação do Senhor”.
Mas, não é certa, nem esta nem outra data, uma vez que “temos de ter também em atenção que, por ano, são nomeados, uma média de 170 bispos a nível mundial, o que não é, como se pode compreender, uma tarefa fácil”, referiu um outro pároco contactado pelo “EeTj”
“Para já, esperamos é que o novo bispo, continue o trabalho de proximidade desenvolvido por D. António Francisco dos Santos. Para que tal seja uma realidade, penso que António Azevedo reúne essas condições. Aliás, na linha defendida pelo Papa Francisco”, referiu ainda a nossa fonte.
Recuando um pouco no tempo – e no que à espera de decisões por parte da Santa Sé quanto à nomeação de bispos através do respetivo congresso diz respeito -, “já quando D. Manuel Clemente foi transferido da Diocese do Porto para a de Lisboa, para exercer a função de cardeal-patriarca, demorou cerca de um ano a escolha de D. António Francisco dos Santos para ocupar o lugar”, pelo que, e ainda de acordo com o nosso interlocutor, “o atual processo não está tão demorado quanto isso”.
O que se coloca, de momento, em questão, – e lembram-no alguns padres – é que o próprio Papa pediu, em 2015, que todo este tipo de processos fosse mais célere, “o que, aqui, realmente, não está a acontecer, e isso é incomodativo”, salientou o nosso interlocutor.
António Marto fora da lista, mas …

Não se encontrando na lista do embaixador da Santa Sé em Lisboa, revelada pela comunicação social, outro dos nomes que reúne forte consenso, e cumpre com a tradição de transição de alguém que já foi bispo de uma diocese antes de chegar ao Porto, surge António Marto, bispo de Fátima-Leiria, ainda que conte já com 70 anos de idade, pelo que daqui a cinco terá de apresentar a resignação. A única hipótese para que António Marto pudesse ocupar o lugar de Bispo do Porto, seria uma indicação direta por parte do Papa Francisco, o que é visto como muito pouco provável.
Mas, outros nomes há que são apontados como potenciais sucessores de D. António Francisco dos Santos, (José Ornelas, bispo de setúbal; António Couto, de Lamego, José Cordeiro, de Bragança, e Virgílio Antunes, de Coimbra), mas nenhum deles, pelo que podemos constatar, é tão consensual quanto o nome de António Augusto Azevedo, e, tão pouco, foram sugeridos pelo embaixador da Santa Sé em Portugal. Um deles pode é ser nomeado diretamente pelo Papa.
OS BISPOS DO PORTO NOS ÚLTIMOS 50 ANOS
A Diocese do Porto tem dois milhões de almas, pertencentes a 477 paróquias de 26 concelhos, 17 dos quais do distrito do Porto, oito de Aveiro e um de Braga. Tem quatro regiões pastorais; 22 vigarias e 477 paróquias, e uma história milenar, cujo primeiro testemunho da sua existência remonta à segunda metade do século VI.

