Os moradores de Ramalde do Meio (Porto), assim como quem trabalha no local ou nas redondezas, já para não falar de quem por lá passa, a pé, de autocarro, metro ou viatura própria (mesmo com o nariz entupido), dão por ele facilmente. Estamos a falar daquilo que muitos apelidam de “esgoto” mas que, na verdade, dá pelo nome de Ribeira da Granja e que corre a céu aberto, no troço entre a Quinta do Rio e a zona industrial contígua à estação do Metro de Ramalde…
É precisamente junto à estação de Metro de Ramalde que o cheiro é mais intenso, principalmente, em dias de calor. Os moradores da área, designadamente os residentes no Bairro de Ramalde do Meio – pelo menos os contactados pela nossa reportagem –, queixam-se dessa realidade, chegando a apontar o dedo para as empresas sediadas no local, quanto à possibilidade de realizarem descargas poluentes para o referido curso de água. Mas, será que o problema é mesmo esse?
José Gonçalves Mariana Malheiro
(texto) (fotos)
O maior curso de água do Porto
Antes de tudo, é bom saber que a Ribeira da Granja é o maior curso de água do Porto (14,4 quilómetros) e possui uma das maiores bacias hidrográficas da cidade, ocupando 26 por cento da superfície da mesma, com vários afluentes que, além de Ramalde, abrangem as freguesias de Paranhos e Lordelo do Ouro.
Uma das suas nascentes, a mais a Norte, situa-se nos montados do Padrão da Légua e um outro regato nasce em Arca d’Água. Juntam-se em Ramalde do Meio, mais concretamente na Quinta do Rio – antigamente chamado de Lugar do Moinho -, onde formam um único curso de água, que desagua no Rio Douro junto ao Largo do Calém. Cerca de 70 por cento do seu percurso encontra-se entubado, percentagem essa que tende a diminuir.
Tanto assim é que o primeiro troço a ser desentubado (2011) foi o da Quinta do Rio, junto a Ramalde do Meio, isto num plano de desentubamento e requalificação das margens da Ribeira (que passou pelo troço de Sache – rua de Serralves).
Dos “maus cheiros” aos “leitos de cheia”

Regressando à polémica questão dos maus cheiros e não afastando a hipótese da ribeira trazer consigo detritos de outras zonas, a verdade, dizem, é que o curso de água tem sido, periodicamente limpo pelas autoridades responsáveis (leia-se Águas do Porto), independentemente de, de vez em quando, se acumular, mesmo assim, vegetação aquática, sedimentos, pedras e ramos de árvores no seu leito, como alerta um morador da área.
Contudo, em tempo de calor, são os maus cheiros que incomodam a população, enquanto, em época de chuvas, parte deste curso de água cria, em certos locais, perigosos leitos de cheia, o que também é uma questão a ter em conta.
Mas, será que são – como alguns moradores afirmam – os resíduos industriais que poluem e criam os maus cheiros na Ribeira da Granja? Há quem diga que não, dando como exemplo a qualidade da água que chega, também a céu aberto, junto da Cooperativa de Ramalde, já depois de passar o encanamento da zona industrial, mas a Junta de Freguesia de Ramalde, diz e prova que sim!
ANTÓNIO GOUVEIA: “AS DESCARGAS VÊM DO LADO DE ARCA D’ÁGUA”
De acordo com o presidente da Junta de Freguesia de Ramalde, António Gouveia, a questão que se coloca quanto aos maus cheiros que se verificam na Ribeira da Granja devem-se a “descargas poluentes de indústrias situadas a montante da Ribeira, ou seja na margem do ribeiro que vem de Arca d’Água, e não, por certo, da de Matosinhos”.
Na verdade “os maus cheiros são sentidos quando há calor, e pouco caudal; verificando-se ainda tingimentos esporádicos”. O autarca salienta ainda que “é necessária mais fiscalização para punir os infratores”, embora a população tenha sido convidada a fazer “queixa” junto dos responsáveis ou a “avisar a Junta” quando “detetar alguma irregularidade do género”.
Só que, e até ao momento, ainda que se verifiquem queixas, ninguém conseguiu detetar onde são efetuadas as referidas descargas de resíduos industriais, pois as mesmas, e no entender de António Gouveia, “devem ocorrer durante a noite”.
