A centenária ponte ferroviária de “Maria Pia”, e, a mais recente, travessia rodoviária sobre o Douro, entre as Fontainhas (Porto) e a Serra do Pilar (Gaia) – “Infante D. Henrique” – encontram-se ao abandono. Se, para a primeira, foram já discutidos diversos e inconsequentes projetos para a sua reutilização, já no segundo caso, fala-se num processo de manutenção da estrutura que ninguém quer assumir: nem as autarquias, nem as Estradas de Portugal e nem o próprio governo. A coisa, porém, não fica por aqui.
São milhares e milhares de viaturas que, diariamente, passam pela Ponte do Infante. Já designada como a ponte dos suicidas, devido ao número crescente, de pessoas que se precipitam de lá para o rio Douro, a obra, inaugurada a 30 de março de 2003, como alternativa à de D. Luís I (tabuleiro superior destinado à circulação da linha amarela do Metro do Porto), a ponte, por birras autárquicas entre Gaia e Porto, assim como por desinteresse da empresa “Estradas de Portugal” e do governo central, não tem tido a devida e exigível manutenção.

A questão foi, recentemente, levantada, em sede de Assembleia Municipal do Porto, pelo vereador comunista e candidato à presidência da edilidade, Pedro Carvalho, exigindo o mesmo que a autarquia intervenha junto do governo e da empresa “Estradas de Portugal” para a “assunção plena das responsabilidades de conservação e manutenção” da referida ponte.
A Câmara do Porto rescindiu em 2011 o protocolo assinado com a empresa Metro do Porto para a manutenção da ponte do Infante, devido à “impossibilidade de articular a conservação do equipamento” com a Câmara de Gaia, que tinha revogado o acordo em 2005.
Estado “ignora” situação

Em maio, numa resposta enviada à Lusa, o gabinete de comunicação da autarquia esclareceu que Rui Rio já tinha escrito “diversas vezes ao ministro e Secretário de estado da tutela para que rapidamente colmatassem essa falha e não perpetuassem uma situação uma situação que considera grave”.
Mas o problema de manutenção de pontes não se circunscreve à “Infante D. Henrique”, uma vez que idêntico problema coloca-se, relativamente, ao tabuleiro inferior da ponte de D. Luís I. Ao que se sabe, desde 2011 que estes assuntos têm sido alvo de diligências por parte do presidente da Câmara, Rui Rio, só que o Governo central – segundo o autarca e em declarações proferidas em maio último – o poder central continuava “sem atribuir a nenhuma entidade a responsabilidade pela manutenção da ponte do Infante e do tabuleiro inferior da ponte Luiz I” pelo que ambas estavam “sem manutenção”.
Pedro Carvalho, que levantou este grave problema, é urgente que a autarquia (leia-se Câmara Municipal do Porto) interceda junto do ministro da tutela quanto “à segurança da ponte D. Luís I” e à “conservação e reutilização da ponte D. Maria Pia”, que se encontra inativa desde 1991, altura em que foi substituída, por trânsito ferroviário, pela ponte de S. João, obra do arquiteto Edgar Cardoso o mesmo que projetou a ponte da Arrábida, também no Porto.
Sobre essa ponte, foram diversas as propostas para a sua reativação. Primeiro falou-se na passagem de um comboio, que ligaria a Alfândega do Porto às Caves de Vinho do Porto, em Gaia, assim como um percurso pedonal ou velocipédico. Tudo não passou, contudo, das secretarias das câmaras de Porto e Gaia, relevando-se os conflitos políticos entre Luís Filipe Menezes e Rui Rio, “morrendo” assim todos os projetos que mantêm inativa uma ponte centenária, que a Refer só garantiu manutenção a partir de… 2009. Antes, a “D. Maria” estava, literalmente, ao abandono.
Insegurança no tabuleiro inferior da “D. Luís I”
Ainda sobre o tabuleiro inferior da ponte de D. Luís I, por onde também passam milhares de viaturas e pessoas diariamente, o vereador comunista pede também que a autarquia interceda junto da “Estradas de Portugal” para assegurar “as intervenções necessárias à garantia das condições de segurança” da travessia, “incluindo a execução e o custeamento das obras de reabilitação e manutenção que se revelem necessárias à sua conservação”.
Recorde-se que “uma inspeção realizada pela referida empresa concluiu que a ponte precisava de obras de manutenção e de reabilitação e recomendou a necessidade de se proceder a diversas intervenções de reparação, nomeadamente ao nível do pavimento na zona, com calçada, nas juntas de dilatação e também de pintura de vigas e guarda-corpos”, informou o vereador.
Histórico
Para registo, fique a saber que a ponte Maria Pia foi edificada entre cinco de janeiro de 1876 e 04 de novembro de 1877, altura em que foi inaugurada pelo rei D. LuísI. A travessia ferroviária foi projetada pelo engenheiro Théphile Seying da empresa “Eiffel Construtions Metaliques”, tendo sido desativada em 1991.
Já a ponte do Infante – projeto do espanhol Férnandez Ordóñez – foi inaugurada a 30 de maio de. 2003, tendo custado aos cofres do Estado 14 milhões de euros. Trata-se de uma ligação – cota alta – entre a Serra do Pilar (Gaia) e a rua das Fontainhas (Porto), com um arco em betão armado de 280 metros, com 371 metros de extensão a uma altura de vinte metros sobre o rio Douro. Ambas as pontes fazem parte da freguesia do Bonfim, ainda que parte da do “Infante” se integre também na da Sé.
Texto: José Gonçalves
Fotos: Pesquisa “Google”
