José Manuel Tavares Rebelo
Era um tripeiro de fibra. Nascido na freguesia da Vitória em 12 de Fevereiro de 1897, foi um dos filhos de Luiz Passos de Oliveira Valença. Logo após o casamento com Emília Rosa da Silva, seu pai abrira um estabelecimento de alfaiataria no Porto, seguindo a tradição da família, em Viana do Castelo. Luiz Valença teve vida curta (faleceu aos 33 anos) e Artur ficou órfão de pai aos 7 anos. A jovem e decidida viúva não hesitou em interná-lo no Colégio dos Meninos Órfãos. Neste colégio, iniciou a sua instrução básica, ali permanecendo até 1909.
Foi neste estabelecimento de ensino, ainda hoje a funcionar no Largo Baltazar Guedes, que o seu espírito se abriu para horizontes largos. Das janelas viradas a Oeste, o jovem Artur observava sobre a encosta das Fontainhas, os comboios atravessando a ponte Maria Pia e quando nas idas e vindas para o Colégio passava na rua de S. Vítor, parando um pouco na parte baixa desta rua, os seus olhos fixavam-se no intenso tráfego de barcos no Douro, que corria lá em baixo.
Imaginava outros mundos e outras gentes e a palavra “sair” pairava no seu espírito. Os livros e ensinamentos dos mestres do seu Colégio abriram-lhe a mente para outra palavra – “aprender “– com e na Escola da vida, assim alargando sem descanso os seus conhecimentos com a leitura e a curiosidade pelo que estava fora do círculo restrito da família e da sociedade fechada do Porto do início do séc. XX, como iremos constatar. No Colégio dos Órfãos aprendeu a crescer por si próprio, ali revelando desde cedo dotes de organização de eventos desportivos. Com 11 anos, organizava na Póvoa de Varzim, onde passava férias com a mãe, uma corrida de bicicletas, mostrando-se um jovem líder que atraía outros jovens, sacudindo o torpor rotineiro a que estavam sujeitos.
Com Artur e mais duas filhas menores a sustentar, Emília Rosa preocupava-se com o amanhã. Mas uma porta se abriu. Face à falta de perspectivas dum futuro promissor em Portugal, aproveita a ida para o Rio de Janeiro dum parente de Viana do Castelo para fazer embarcar o filho para o Brasil, com a promessa dum emprego rápido na capital brasileira. E assim, com apenas 13 anos, o jovem Valença está no Brasil trabalhando num armazém de frutas.
Do Rio, onde se mantém três anos, guarda gratas recordações. Recordava o patrão sentado à mesa com os empregados, em agradável convívio. E como lhe dava conselhos adequados à sua adolescência vivida fora da família. Isto era impensável, nas relações hierarquizadas do Porto empresarial dos primeiros anos do século XX. Esta imagem do patrão democrático e amigo que tratava os empregados como família, havia de o marcar toda a vida.
E até partir deste mundo usou da mesma conduta de camaradagem para com os colaboradores nas suas empresas, jornais e estabelecimentos comerciais (Jornal Sporting, Diário de Sports, Editora AOV, Fotogravura Sporting, Máquinas Gráficas AOV e Estabelecimento SLAV, sedeados na Cancela Velha (até à década de 50) e depois na rua Formosa.
Tinha sido também proprietário da Tipografia Sporting, na qual editou milhares de exemplares dum folheto intitulado “Missão e Fins do Socialismo Democrático”(Porto, 24 pp., 1952, 1960, 1974). Na 3ª edição, após a restauração da democracia, refere no Prefácio: “A 1ª edição levou a PIDE a encerrar a Tipografia Sporting, onde era impresso o jornal Sporting que suspendeu a sua publicação após 32 anos de actividade”. Mas ainda publica a 2ª edição em 1960…

Artur Valença foi sobretudo conhecido como organizador desportivo. Singular dinamizador do desporto português, dele dizia João Sarabando, in JN de 12/03/1978, por ocasião da sua morte. “Olhe, eu fazia do desporto um trabalho e do trabalho um desporto!”, confidenciou um dia ao jornalista Costa Dias. Ciclismo, automobilismo, boxe e futebol foram desportos que ganharam adeptos devido ao seu entusiasmo e criatividade, tendo sido Presidente do Boavista Futebol Clube (1933-35) e introdutor do equipamento axadrezado.
