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A educação permissiva

Fernanda Ferreira

-Ó tia, chega-me os óculos.

– Como é? É assim que se pedem as coisas?

-Mas estão muito altos, tens de mos chegar.

– Olha Paulo, e “por favor”, não se usa? Eu não sou tua criada e, mesmo que fosse, devias  pedir por favor. Ninguém é obrigado a ajudar-nos, por isso pede-se por favor e depois agradece-se.

– A mãe também não faz isso nem o pai. És uma cota e chata

-O quê, cota e chata? Tu estás a ficar muito mal-educado. É assim que se fala com a tia e com as outras pessoas?

Ó Joana, presta atenção à educação do teu filho porque isto vai muito mal e ele ainda é criança. Quando crescer não sei como vai ser!

– Ele não disse nada de mais. Cota só quer dizer mais velho e desatualizado. Estás sempre a chamá-lo à atenção.  Até o traumatizas! É natural que fique aborrecido.

-Mas vocês são pais ou colegas do vosso filho? É assim que o educam? Isso chama-se falta de respeito! E ainda por cima me desautorizas! Vou mas é embora e vocês entendam-se porque eu não admito isto!

Com o avançar do tempo, as atitudes permissivas ao deixarem-se manipular e agredir com pontapés, bofetadas ou insultos, começaram a ser diárias e o Paulo cresceu sempre sem ninguém que o educasse, pelo que o problema de educação e civismo se agravou a ponto de ter castigos escolares, várias reprovações  no 8.º e 9.º ano e violência também  para com os professores e colegas. Riscava as paredes, partia os vidros e rasgava os cadernos dos outros alunos.

Os pais eram chamados inúmeras vezes a escola devido ao seu comportamento, mas ficavam muito aborrecidos e davam sempre como desculpa que eram os colegas que o desencaminhavam.

A C.P.C.J também teve de intervir, mas nada se alterou.

O Paulo teve acompanhamento psicológico, mas só contava ao psicólogo o que lhe convinha e não acatava o que ele lhe dizia, pelo que as melhorias foram praticamente nulas.

Com toda esta rebeldia, sentia-se desajustado e infeliz. Nem tinha amigos nem sequer se entendia com ninguém. Achava os pais uns idiotas e chatos, que só estorvavam. A única coisa que serviam era para lhe darem a mesada e as coisas que lhes pedia e eles nunca recusavam.

Resolveu fugir de casa. Já tinha 18 anos e iria arranjar maneira de se sustentar.

Deixou uma carta aos pais a dizer que sendo maior de idade, se ia embora, que não o procurassem porque não voltaria; e abalou. Para gastar pouco dinheiro, arranjou várias boleias e foi para o Algarve.

Então tudo desmoronou. O dinheiro rapidamente se esgotou. Sem dinheiro e sem saber nem gostar de fazer nada,  ninguém lhe dava trabalho, nem por baixo ordenado, até porque era um indisciplinado, egoísta e arrogante.

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Orgulhoso, não comunicou a situação a família. Como o tempo estava bom, dormia na rua, junto aos sem abrigo e ia com eles às refeições que eram distribuídas gratuitamente.

Quando começava a ficar frio e a chover, dormia em vãos de escada, coberto com cartões, jornais e um cobertor que distribuíram aos sem-abrigo.

Com o tempo ficou magro e, apesar de ter pouco mais de 20 anos, o seu aspeto, de pele queimada, suja e seca, envelhecia-o mais de 10 anos. Nunca se meteu em drogas nem álcool, mas o seu aspeto era igual ao dos toxicodependentes.

A maioria das pessoas passavam por ele indiferentes, apressadas para o trabalho ou lentamente saboreando o tempo de lazer.  Por vezes davam-lhe uma moeda. Para eles era mais um indigente dos muitos que existem em Portugal.

Um dia, uma Srª acercou-se dele e perguntou:

-Por acaso chama-se Paulo?

-Sim, chamo.

-Qual é o seu apelido e donde é?

-Sou S…T…..e sou de Lisboa. Porquê?

-É que tenho visto na televisão um casal com aspecto sofredor e preocupado que procura um filho que deve ter a sua idade e está desaparecido há 4 anos.

Os seus apelos são frequentes e pedem ao filho que lhes perdoe, que eles também lhe perdoam tudo. Querem tentar um recomeço porque, apesar de tudo, o amam muito. Sofrem pela sua ausência e preocupam-se por temerem que esteja a passar mal.

Acho que devem fazer uma  reaproximação e tentarem construir um futuro comum.

Como sou Assistente Social, posso ajudar.

O Paulo, com um nó no peito e embargado pelas lágrimas, aceitou.

Quando a Assistente Social contactou os pais, rapidamente regressou a casa.

Além de muito debilitado, aqueles poucos anos na rua serviram-lhe de aprendizagem, mas deixaram-no muito traumatizado. Teve de fazer tratamento psicológico e psiquiátrico, que, desta vez, levou a sério e agradeceu.

Não queria esquecer o que passou para não correr o risco de errar de novo, mas

pode dizer-se que nasceu um novo Paulo. Não podia recomeçar tudo, mas iria começar uma nova etapa que incluía uma vida completamente diferente do passado.

Com ajuda da Assistente Social, arranjou trabalho como padeiro. O trabalho, para quem nunca trabalhou, era demasiado duro, mas aguentou firmemente, no intuito de “dar a volta por cima”de toda aquela vida de sofrimento.

Gostou do patrão, dos colegas e do trabalho, levando-o a querer aprender a arte pasteleira.

A mudança de atitude e empenho laboral fez com que o patrão resolvesse remodelar a padaria, que passou a ser também pastelaria e confeitaria, o que aumentou imenso o movimento é rendimento do estabelecimento.

Tudo foi diferente daí em diante e o Paulo, em conversa com os pais, disse:

-Um dia que tenha filhos, a educação que eu e vocês lhe dermos, não pode conter os erros que teve a minha. Temos o dever de lhes transmitir os valores, a noção de dever e honra, respeito pelos outros e civismo.

Quero que os meus filhos sejam pessoas boas e respeitáveis, que se orgulhem de ter um pai e avós atentos que os amam e prepararam para a vida.

 

Foto: pesquisa Google

01set18

 

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