O pedagogo, o político, o antifascista, o democrata, o socialista, o intelectual, o humanista, o tolerante, o amante dos livros. Assim foi lembrado no mês de maio, José Macedo Fragateiro (1918 – 1991) na passagem do centenário do seu nascimento a 7 de maio de 1918, em Portel, no Alentejo, assinalado pela Escola Secundária de Ovar (antiga Escola Industrial n.º1 de Ovar) que adotou o nome do seu ex-professor e diretor como patrono. Foi em torno de um vasto programa de eventos culturais e momentos evocativos da vida e obra deixada por uma figura marcante, cujas memórias continuam bem presentes entre a comunidade escolar e educativa, e naturalmente na comunidade local que aderiu às celebrações deste centenário assumido pela direção da escola sede do Agrupamento de Escolas de Ovar (AEO).
Para perpetuar a memória de José Macedo Fragateiro na escola a que se dedicou empenhada e entusiasticamente, a sessão solene comemorativa do centenário, começou por decorrer no dia 7 de maio com o descerramento do busto do patrono no átrio deste estabelecimento de ensino, na presença de várias dezenas de convidados, entidades, familiares e amigos. Momento a que se associaram autarcas locais e o deputado do PS, Filipe Neto Brandão, que assistiram simultaneamente ao descerrar de um painel pintado por alunos da Escola, alusivo ao evento e aos contos deixados por José Macedo Fragateiro, bem como a inauguração da abertura de uma exposição de Artes Plásticas de alunos / ex-alunos e professores / ex-professores desta Escola Secundária, com coordenação do docente Alcino Morais, que esteve patente ao público até ao final das comemorações.
José Lopes
(texto e fotos)
A sessão solene, que decorreu no lotado Auditório Cecília Oliveira, em que se realizariam todos os restantes momentos do programa, depois de ser dada a abertura pela diretora do AEO, coube a José Eduardo Fragateiro agradecer o trabalho desenvolvido pela Escola em memória de seu pai, afirmando mesmo, “é bom que tenhamos memória de quem se destacou em várias áreas”. Deixou por isso agradecimentos a todos os amigos, “comunistas, socialistas ou sociais-democratas”. Falou da sua família em Ovar e da vida política do pai, fazendo questão de realçar o apoio à candidatura do General Norton de Matos às presidenciais de 1949 da qual integrou a comissão da candidatura em Portel que resultaria na sua prisão pela PIDE em Évora e depois em Caxias.
Inevitável foi ainda falar da clandestinidade e da ida para Portel, bem como, perante os três ex-presidentes de Câmara Municipal de Ovar ali presentes (Guedes da Costa, Armando França e Manuel Oliveira), lembrar as medalhas atribuídas ao pai por Guedes da Costa e Armando França. Nesta sua breve intervenção, falou também do cargo de deputado na Assembleia da República desempenhado pelo pai e deixou por fim, palavras de agradecimento a Marcos Muge que, “fez o busto no meu pai à sua imagem!” e rematou sem hesitações, “reconheço que é o meu pai”!
Tal como Bruno Oliveira, presidente da União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e São Vicente de Pereira Jusã, o presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, “também não tive o privilégio de partilhar com o Dr. Fragateiro”, mas como reconheceu, “em boa hora a Diretora marcou esta data”, porque, “estamos a falar de alguém a que se deve a sua luta pela liberdade” e, “se hoje estou aqui como autarca, se deve a homens como ele”. O autarca referiu também a necessidade de olhar para “o trabalho do pedagogo de muitos que hoje são homens e mulheres”, concluindo que, “é com humildade que digo, um grande socialista que foi José Macedo Fragateiro”.
Numa breve contextualização, a diretora Cecília Oliveira, lembrou outras homenagens já realizadas pela Escola a José Macedo Fragateiro ao seu patrono, como a ida a Portel à inauguração de uma rua com seu nome e um painel de azulejo de Marcos Muge. Na altura foi ainda editado pela Câmara Municipal de Ovar (2000) o livro “Retalhos” com contos do homenageado, que agora a Diretora do AEO aproveitou para referir, a “importância que teria enriquecer os Contos do Dr. José Macedo Fragateiro, através de uma reedição do livro”.