De sobreaviso está também quem “gere” todo o espaço da Ribeira da Granja, a empresa municipal “Águas do Porto”.
À espera do final das obras no Rio Tinto
Quanto à possibilidade dessas descargas serem de resíduos domésticos, o presidente da Junta da Freguesia de Ramalde, que se encontra no cargo desde 2013, refere “que só se forem clandestinas, pois não há, acesso à ria de esgotos residênciais para tal processo. Isso já acabou”, salientando que a Ribeira da Granja teve uma “primeira fase de despoluição e desentubamento, na altura em que Rui Rio era presidente da Câmara Municipal do Porto”, esperando-se, agora, por uma outra fase de obras, as quais, já prometidas, avançarão “quando terminar a empreitada que está a ser levada a cabo no Rio Tinto”.
A limpeza, assim como toda a manutenção das pontes e das margens da Ribeira da Granja (três metros de um lado e de outro do curso de água) são da competência da “Águas do Porto”, que “agora efetua os seus trabalhos sempre na companhia de um técnico camarário do setor do Ambiente”, como disse António Gouveia, que adorava ver, num futuro próximo, a Ribeira da Granja, em Ramalde, “desentubada, alindada e… despoluída”, servindo os seus espaços “para as pessoas levarem os seus farnéis e lá fazerem piqueniques.”
O autarca – e até para quem um desses desejos seja realizado – não descarta a hipóteses de ser construída uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) no local. “Não ficava mal… há um espaço bom, junto à escola, para tal!”
Mas, as coisas, ainda que graves, não estão assim tão más, se atendermos ao facto de, em certos sítios – e, especificamente, na Quinta do Rio onde estivemos presentes -, os animais, designadamente aves” – com especial destaque para as galinholas -, estarem “a regressar à Ribeira”, como informou o presidente da autarquia de Ramalde.
“Temos de defender a biodiversidade e, neste caso concreto, nos locais banhados pela Ribeira da Granja. Pelo que todos devemos estar atentos a qualquer tipo de atentados ao Ambiente”, reiterou António Gouveia.
ALFREDO FONTINHA: “A POLUIÇÃO QUE PODE HAVER É… DOMÉSTICA!”
Entretanto, e para Alfredo Fontinha, conhecedor da zona, tanto mais que foi já presidente da Junta de Freguesia de Ramalde (1994-2001), sendo atualmente, deputado municipal eleito nas listas do Partido Socialista, o problema reside nos resíduos, sim (!), mas nos “domésticos” que se vão acumulando ao longo do curso da Ribeira, e produzem maus cheiros, porque, no Verão, ou quando está calor, o caudal da ribeira é mais pequeno, a força da água é menor, e os resíduos acumulam-se”.
E garante: “Não há poluição industrial na Ribeira da Granja!”. Opinião contrária à do presidente da Junta de Freguesia, António Gouveia.
“Há uns anos, a ribeira ficava às cores, devido à existência de uma fábrica de balões, e que enviava para o curso de água determinados produtos. A fábrica já fechou, e pelo que verifico, os maus cheiros não se devem a qualquer produto industrial”, salienta o deputado municipal.
A propósito, sabe-se que houve já quem defendesse a criação de pequenas ETAR em pontos estratégicos da ribeira, principalmente onde há maior densidade populacional, mas a ideia, de Poças Martins – engenheiro que, entre outras funções, liderou de 2006 a 2013 o processo de reestruturação da empresa Águas do Porto-, acabou por não ir avante.
Seja como for, os maus cheiros que se verificam em épocas de calor são insuportáveis.
“Penso que além dos resíduos domésticos, há também a ter em conta a putrefação de corpos de animais, designadamente roedores e aves, que, se a ribeira não for limpa, se vão acumulando e criando maus cheiros”, refere Alfredo Fontinha.
Intervenção de… limpeza
A última grande intervenção de limpeza e desobstrução do leito da Ribeira da Granja foi efetuada pela Águas do Porto, a 09 agosto de 2017, no troço da rua de Requesende (Ramalde). Daí para cá, não houve mais notícias de destaque quanto a qualquer tipo de ação do género, se bem que – e segundo alguns moradores de Ramalde do Meio – “os funcionários apareçam por cá, de vez em quando, para limparem a área”.