A par disso ficou conhecido como acérrimo opositor ao Estado Novo. Militou na velha oposição republicana, conspirando com ânimo e satisfação em todas as campanhas de combate à ditadura, ao lado de Norton de Matos, Quintão Meireles, Humberto Delgado e Mário Soares. No Porto, as reuniões clandestinas ou à mesa do café eram com António Macedo, Armando Bacelar, Artur Santos Silva (Pai), Carlos Cal Brandão, Olívio França e outros. Tudo fazia com uma alegria esfusiante e comunicativa, sentindo um enorme gozo em iludir a estratégia da polícia política de modo a poder atingir os objectivos da oposição democrática ao regime.
Preparava cuidadosamente no Coliseu do Porto as comemorações do 31 de Janeiro e do 5 de Outubro e distribuiu milhares de folhetos contra a ditadura vigente. Afirmava-se como anti-comunista (o que baralhava os esbirros da Pide) mas o seu anticomunismo era gerado pela indignação de observar que as ditaduras comunistas da órbita soviética se intitulavam “socialistas”, sendo Valença um socialista.
Por diversas ocasiões, foi hóspede forçado da prisão da rua do Heroísmo. É sobre esta sua faceta desportiva e política que lhe foram dedicadas, ainda em vida, festas de homenagem e textos na imprensa tripeira (veja-se, por exemplo, o JN de 06/07/1972, com uma página inteira dedicada a AOV).
Porém, a sua acção como jovem organizador do Batalhão de Voluntários Portugueses e Brasileiros na 1ª Guerra Mundial tem sido esquecida. O Corpo Expedicionário Português (CEP) iniciou o desembarque em Brest (França) em Janeiro de 1917. Mas foi em Agosto de 1914, mais de dois anos antes da formação do CEP, que Oliveira Valença organizou o Batalhão de Voluntários da qual faziam parte 50 elementos de idioma luso, entre portugueses e brasileiros. “Andei sete meses na guerra, fui ferido e recebi a Cruz de Combatente Voluntário” diz, com a maior simplicidade, ao jornalista Costa Dias, na citada entrevista ao JN (06/07/1972). Oliveira Valença pertenceu até ao fim da sua vida à organização “La Légion des Mille”, que agrupava os mil mais jovens voluntários da 1ª Guerra Mundial e tinha a divisa: “Le devoir, et plus que le devoir”. Ver http://www.fncv.com/biblo/gran_combattant/legion_mille.html
E tudo começou porque Artur foi para Paris aos 16 anos, para aprender a arte de alfaiataria no mundo da alta costura. Na capital francesa tinha o apoio e conselho do seu grande amigo Xavier de Carvalho, correspondente do JN em Paris, que vivia em França há já alguns anos. A vivência com a sociedade parisiense da época fê-lo refém duma paixão que manteve até ao fim da vida – a paixão pela nação francesa, isto é, pela democracia, pela liberdade, igualdade, fraternidade. Quase que se pode dizer que Oliveira Valença considerou a França como sua segunda Pátria. E só assim se pode compreender a ousadia quase quixotesca de avançar com tamanho arrojo para a formação dum corpo de voluntários que tinha por missão defender a sua dama ameaçada – “la France”.