Nos últimos cinquenta anos, passaram pela Diocese cinco bispos, sendo, de todos eles, D. António Ferreira Gomes o mais popular, por, entre outros factos, se opor, declaradamente, ao regime fascista “instalado” em Portugal durante 41 anos, até ao dia 25 de abril de 1974.
O exílio
António Ferreira Gomes chegou à Diocese do Porto, depois de ter sido bispo de Portalegre, em 1952, deixando de ser bispo do Porto em 1982. Num entretanto, porém, saiu do país a 24 de julho de 1959, por ser aconselhado a retirar-se uns tempos para férias, é depois proibido de entrar. Vê-se, assim, forçado a um exílio de dez anos, iniciado em Vigo e depois continuado em Santiago de Compostela, Valência – onde colabora na ação Pastoral –, Lourdes, Ciudad Rodrigoe Salamanca. Nestes locais, recebe frequentes visitas de amigos e apoio da diocese do Porto, que soube ser fiel e digna no exílio do seu bispo.
Durante o Concílio está em Roma, é membro da Comissão dos Seminários e Estudos, e participa na aula conciliar com intervenções de interesse, relativas ao esquema dos bispos, do ecumenismo, da Igreja no mundo e da liberdade religiosa (1963-1965), talvez esta a mais pertinente. Juntamente com o portuense D. Sebastião Soares de Resende, tem as intervenções mais relevantes da débil presença portuguesa no Concílio Vaticano II.
O regresso…
No ano de 1969, devido a diligências da ala liberal, em colaboração com padres diocesanos atuantes junto da Nunciatura, Marcello Caetano autoriza a sua entrada em Portugal. Agora é o esforço de retomar e de redescobrir a diocese e de a reestruturar no estilo do Concílio. A sua preocupação dominante de pastor foi a doutrinação e a criação de organismo de correspondência eclesial.
Não deixa de ser uma figura incómoda e polémica. São exemplos: a presença no julgamento do P. Mário Pais de Oliveira nos dias 7 e 8 de janeiro de 1971; a homilia da paz de 1972 quando fala da teologia da guerra e inclui referências às “virtudes militares” dos capelães; o interdito à paróquia de Mozelos no dia 1 de janeiro de 1974. A mesma linha ética se manteve após o 25 de Abril do mesmo ano. É um período de escrita singularmente fecunda. O diálogo com a cultura moderna será o seu tema central desde 1976 até ao fim. Isto após os esclarecidos avisos aos portugueses, com apelos à tolerância e a denúncia dos novos perigos pós-revolucionários.
Dentro da Igreja, a crítica aos cristãos pelo socialismo demonstrou o homem da fidelidade à memória doutrinal da Igreja (ver Cristianismo, Liberdade e Socialização, in Igreja e Missão, 75/76 (1975) 305/330). A partir de 1978, notam-se algumas reações do clero com posições mais irrequietas e radicais. Nos anos oitenta, diminuem os momentos de intervenção.
Em 1982, António ferreira Gomes, deixa de ser bispo do Porto (por limite de idade) e ara o seu lugar, foi indicado o então bispo de Viana do Castelo, D. Júlio Tavares Rebimbas, que exerceu funções no Porto de 1982 a 1997
Bispos pós António Ferreira Gomes…

Júlio Tavares rebimbas (1982-1997)

Armindo Lopes Coelho (1997-2006)

Manuel Clemente (2007-2013)
António Francisco dos Santos (2014-2017)
DIFÍCIL ESCOLHA
O escrutínio para bispo do Porto não está a ser fácil, não só pela visível demora na escolha, mas também pelo extraordinário legado de António Francisco dos Santos, muito querido junto de vários párocos da Diocese.
Nos seus três anos como bispo do Porto, António Francisco dos Santos, mesmo tendo de enfrentar alguns problemas, como o encerramento do Centro Social de Miragaia, é ainda considerado, por ter sido ”um homem dinâmico, presente, sério e simpático… próximo dos párocos”.
“Penso que os padres ganharam uma nova vida com ele”, disse-nos uma das nossas fontes, que também foi ao encontro de muitas outras opiniões: “ele deu tanto dele que acabou por esgotar-se”.
Turismo religioso
Sendo uma das mais importantes dioceses do país (para uns a primeira em crentes, para outros a segunda, a seguir a Lisboa), esse facto também não ajudará a um fácil escrutínio e isto – entre outras coisas que parecem irrelevantes à primeira vista, mas não o são na prática – por ser hoje (principalmente a cidade do Porto) centro de atração turística mundial, parte dela “acarinhada” pelos católicos que, quer queiramos quer não (turismo religioso), contribuem em muito para o dinamismo desse importante setor da economia.
Assim, e tendo em conta a relevância que o Porto e a sua região têm vindo a assumir no mundo, é natural que os holofotes se virem para o escrutínio do futuro bispo da diocese, como nunca aconteceu na contemporaneidade, e condicionem a nomeação do bispo, procurando-se, assim, um nome o mais consensual possível.
A SÉ (DO PORTO) QUE ESPERA O BISPO
Foto: seporto (01)
E a Sé Catedral do Porto aguarda também pela ordenação do seu bispo. “E que Sé?!” Só de deslumbramento, qualquer um fica, de imediato, “condicionado” com o ofício a desenvolver, se bem que com a ajuda de Deus, tudo se resolva…
Para contemplar:
Aguarda-se, então a nomeação do bispo do Porto, sendo que, e a conselho de um padre por nós contactado, “é bom não adiantar datas, mas antes da Páscoa será difícil acontecer, isto pelo andar da ‘carruagem’ ”.
No entanto, uma coisa é certa, a “estação” está cheia de crentes à espera da “locomotiva”. Espera essa que já impacienta quem de lá não arreda pé, e espera que do tal “comboio” saia uma personalidade “que venha a se dar bem com a comunidade”. Fica o derradeiro alerta de um pároco.
Para já: “Não “habemus” Bispo”! continuam a reclamar os católicos da Diocese do Porto…
Fotos: (pG) pesquisa Google
Fontes: Wikipédia
01mar18




















