Cristóvão Sá-TTmenta
Esta é a última peça do conjunto de textos que tenho escrito debaixo do guarda-chuva em título.
O espaço que o diretor me reservou – Vitruviando – passará a ser utilizado com outros objetos, com outro enfoque. Objetos que são uma dádiva deste escriba. Que vos exige que os apropriem. Exercícios de escrita que serão vossos a partir do momento da sua publicação.
O poema que vos apresento de seguida tem uma história por trás. E que linda ela é.
Em todo o projeto que decorreu entre Junho-Setembro/2012, dedicado ao Fado, durante o “Manobras no Porto” participou uma senhora que, apesar de revelar algumas preocupações por ter dificuldade em pôr algo no papel – isto na Oficina de Escrita de Poesia para Fado -, nunca falhou a uma sessão.
Numa das sessões perguntei-lhe qual o fado que ela gostava mesmo de cantar. Respondeu-me ser “Tudo isto é fado”. Ouçam-no na voz de Amália: https://www.youtube.com/watch?v=jt0WUyrG8b8. Poema de Aníbal Nazaré e música de Frederico Carvalho.
A senhora morava (não sei se ainda mora) na Rua da Pena. Quase sobrepondo, sílaba a sílaba, o poema original escrevi:
MARIA DA PENA
Tu és musa do versejar
Pena e Porto em Massarelos
Companheira do cantar
Puros poemas singelos
Que inspiram o amor
De tons, sons e sentir
Também chôro e calor
Na partilha do porvir
Tardes vividas
Rimas sofridas
Sonhos cinzentos
Riso de amor
Calando a dor
Alonja tormentos
No coração
Está emoção
Choro e vontade
Pena sem pluma
Canta mais uma
Voz e verdade
Quero sempre companheira
Teu canto com energia
Ver assim dessa maneira
Brilhar olhos d’alegria
Será fado só dor desgraça
Faz sentido toda a emoção
Se tristeza por ti passa
Vá para longe sua razão
A história não acaba aqui. Uma cantadeira que conheci nestas andanças decidiu cantá-lo e talvez até dedicando-o à referida senhora. Porém furibunda disse-lhe que não tinha que o cantar, por que o fado era dela. A cantadeira incomodada, tentei adivinhar, com a cena triste que se gerou, ligou-me passado uns dias.
Perguntou-me se tinha registado o poema. Respondi-lhe que não. Como de resto aconteceu com todos os outros poemas. Estavam disponíveis no portal do projeto e não havia restrições sobre quem os poderia cantar. Também referi que ninguém poderia chamar a si a sua autoria. Recusei o pedido que me fez que esclarecesse a Maria da Pena. Aconselhei-a somente que não o cantasse quando ela estivesse presente. O resto da história… não sei se houve.
Este projeto foi entusiasmante e crepitante de vibrações criativas para mim. Para o final da Oficina de Escrita …., escrevi e li o texto que segue:
“Olhando para os telhados, cataventos, antenas e para tudo que o Homem artificializa no topo dos prédios, juntámo-nos em espaço, dia e hora certos.
Armados de agudos e coloridos instrumentos, atacámos as superfícies virgens das folhas dos eucaliptos. E se estes secam tudo que os rodeia, no nosso meio jorraram correntes de mitos, sonhos, utopias, amores e desamores, desgraça e esperança, unidos em orgias de palavras ciosas de forte obediência à métrica que a melodia impõe e o mestre vigia, num frenético e enérgico contar de dedos, como desconfiando que cinco tenha em cada mão.
Atravessou ele ares, vindo de terras de Santa Cruz, carregado de histórias, crenças e rimas inspiradoras também do Universo. Sem viola na mão, trouxe quem a tocasse, em compasso e fraseado exatos para os versos que iam fluindo.
Assim se fez a Oficina. Estranho nome dado ao jogo que fomos construindo, de resultado certo e ganhos futuros. Parece que o Património da Cidade também ganhou. O das palavras organizadas, sem dúvida, e nós operários desta obra orgulhosos temos de estar de tudo que aqui deixámos.
Se alguns da escrita já vinham, a um porto novo chegaram e justo é reconhecer que muito do que aqui construímos teve uma forte influência dos formadores, em especial do Thomas.
Merecemos todos os parabéns e um forte aplauso”.
Não vos senti tão perto quanto desejaria. Principalmente proximidade/polémica/correções daqueles que são verdadeiramente sabedores das coisas do Fado. Eu sou um mero aprendiz. Mas que, de facto, este projeto me fascinou, é inegável. Não vos pareceu?
E termino. Esperem por mim em Dezembro. Talvez vos surpreenda.
Foto: pesquisa Google
01nov18