A sua iniciativa é referida na imprensa francesa da época, como se pode verificar por recortes de jornais em posse da família, todos de Agosto de 1914: “Presse”, “Patrie”, “Petit Journal”, “Le Fígaro”, entre outros. Este último, na sua edição de 7 de Agosto, publica: “Les Portugais, amis de la France, sont priés de venir s’inscrire chez M. Valença – 51, rue de l’Échiquier (Paris), pour faire partie du corps de volontaires portugais”.
Oliveira Valença entrou na guerra, tendo sido camarada nas trincheiras, de Adolfo Coutinho de Medeiros e de Carlos Ornelas, os dois primeiros portugueses mortos em combate. Carlos Ornelas sucumbiu a seu lado e, segundo recordava Valença, morreu a assobiar “A Portuguesa”, tentando assim animar os companheiros de trincheira. Este facto é referido no jornal “A Voz da Mocidade”, de 3 de Dezembro de 1914, em texto assinado por Xavier de Carvalho.
Faz 18 anos em 21 de Fevereiro de 1915 nos campos de Craonne, França. Era menor. A mãe escreve à Legação de Portugal em França, a pedir o seu repatriamento. Em 3 de Março desse ano a Legação responde-lhe: “O Ministério da Guerra francês acaba de anular o alistamento do Sr. Artur de Oliveira Valença”.
Regressa à Invicta… Em 12 de Setembro de 1915 é alvo de um banquete de homenagem, sob a presidência de Henrique Pereira d’Oliveira, Presidente do Senado Municipal do Porto. O banquete é realizado no Hotel Continental (localizado na rua de Entre-Paredes, nº 4, de acordo com informação da senhora drª Rosário Guimarães, do Arquivo Histórico do Porto) e nele participam várias dezenas de pessoas. No convite lê-se: “Em Homenagem a Artur d’Oliveira Valença, organizador do Batalhão de Voluntários Portugueses em Paris – Guerra de 1914-15” (pensava-se que a guerra terminaria naquele ano…).
A iniciativa de Oliveira Valença não teve porém apoio unânime em Portugal. Para além do facto de existir no território nacional uma forte corrente antiguerrista, que se opunha tenazmente à participação de Portugal na guerra, chegando a haver, segundo Isabel Pestana Marques, insubordinação das tropas em preparação (veja-se IPM, Das Trincheiras com Saudade, Esfera dos Livros, Lisboa, 2008, p. 45) a acção de Valença é relatada de forma depreciativa e até ridicularizada por Aquilino Ribeiro no seu livro “É a Guerra”. (A.R., É a Guerra, Bertrand, Lisboa, 1975, pp. 163 a 167). Aquilino refere expressamente “um senhor Valença do Porto” (p.163) e, embora parecendo simpatizar com o mesmo, “aquele Valença, moreno, forte, bonito rapaz…”, acrescenta numa crítica mordaz -: “… era digno de melhor sorte” (p. 167), dando como ponto assente que não haveria batalhão nenhum. Há ainda um amigo, referido como T.L. que conclui acintosamente: “Abrenúncio! Agora ir debaixo das ordens de um barbeirola de Portugal só porque tomou a iniciativa do batalhão, tó ruça! Vale mais ser comandado por um marlou francês!” (p. 167).
A tomada de posição de Aquilino contra Oliveira Valença poderia ter a ver com o seu eventual alinhamento com os antiguerristas (posição relatada na Revista Visão/História, nº 4, FEV2009, Portugal nas Trincheiras, Coord. de Isabel Pestana Marques, Elzira Machado Rosa e outros, p. 4) ou simplesmente porque o escritor beirão era casado na altura com uma senhora alemã, não sendo provável que tenha por base uma posição ideológica, já que “as rivalidades entre as grandes potências de 1914 prendiam-se exclusivamente com o choque de interesses económicos”, situação diferente da que aconteceu em 1939-1945, em que estavam em jogo democracias contra totalitarismos. Por exemplo nessa época (e para melhor atentar num pormenor exemplificativo dos motivos geradores dos dois conflitos mundiais), Rudyard Kipling (1865-1936), a que George Orwell apelidou de “um profeta do imperialismo britânico”, (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rudyard_Kipling) usava como ex-libris a cruz suástica, símbolo da perfeição e da beleza, utilizado há milhares de anos por diversas civilizações, sentido este que, como sabemos, foi desvirtuado por Hitler.
