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CAMPAS E JAZIGOS ABANDONADOS NO “PRADO DO REPOUSO” REVELAM “INDIGNIDADE” E FICAM MAL NA FOTOGRAFIA TURÍSTICA…

Cemitério do Prado do Repouso. Porto. Meados de junho de 2018.

A avenida longa conduz-nos ao Cruzeiro, por entre frondosas mas bem tratadas árvores geometricamente colocadas, a par de bancos que são de jardim. Percorrem-na dezenas de pessoas para cumprirem um ritual de respeito pelos mortos seus familiares, amigos ou conhecidos.

Há também turistas que se ligam a um itinerário cultural, bem definido pela Câmara Municipal do Porto, à procura das belas esculturas em jazigos de gente célebre… que fez história e está na História.

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Estamos no primeiro cemitério público do Porto, benzido pelo Bispo D. Frei Manuel de Santa Inês, a 01 de dezembro, de 1839. Apelidam-no, hoje, de “Museu da Morte”. Mas, nem tudo é museologia neste vasto espaço de 10 hectares renovado e verde. Nem tudo são sepulturas bem tratadas, ou jazigos esculturalmente admiráveis. Há também o reverso da medalha. A campa rasa ou o jazigo abandonado – por desinteresse ou por ninguém haver para deles cuidar – fazem também parte da “paisagem”.

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José Gonçalves

(texto e fotos)

“Morreram pobres e pobres estão aqui, sem qualquer tipo de dignidade”, diz-nos uma senhora triste ao ver um monte de ervas cobrindo uma sepultura.

“O pessoal da Câmara podia dar uma limpadela nisto. Não custava nada cortar estas ervas e silvas. Isto parece mal e logo agora que andam por aí turistas a fotografar isto tudo. Não sei se é desprezo da família do morto ou da morta, ou se já não há ninguém na família”.

A sepultura é rasa, só tem uma simples cruz. Não se encontra identificado o nome de quem lá jaz, nem a data em que foi sepultado.

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Também Irene, com os seus 71 anoa de idade, e que, como a outra senhora não quis dar a cara mas aceitou registo áudio (não se vá pensar que quem vos escreve começou a trilhar os caminhos da ficção jornalística), se diz sentir “perturbada” com “estes abandonos”.

“Como disse aquela senhora, os funcionários da Câmara podiam dar uma certa dignidade a estas sepulturas. A gente nem sabe quem está aqui, mas, pronto, ficava mais alindado. Não compreendo! Se estes mortos têm família, o que custa comprar – como faço todos os domingos para a campa do meu marido! – uma velinha e um raminho de flores, por um euro as duas coisas? Por mês, ainda pago dez euros a uma pessoa para vir limpar a campa, pois eu já não posso fazer esse serviço devido à minha saúde. Não custa nada! É o respeito que devemos ter pelos nossos familiares e amigos que já partiram”.

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E são dezenas as campas que se encontram ao abandono no Cemitério do Prado do Repouso. Há, como se prova, gente que não gosta do que vê, não só no que a sepulturas diz respeito, mas também a jazigos, alguns dos quais – diga-se em abono da verdade – já foram, entretanto, restaurados, pois, segundo nos disseram, “isto, há tempos, era uma vergonha. Até tinha medo de por aqui passar!”

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“Olhe, caro senhor, quando for desta para melhor, quero ser cremado. Já o disse a quem devia de dizer. Prefiro ser cremado a ficar sepultado numa campa neste estado. O pior é que as cremações não são acessíveis aos bolsos de qualquer um”, desabafou o senhor António, com os seus 75 anos de idade.

Pois não… não é acessível, a coisa é cara!

Funerais pela hora da morte

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Para ter uma ideia de quanto custa um funeral e de tudo o que ele pode englobar – os preços variam de agência para agência e até mesmo de cidade para cidade –, fique desde já a saber que o custo médio de uma “opção básica”, ou seja, com o mínimo dos requisitos, ronda os 1.700 euros. Com essa quantia paga custos de pessoal (300 euros), burocracia (130 euros), caixão (560 euros), sepultura (85 euros), direitos do cemitério – não no caso específico do Prado do Repouso – (85€), serviço paroquial (140€), viaturas de transporte do corpo (300€), materiais para o velório (16€), armações (10€), arranjos florais (95€).

