A Oficina de Teatro da CONTACTO, uma das companhias de teatro em Ovar com meritório trabalho junto dos jovens, que realizou entre 19 de maio e 3 de junho mais uma edição do Festinfância´18, uma festa de teatro para a infância com um programa preenchido pelos trabalhos desenvolvidos pelas classes da formação teatral, classes A, B e C1. Encerrou o ano letivo 2017/18 com o exercício final da Classe C, através de um espetáculo na Casa da CONTACTO nos dias 16 e 17 em que os jovens formandos levaram à cena a temática do Bullying em meio escolar.
A peça “O Alegre Cizentão”, um texto de Maria Teresa Leite, com encenação de Manuel Ramos Costa, faz uma abordagem ao Bullying e a vitimas como as ficcionadas neste trabalho que resulta da formação na Oficina de Teatro, em que se contam histórias de diferentes tipos de Bullying tendo como enfoque a história de um rapaz, o “André”, que não resistiu à pressão que sofreu e suicidou-se, atirando-se ao rio.
Enquanto o elenco de jovens formandos, aguardavam por de trás do pano, na sua maior parte, pelo momento ansioso da estreia na representação perante o público. Um vídeo da autoria do jovem ator, João Martins, fazia a introdução do tema da peça, com as legendas “o bullying é… Ruído – Medo – Pesadelo Acordado – Humilhação – Violência – Ameaça – Perseguição”, com a interpretação de cenas em diferentes abordagens de Bullying, apresentando simultaneamente os jovens protagonistas: Clara Oliveira; Francisca Andrade; Maria Arezes; Ana Luísa; Mariana Amorim; Tiago Amaral; João Martins; Matilda Silva; Sofia Cruz; Teresa Martins; Raquel Maia e Sofia Arala.
Este trabalho com que a Classe C (alunos mais velhos) terminou o ano, não deixa de ser o resultado de diferentes vivências em meio escolar que deram origem ao texto, que conta várias histórias de Bullying de diferentes tipos, incluindo o de trocar o nome da aluna Nídia, que colegas e mesmo professores insistem chamar Lídia.
Nesta peça conta-se a história de um rapaz, “O Alegre Cinzentão” interpretado pela jovem Francisca Andrade, que terá praticado Bullying sobre um aluno, o “André” que acabou por se matar, como resultado das ameaças de que foi vitima. Mas também questiona a forma como na escola se gere tais sofrimentos e dramas, e sobretudo quando se procuram respostas para a mãe da vítima, que quer saber o porquê do seu filho se ter suicidado, ainda que a própria em jovens tenha igualmente praticado Bullying sobre uma professora.
Este coletivo teatral deixa uma exemplar mensagem pedagógica, quando a “diretora” da escola, que não denunciou diretamente o agressor, decide propor ao “Alegre Cizentão”, como nos realçou no final o encenador Manuel Ramos Costa, “um projeto de ação positiva da escola”, convidando-o a organizar atividades integradas num projeto com o título, “faz de conta que és um homem”. Um desafio que levaria o aluno, que praticou Bullying, a ter “um exercício positivo dentro da escola”, reunido em torno de si outros colegas, contribuindo para, “apaziguar e equilibrar emocionalmente, a implementar novas atividades para preencher os tempos livres dos colegas”, nomeadamente através da organização de eventos desportivos.
Um sucesso no envolvimento deste aluno que aceitou o projeto e concretizou-o, deixando a comunidade escolar admirada, nomeadamente os funcionários da escola, ao verem “O Alegre Cinzentão” empenhado com os colegas, “em melhorar as atividades e o próprio ambiente escolar”. E assim, “ele fez-se homem”, afirmou o encenador deste trabalho, para quem, “ele, acabou por crescer e acabou por perceber que de facto, o melhor é nós agirmos. É nós fazermos qualquer coisa a favor dos outros e não para desconforto dos outros”.
Por isso, e numa mensagem final, o aluno “problemático”, vem junto ao local onde o “André” se terá atirado ao rio, para lhe mostrar o mapa das atividades desenvolvidas e a adesão dos colegas, para confessar que era outra pessoa e que agora via o mundo escolar de outra maneira. Veio mostrar-lhe os resultados e dizer, “salvaste-me a vida”… “ouviste bem? Tu salvaste-me a vida”. Assim reconhecendo este “Alegre Cinzentão” que o seu comportamento anterior era errado ou como conclui Manuel Ramos Costa, formador da Oficina de Teatro da CONTACTO, “era um comportamento contra a sociedade”, ou seja, “as energias que estava a gastar praticando o Bullying, fazendo os outros sentirem-se mal, acabou por usar essas mesmas energias e todas as suas capacidades e disciplina, que passou a ter de forma positiva”.
Uma força transmitida por uma representação marcante neste final de formação que valeram muitos aplausos e palavras de valorização do trabalho apresentado, ditas pela vereadora da educação do Município de Ovar, Ana Cunha, que entregou os diplomas e a quem Manuel Ramos Costa deixou a sugestão desta peça poder ser levada a escolas e coletividades, dada a sua temática, porque sendo “um assunto complexo” como reconheceu, no meio escolar, trata-se de um “espetáculo simples, com uma cenografia muito simples”, podendo assim contribuir “no sentido de sensibilizar outros jovens, as famílias e a comunidade”.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente “Etc e Tal jornal” em Ovar – Aveiro
01jul18