As comemorações do centenário do patrono da Escola Secundária José Macedo Fragateiro, foram assumidas por Cecília Oliveira quando foi eleita neste novo mandato de Diretora, como o “encerrar um ciclo” ao mesmo tempo, como que a partilhar memórias de “uma pessoa de causas e convicções”, perguntou, “quem se lembra dele, da amizade e carinho ou da luta que travou na política”, para concluir que, “foi com homens como ele que se conseguiu o 25 de Abril”. Ao Marcos Muge agradeceu a oferta do molde do Busto de José Macedo Fragateiro.
Esta sessão solene inaugural do programa comemorativo do 100.º Aniversário teve ainda como momento cultural e musical, a participação do Canto Décimo e a encenação e dramatização do conto do patrono, “Alma Lusa” (livro “Retalhos”), interpretado por alunos da Escola, com coordenação da docente Clara Carrapatoso.
Encerramento das comemorações
Após duas semanas de atividades alusivas ao centenário (18 de maio), teve lugar a sessão final com a intervenção de personalidades que conviveram com José Macedo Fragateiro. Mais um momento enriquecido por partilha de memórias, que caberia ao historiador Alberto Lamy, alguns apontamentos da vida do homenageado, da fase do anti Estado Novo e da resistência como militante antifascista, lembrando o “grande comício no Cineteatro de Ovar” em 1968. Até o 25 de Abril que, “foi o dia mais feliz para ele”, referindo-se a José Macedo Fragateiro, que, “fundou o PS em Ovar com 14 camaradas”, para o qual convidou o próprio Alberto Lamy a integrar o processo. “Mas eu queria ser independente, foi o que também disse ao meu amigo Mota Pinto que me convidou para o PSD”.
“Foi um professor muito querido dos seus colegas e alunos. Era tolerante.” reconheceu o seu primo advogado e historiador Alberto Lamy, que, referiu igualmente a paixão como colecionador de livros e revistas. “Ia à fábrica do papel procurar livros e revistas e na aposentação saía da cama e entrava na livraria Minerva”, como confirmaria o seu então proprietário, Abílio Carrapatoso, ali na mesa entre as personalidades convidadas que conviveram com o homenageado. Abílio Carrapatoso, com sentida emoção nas palavras, falou de como se consolidou a sua amizade com o Fragateiro desde 1973, quando abriu a Minerva (entretanto encerrada) e lhe guardava as primeiras edições de livros.
“Falava-se de política, da prisão de Caxias em que esteve com Mário Soares e Salgado Zenha”, entre outros oposicionistas ao regime. Seria curiosamente neste diário encontro matinal na Minerva que José Macedo Fragateiro tomaria conhecimento do que acontecia no país no dia 25 de Abril. O dia porque tanto lutava e ambicionava na defesa da liberdade e da democracia, este “homem de partido” como definiu o Padre Manuel Pires Bastos, ainda que o tenha conhecido “já bastante tarde, depois do 25 de Abril”. Realçou ainda o “homem tolerante”, “um grande mestre e um grande pedagogo”, que em sua opinião merecia mais atenção e divulgação, dando o exemplo da internet em que numa pesquisa que fez, só aparecem alguns artigos do jornal João Semana sobre José Macedo Fragateiro, que colaborou no suplemento “Arrasto” e cuja memória ficou muito ligada a este antigo quinzenário de Ovar, porque “compreendeu que o João Semana estava ao serviço da cultura”.
O pároco local não deixou de recordar alguns momentos mais controversos, como o afastamento de José Macedo Fragateiro do leccionamento. Uma dúvida a que diretora Cecília Oliveira faz referência no seu texto de Editorial na edição especial do jornal do AEO, “Trinca Cevada”, dedicado ao centenário, quando escreve, “O Dr. José Macedo Fragateiro foi um marco na Escola Secundária (…) pela qual lutou, Escola que ajudou a crescer, Escola onde, por imperativos legais, cessou funções em 1988”.