A posição de Oliveira Valença face ao general Pétain. O general Henri-Philippe Pétain (1856-1951) foi um herói nacional, devido à estratégia vitoriosa desenvolvida contra os alemães durante a 1ª Guerra Mundial. Mais tarde veio a ser condenado por traição, por ter presidido ao regime colaboracionista de Vichy, durante a 2ª Guerra Mundial. Pétain chegou a estabelecer, até 1944, um regime marcadamente fascista que colaborava activamente com Adolf Hitler.
Oliveira Valença não lhe perdoou. Ele, homem de acção, jornalista, organizador desportivo, empresário, activista político contra a ditadura salazarista, toma a decisão de se sentar à secretária, algumas horas por dia, durante sete meses, pesquisando, lendo, tomando notas, até escrever um livro que arrasa a figura de Pétain, o soldado que traiu os seus ideais de liberdade. Intitulou-o “O Marechal da Derrota”. (Artur d’Oliveira Valença, “O Marechal da Derrota”, Porto, 1945, Edições AOV, 174 pp). A sua memória de combatente da liberdade, a que se juntava a recordação de tantos que tinham tombado pela pátria francesa levou-o a resgatar, desta forma, a honra manchada pela acção deste militar que se vergou perante o poder nazista… “Quanto eu lamento ter de salpicar a farda de um Marechal de França!…E é a França assaltada, enxovalhada, acusada de covardia colectiva, vendida por aqueles que a deviam defender… que eu pretendo erguer, lavar da calúnia e do insulto” (pp. IX, X).
E Valença não esquece os seus camaradas também ofendidos por Pétain: “Aquele pequeno grupo da Legião (dos Mil), composto por Medeiros, Ornelas, Valença, Spitz, Colle, Jonska, Descamp, Dethiers, Arend e Spirkel, pequena Arca de Noé, que reunia três portugueses, dois belgas, dois holandeses, um suíço, um russo e até um francês… E que a responsabilidade do desastre….caia impiedosamente sobre o “Marechal da Derrota”.” (pp. VIII-IX).
Em boa hora, a Comissão de Toponímia da Câmara Municipal do Porto fez aprovar, na reunião da Câmara de 3 de Junho de 2003, a atribuição de “Rua Artur Oliveira Valença – Jornalista, 1897/1978”, ao arruamento que principia na rua de Francos e termina na rua do Lugarinho, da freguesia de Ramalde, aprovando uma proposta feita pela Associação de Moradores de Monte Tadeu/Santo Isidro. Se bem que a profissão de jornalista tenha sido dignificada por Oliveira Valença, talvez fosse mais correcto referir, na placa toponímica, “Combatente da Liberdade”.
Texto publicado na revista Tripeiro, Porto, Janeiro de 2010 (pp. 24-27). Este texto, cedido agora pelo seu autor para o “Etc e Tal Jornal”, foi plagiado pelo jornal “O Primeiro de Janeiro”, que o publicou em 26 de Janeiro de 2010 (pp. 2-3), assinado por outra pessoa que se intitulava seu autor.
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Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.



Sou afilhado de Artur de Oliveira Valença. Andei no seu Ford Capri verde e outro. Estive presente no seu funeral.
Tinha apenas 17 anos.
Muito respeito e admiração pela sua importância e pela pessoa que bem conheci!
Sou filha de Artur de Oliveira Valença, já conhecia a excelente reportagem, mas adoro sempre voltar a ler. Muito obrigada
Um grande homem, sim senhor, e que a maioria das pessoas desconhece. Um belo texto José Manuel Tavares Rebelo.