Se for para uma “opção intermédia” acresce 30 euros para o lençol da urna, 70 para cartões de agradecimento e 405 euros para a tanatopraxia. Ficará a “coisa” a rondar os 4.736 euros.

Quanto à cremação, incluindo o pote, 2,037 euros, e só com cendrário os 2.020 euros.

Trasladações

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Se há pouco referíamos que a cremação não é acessível a qualquer bolsa, também não o é a trasladação de restos mortais, findos os cinco anos de período legal de inumação. Quem estiver interessado em proceder à conservação/trasladação – caso o “corpo” se encontre em estado para tal operação – tem de desembolsar cerca de 150 euros, isto se não quiser deixar os restos mortais na terra e traslada-los para um ossário.

Mas, há outras alternativas, isto, pelo menos, no que ao caso do cemitério do Prado do Repouso diz respeito, ou seja, depois de findo o período legal de inumação, pode deixar o corpo por mais dois anos na sepultura, pagando para o efeito cerca de 47 euros.

Outras vida(s)…

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Regressemos, então, à calma que se vive no Cemitério do Prado do Repouso, isto menos no Natal, onde, em diversas campas, há quem coloque música apropriada para a época, e luzinhas de enfeite para que não se esqueça a festa.

O dia é de azáfama em termos de limpeza por parte dos serviços responsáveis. Há quem tire fotografias a verdadeiros monumentos que perpetuam vidas que o tempo apagou, mas que a memória resiste, registada que está na pedra mármore ou granítica do jazigo de família horizontal ou vertical.

Há ainda espaço para um cemitério privado da Misericórdia do Porto. Bem tratado. Imponente.

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A Sul, o Jardim das Rosas, com as cinzas de quem foi cremado e ao lado o respetivo crematório.

Pela avenida principal, que liga as duas entradas/saídas do cemitério (a sudoeste – Largo Baltasar Guedes, por onde entram os funerais- e a norte, Largo Soares dos Reis) vão passando pessoas, algumas delas cabisbaixas, enquanto ainda há quem se senta nos bancos de jardim, a ler e um outro jovem a desenhar.

A eles passa despercebida a razão pela qual visitamos o Prado do Repouso: os mortos abandonados. Os mortos que se encontram “ao Deus dará!”

… mais dignidade!

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A propósito, pergunta-se: o que é que os responsáveis autárquicos podem, então, fazer para combater esta situação, ou seja, a de dignificar esses espaços abandonados onde jazem… pessoas?

Sabe-se que no concernente a jazigos de família (verticais ou horizontais) os serviços da autarquia só podem atuar após um prazo e depois de colocarem os mesmos em hasta pública. Quanto às campas rasas abandonadas, pelos vistos, nada impede o pessoal da Divisão Municipal de Parques Urbanos de fazer uma limpeza a esses locais, o que, na verdade, não tem acontecido.

Fotomontagem: Pedro N. Silva
Fotomontagem: Pedro N. Silva

Portanto, e enquanto a “coisa” não se resolve, diz-se que este é um dos preços da morte que muitos com vida não podem pagar. A vida, a tal que um dia acabará, sem nos darmos conta do seu real valor… e preço.

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1 Comment

  1. Manuela Branca

    Um texto que eu diria ” sem papas na língua” Tudo verdade…. Deveriam estes Senhores do meio ambiente da Câmara em Julho e Agosto, escutar os comentários dos turistas. É vergonhoso para nós sentirmos as suas opiniões. Um cemitério com tanta história (só blabla). Porque a parte da Santa Casa de Mesericordia, essa então está imaculada. Continuamos então a ser divididos por classes, a nobreza o clero e o pobre Povo.

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