Com a ausência de Manuel Freire entre os convidados, por razões de última hora, Pompílio Souto foi outros dos intervenientes, começado por se assumir, não como amigo, mas, “sou contemporâneo de José Macedo Fragateiro. Entre nós havia uma montanha (…), ele era do PS e eu do MDP/CDE”, circunstâncias que, “nunca afetaram o nosso respeito”, acrescentando, “era um homem belo no modo como se relacionava nesta escola”, em que o Arquiteto Pompílio também chegou a dar aulas.
Já a atual diretora do AEO, Cecília Oliveira, reafirmou, “trabalhei com o Dr. José Macedo Fragateiro, ele tinha a delicadeza de nunca desautorizar. Era pessoa solidária. Lutava pelas causas e convicções, mas no seu rame-rame. Carinhoso, delicado e amigo e não é bem verdade o que disse o Padre Bastos, apesar da pouca informação na internet, dentro da Escola temos bem lembrado”. Lembrado será também no Dia do Município já que, segundo o vice-presidente da Câmara Municipal de Ovar, Domingos Silva, o presidente Salvador Malheiro levará a reunião de Câmara a proposta de atribuição do mais alto galardão do Município a José Macedo Fragateiro, “a Medalha de Ouro”, referindo-se ao homenageado como, “é alguém que tinha o sentido da lealdade, era o que o caraterizava (…). Não sendo de Ovar ensinou muito ao povo vareiro” disse o autarca.
Foi uma longa noite, esta sessão de encerramento, que começou por ser animada musicalmente pelo Grupo de Bandolins de Esmoriz, seguindo-se testemunhos e memórias sobre José Macedo Fragateiro, filho de Romana Macedo Fragateiro e Arnaldo Fragateiro de Pinho Branco. Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Professor da Escola Industrial de Ovar n.º1 de Ovar, hoje Escola Secundária que adotou o seu nome como patrono, de 1966 a 1988, ano da sua aposentação, com uma curta interrupção para o exercício de dois mandatos de Deputado da Assembleia da República, em 1979 e Presidente do Conselho Diretivo da Escola durante 11 anos, desde 1976.
Por fim, o seu filho José Eduardo Fragateiro, que não conseguiu esconder a voz embargada em mais um momento alto das comemorações do centenário organizado pela Escola Secundária ao seu patrono, aproveitou para corrigir alguns elementos que têm sido abordados sobre a vinda da sua família para Ovar, com passagem por Avanca e dirigindo-se ao artista Marcos Muge, o autor da escultura do busto do seu pai, ali presente na sessão, afirmou, “tenho-te no coração”.
Do ambicioso programa das comemorações do centenário de José Macedo Fragateiro, para falar do “Homem e do seu Tempo”, como escreveu na edição especial do jornal Trica Cevada, o docente Helder Almeida, ou dos “100 anos vertiginosos” como titulo do editorial da diretora Cecília Oliveira. Realizou-se ainda uma tertúlia entre ex. alunos, professores e comunidade em geral sobre o patrono. A Banda Filarmónica Ovarense deu concerto e o professor do AEO, Vaz Nunes, lançou o seu livro “O Alimentador de Aves” com uma coreografia interpretada por alunos.
Assim se honrou a memória de José Macedo Fragateiro, que “encarava a política como uma arte ao serviço de uma causa maior, a de garantir uma mais justa distribuição da riqueza, emprestando à existência humana uma cada vez maior felicidade”, lê-se no texto de Helder Almeida no Trinca Cevada (maio 2018).
01jun18















Acabei de ler e apreciar esta magnífica, completa e fiel reportagem sobre a homenagem prestada ao meu grande amigo dr.Fragateiro por ocasião do centenário do seu nascimento.Parabéns e os meus agradecimentos a quem se deu ao trabalho de a elaborar.