Lurdes Pereira (*)
Férias. O período de férias é sempre um lugar de preocupação na escolha e na ocupação do tempo livre. Se a ideia é andar por aí, a conhecer cantos e recantos nas paisagens ímpares do Douro, tenho aqui uma boa sugestão onde se podem apreciar memórias que remontam o início da nacionalidade portuguesa.
Rotas da História. A estabilidade política verificada entre os séculos XI e XII garantiu o crescimento demográfico. Com este fenómeno, muitas outras transformações sociais, como o culto das relíquias e o desenvolvimento da arquitetura, proporcionaram o aparecimento e sequente expansão do estilo Românico que se manifesta em forma de criação artística. Embora com variantes de carácter profano, civil e militar, foi predominantemente a nível religioso que o conceito de românico melhor definiu.
Portugal não fugiu à exceção, o românico surge nos finais do séc. XI coincidindo com o reinado de D. Afonso Henriques.
O ADN do românico é marcado por temas muito comuns, sendo o mais usual o das aves a debicar de significado moralista por se tratar de um ser alado que voa no ar.
Resende. Sobranceira ao espelho de água, património mundial, o concelho de Resende encena, com belos monumentos, uma linguagem românica.
Tendo exemplares na arquitetura, Resende foi terreno fértil nesta corrente de cariz religioso. São quatro os monumentos de origem românica, datados entre os séculos XI e XIII. Vamos fazer uma visita?
Mosteiro de Santa Maria de Cárquere
Testemunhando a passagem por várias épocas construtivas, o notável conjunto arquitetónico e artístico de Santa Maria de Cárquere constitui um elo de ligação à infância da nacionalidade, onde as lendas e os testemunhos da história se entrecruzam. Aqui, onde a história começa por “Era uma vez”, foi onde o Infante Afonso Henriques recebeu a bênção da cura, um pedido do aio, Egas Moniz, pela intercessão da Virgem Maria…
Nesta geografia espacial, o panteão da poderosa família dos Resendes marca um lugar de destaque através da Fresta da capela familiar. Se as pedras falassem, muitas páginas enriqueceriam a história deste conjunto que, apesar de outras correntes artísticas, continua guardião de alguns pormenores românicos. E porque a edificação e decoração viveu o decorrer dos séculos, devemos ter em conta, no interior do edifício, as pinturas murais guardadas pelos retábulos colaterais da Senhora, A Branca e Do Sagrado Coração de Jesus.
A área envolvente produz o encanto natural. As pedras do arco perfeito projetam a sensação da grande entrada triunfal para deliciar um misto de lenda e verdade. A realidade mais curiosa que acontece em Cárquere é denunciada pela cultura medieval, da imagem da Virgem de Cárquere, famosa pelas suas pequenas dimensões.
Quando visitar, não se esqueça de escutar todas as maravilhosas lendas da terra e do mosteiro que não deixaram de ser pilar de uma grande fé.
Ponte da Panchorra
Lá no alto da Serra de Montemuro, um planalto verde de cortar a respiração. Uma paisagem equilibrada, um rio que segue naturalmente o seu percurso. E, na paz deste talhar das rochas pela força das águas, a freguesia da Panchorra tem como antiga via principal de comunicação sobre o rio Cabrum, a ponte da Panchorra. Não se sabe ao certo a data da sua edificação pelo que tem sido, ao longo dos tempos, associada a algumas referências históricas. Não parece muito robusta, mas o certo é que em tempos serviu este aldeamento nos limites do concelho.
A arquitetura em duplo arco, de volta perfeita sobre o Cabrum, remete-nos ao mito de Narciso. O espelho de água, entre as pedras toscas e calhaus que ali ficaram acoplados, hipnotiza o olhar. Sorte é acertar com a passagem de uma ou outra pastora envergada de uma capucha de burel acompanhada de uma bela vaca até ao pasto. Acreditem, ou não, o quadro pitoresco é uma verdadeira magia de identidade.
O chão está salpicado de flores lilás, açafrão, que abrem as pétalas esguias colorindo os tons da terra fria. Parece que se trata apenas de mais uma ponte, mas o panorama é algo que nos toca a sensibilidade.
Igreja de S. Martinho de Mouros
Dados históricos situam esta edificação no séc. XIII. A igreja é de uma só nave, mas todo o conjunto possui uma linguagem militarizada. Daí que, por vezes se designe por Igreja-Fortaleza. Consta-se que este maciço turriforme é único no seu género no panorama do românico português. A linguagem românica está patente no exterior deste templo religioso.
O interior respira a nobreza da altitude ofertado pela elegância das colunas que, ao primeiro olhar, pretendem tocar os céus. De porte altivo, esguio e colossal, encimam como suporte dos arcos perfeitos os seus capitéis vegetalistas.
Mas esta jóia continua a contar a sua história com o passar dos séculos. Não passam despercebidos, no seu interior, os frescos atribuídos ao séc. XV e recobertos por retábulos, nem as pinturas a óleo sobre tábua do séc. XVI onde nos podemos deliciar com as cenas da vida de S. Martinho, Padroeiro, atribuídos à escola dos Mestres de Ferreirim.
Barrô
Chegamos a Barrô, Barriolo, onde termina o concelho e onde começa a Região Demarcada do Douro. Aqui, termina também a nossa visita da Rota do Românico de Resende com um conjunto arquitetónico interessantíssimo que faz as honras e o centro da Região desta freguesia, a Igreja de Santa Maria de Barrô. A Fundação remonta os finais do séc. XII como capela particular de Egas Moniz. Foi doada à ordem dos Hospitalários. Esta edificação constitui já alguns elementos do primeiro gótico rural. O tema da caça é muito comum na iconografia da escultura românica que se desenvolve nos capitéis cuja linguagem revela lutas entre o bem e o mal.
A frontaria possui um porte sublime onde as arcadas quebradas assentam em capitéis de temática vegetalista e floral. As robustas arcadas encaixilham um tímpano vazado, considerado por Vergílio Correia (1888-1944) o melhor exemplar do género, entre as igrejas do norte. A encimar, os arcos perfeitos abraçam uma rosácea de cariz românico simples.
Por último, de referir que toda a decoração da igreja, seus retábulos e Santos respiram uma linguagem teatral barroca a sublinhar a dimensão da Fé.
Fim. Os Olhares da Serra apenas lhe concede uma visita virtual, fica a sugestão de que a arte e a história comungam os meios mais rurais. E nunca é demais lembrar que, apesar de sentirem o peso dos séculos, continuam a ser as joias e a identidade do concelho de Resende com uma dignidade que as remete na geografia de uma perfeição.
(*) Texto e fotos
01ago18











