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O Café e os poetas

Carmen Navarro

Tomando pensativa uma chávena de café, reparei na cidade que viu nascer tantos e belíssimos poetas, a poesia está viva. Encontra-se nas livrarias, cafés e outros espaços, um pouco por toda a cidade,   no entanto é urgente separarmos o muito lixo que vai naquilo a chamam poesia, ser poeta não é só escrever. E lembrei este pequeno poema de Fernando Pessoa:

O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh’alma é
Moeu quem me deixa só.

Todos temos consciência que o Porto é uma cidade com uma história riquíssima de pensadores, políticos, músicos, atores, atrizes, poetas  e de uma elite que sempre discutiu o social  a cultura e o futebol, e um Povo maravilhoso. O que talvez passe despercebido é que grande parte dessa história foi arquitetada em mesas de cafés.

Os primeiros botequins chegam a Portugal em pleno século XVIII. No entanto, antes de 1755 o hábito português de frequentar estes estabelecimentos ainda não se encontrava muito enraizado

Os primeiros Cafés no Porto são o espelho da vida artística da cidade e remontam ao princípio do século XIX. A memória traz-nos o conhecimento que o um dos primeiros Cafés ou Botequins (como se dizia na época) foi o Botequim das Hortas situado na Rua da Hortas atual  (Rua do Almada) em 1820 e o Botequim da Porta dos  Carros que era conhecido pelo Botequim do Sr. Frutuoso situado no Largo da Porta dos Carros que ficavam enfrente à Igreja dos Congregados encostado à muralha Fernandina. E o Porta do Olival na que é hoje a Cordoaria, frequentado por jovens e intelectuais. Apesar de muito descaraterizado ainda funciona no mesmo local.

Café Guichard 

Em 1822, situado na Praça de D. Pedro, atual Praça da Liberdade.

Café Guichard, da terceira à quinta porta a contar da esquina
Café Guichard, da terceira à quinta porta a contar da esquina

Abriu as suas portas o Café Guichard que foi o centro dos literatos e da juventude boémia do Porto, Camilo Castelo Branco, foi a figura central deste núcleo de poetas e escritores

Poema de Camilo Castelo Branco:

A outra metade
Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para esculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”

Camilo Castelo Branco fez parte do Grupo “Leões” do Café Guichard. À mesa de Camilo sentava-se também: António Girão, Ricardo Guimarães, Evaristo Bastos, deste grupo fez parte também Júlio Dinis, Arnaldo Gama, António Coelho Lousada, Augusto Soromenho, Faustino Xavier de Morais Alexandre Braga e Soares de Passos.

Poema de Júlio Dinis:

Não meças o amor pelo tempo que dura;

Ontem amei-te mais nessa hora tão ligeira,

Senti maior prazer, gozei maior ventura,

Do que se ao pé de ti passasse a vida inteira.

 

Deixa que esta paixão termine com o dia,

Efémera recém-nascida à madrugada,

E que ao cair do sol, nessa hora de poesia,

Deixou pender no chão a fronte desfolhada.

 

Fiquemos sempre assim, um ao outro ignorados

Nestas vagas regiões duma paixão nascente.

Sigamos cada um caminho separados;

Com uma hora de amor a alma é já contente.

 

Tertúlia
Tertúlia

Foi a época de frequentar os cafés, as casas dos burgueses que tinham sempre um salão para os tertulianos exibirem a arte da conversa, da Poesia e dos bailes, os teatros foram também um ponto de encontro.

Nestes tempos o café era o centro de toda a vida, os frequentadores por vezes em discussões mais acaloradas vociferações e ameaças, armavam batalhas campais, em que uns davam e outros levavam e os poetas suspiravam mas também batiam pois era um espaço de todos.

Entre muitos, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco o historiador Magalhães Bastos. Conta-se que numa destas altercações, Ricardo Browne que ardendo em cólera, foi impedido pelo Cônsul alemão Friedelain de chicotear Camilo Castelo Branco.

Neste espaço, passaram a convergir os vultos intelectuais da cidade.

Segundo um periódico da época de nome “ Os Palradores de Café” de 1822, mostra-nos a grande importância destes locais de convívio e de longas trocas de ideias

Fundado em 1899, o Café Progresso afirma-se como sendo o mais antigo Café do Porto.

Café Camanho

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Foi neste Café que desabrochou a corrente literária conhecida por Nefelibatismo, tendo António Nobre como principal representante. E, comprovando, uma vez mais, o prestígio que o Camanho alcançou no seio da sociedade portuense, em inícios do século XX, é relevante mencionar a efeméride,  ocorrida em novembro de 1908, quando o culto negociante Dr. Júlio da Fonseca Araújo,  que foi presidente da Associação Comercial do Porto de 1906 a 1911, teve o ensejo de receber, no Camanho, numa festa memorável, de rara sumptuosidade, o jovem rei D. Manuel II, aquando de uma sua visita oficial à cidade do Porto. Por aqui se vê a celebridade deste café, naquela época.

Poema de António Nobre

Vaidade, Tudo Vaidade!

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!  
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,  
Tuas amigas ter-te-ão amizade,  
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm. 

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,  
Tudo vaidade! E, se pensares bem,  
Verás, perdoa-me esta crueldade,  
Que é uma vaidade o amor de tua mãe… 

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna 
E eu vi-me só no mar com minha escuna,  
E ninguém me valeu na tempestade!  

Hoje, já voltam com seu ar composto,  
Mas eu, vê lá! Eu volto-lhes o rosto… 
E isto em mim não será uma vaidade?  

Muitos foram os cafés até aos dias de hoje que tiveram grande importância na história da cidade.

Os cafés não eram apenas lugares para intelectuais se inspirarem e tomarem café, mas também foram notoriamente locais de conspiração, debate político e tertúlias históricas.

Muito fica por dizer…

Fotos: pesquisa Google

01jul18

 

 

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