A escritora e jornalista Ana Cristina Leonardo que colabora semanalmente na Revista do Expresso com crónicas e críticas literárias, natural de Olhão onde nasceu em 1959, veio a Ovar, terra também de mar e pescadores conversar sobre o seu primeiro romance “O Centro do Mundo” nesta 79.ª sessão das tertúlias literárias que se iniciaram no Museu de Ovar em 29 de agosto de 2013, dinamizadas e moderadas pelo escritor Carlos Nuno Oliveira.
Nesta conversa útil com Ana Cristina Leonardo no dia 9 de novembro, falar do seu livro “O Centro do Mundo”, foi falar das suas próprias memórias de criança e da relação da sua terra, Olhão, cujas histórias peculiares e pitorescas, “influenciam as personagens do romance”, como reconheceu a escritora algarvia, referindo-se à figura do russo Boris Skossyreff como personagem principal.
Foi assim à volta deste personagem, que a convidada da noite caraterizou como um “aldrabão”, que, como acrescentou, “os espanhóis não lhe acharam graça e chutaram-no para Portugal”, onde chega sem documentos fazendo-se passar por um aristocrata, que deixou para trás vários países, mulher legítima e uma amante, e ainda o trono de Andorra.
Como referiu a autora do livro nesta tertúlia, Boris, “como não tem documentos, pensa ir para França por Marrocos”, porque “alguém lhe diz, que deve ir ao Algarve (Olhão), com tradições de contrabando e pescadores”.
Assim, remata sobre esta sua personagem, “aparece um russo cheio de «Olhão»”, que entretanto “acaba por ir pelos Pirenéus” com todas as peripécias de viagem e de aventura, em que se vê envolvido, como a Guerra Civil de Espanha, alia-se ao exercito alemão de quem veio a ser tradutor nas hostes nazis, não escapando à prisão de Koblenz – Metternich na Alemanha e acaba num gulag na Sibéria, em que “morreu aos noventa e tal anos, sem nunca ter contado as suas memórias” concluiu a escritora, para acrescentar ainda, que, “acho que Portugal tem um manancial de histórias, que não percebo porque não são exploradas”, tais são os “disparates atrás de disparates”, referindo com a sua ironia tipicamente olhanense, que, “Olhão tem figuras disparatadas por metro quadrado”.
Um elogio à terra em que, “há o simples prazer de contar histórias, de inventar (…) é um divertimento!”, afirmou Ana Cristina Leonardo, partilhando ainda que este seu romance inclui também histórias contadas em ambiente familiar, nomeadamente pelo seu pai.
Entre o diálogo e algumas leituras de trechos de o “O Centro do Mundo”, feitas pelo moderador Carlos Nuno Oliveira, realçando o “rumo pitoresco da história”, em que corroborou, que, “estas situações de inventar, são muito do imaginário de zonas piscatórias” a escritora nesta 79.ª tertúlia que evoluiu de À Palavra, para Conversas Úteis, ainda afirmou que, não se trata de “um livro para leitores preguiçosos”.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente EeTj em Ovar – Aveiro
01dez18