Segurança nas margens
Área que, como constatou a nossa reportagem e os moradores por nós contactados nos alertaram, carece de segurança em certos pontos marginais da ribeira. No Inverno, com a humidade e o proliferar de folhas caducas e ervas, qualquer incauto cidadão, a começar por jovens e crianças que têm um espaço de lazer por perto, pode, facilmente, escorregar e precipitar-se às águas. Sem correr o risco de afogamento, a verdade é que o tombo pode causar sérias lesões. Fica a recomendação para a “Águas do Porto”.
Um espaço a ter em conta
Independentemente de, quando nos deslocamos a Ramalde do Meio, estar a chover – uma pausazinha aqui e ali que o S. Pedro nos deu só para tirar algumas fotos -, a verdade é que foi fácil constatar a beleza natural que o espaço criado junto à bonita, mas degradada, Casa da Quinta do Rio, oferece. É nesta zona que confluem (desentubados), num só curso de água, a que se dá o nome de Ribeira da Granja, os ribeiros oriundos de S. Mamede Infesta (Matosinhos) e de Arca d’Água (Porto).

Ribeira da Granja que precisa de ser despoluída, seja por causa de resíduos industriais (como a Junta de Freguesia defende e alerta), seja pelos de origem doméstica. Há uma paisagem; uma biodiversidade única a defender. Pelo que, como referiu António Gouveia, todos devem de estar atentos aos… atentados que estão a ser (ocasionalmente?) realizados por quem, de forma irresponsável, atenta ao Ambiente.
Recado dado!
01dez18






















Vivo na R. Requesende com logradouro que se estende até à Ribeira da Granja.
Compartilho com os comentários de outros residentes na zona. Muitas árvores,, muito altas, no caminho pedonal. Uma vez mais eu imploro que façam uma vistoria porque eu já fui vitima de uma árvore que foi arrancada pelo meio e caiu no telhado que cobre o logradouro. Voou e foi atingir o telhado do prédio. O seguro dos inquilinos resolveu o assunto na altura. Quanto ao logradouro, como fica na minha fração tive que resolver eu.
Escrevi para as Águas do Porto que remeteu o assunto para outras entidades e até para o proprietario do terreno da margem esquerda…Resultado: o tronco da árvore queimada continua lá junto com outras 4 árvores rodeadas de imensas silvas que descem e tapam o rio .Peço a melhor atenção para o facto de que as pessoas se dirigem do Viso por trás da minha casa para ir ao Pingo Doce, agora começa um novo ano lectivo e o caminho pedonal é usado por crianças para ir e vir de e para a escola além de todos as outras . è prioritário….vai começar o Inverno. Tenho medo.
A Despeito de todo a conversa havida a propósito da Poluição Estrutural e Endémica da Ribeira da Granja que não acabou porque há quem queira que o Status Quo se mantenha, não se compreende que ao fim de tantos anos não tenham sido identificados os Poluidores e aplicadas coimas de monta para alterar este estado de coisas. A União Europeia será chamada a resolver o problema.
As ribeiras da Granja, as suas margens e os seus passadiços, são um espaço verde magnífico sobretudo para os milhares de habitantes que vivem nas proximidades. A poluição das ribeiras continua a ser um problema que devia ser fiscalizado a sério por quem de direito. Andar a passear nas suas margens e sentir o cheiro e ver as águas turvas é desolador. Nem sempre acontece mas uma fiscalização apertada resolveria o problema . não é difícil descobrir os infractores, basta seguir o curso dos ribeiros e ir observando onde começa a poluição.
Muito obrigado pela reportagem. Para quem não conhece, após a leitura da mesma, fica com ideias do que se trata. Contudo, desde a reportagem até ao presente, as coisas têm vindo a deteriorar-se. Desde a vinda de toxicodependentes para de baixo da ponte e por vezes até nas traseiras de uma “casa” de distribuição da EDP.
Os detritos são cada vez mais vistos. Lixo, restos de comida e descargas.
As árvores são também um problema, as águas do Porto e a CMP, pouco ou nada fazem para manter o local digno do seu esplendor.
Não há podas, ha árvores que estão quase em cima de casas, eventualmente um dia poderá haver um desastre.
Enfim, só quem vive junto da Ribeira sabe do que se trata. Poderia ser tão diferente, tão acolhedor e LIMPO.
Boa noite, fico feliz com esta reportagem.
viva rui moreira. viva antonio gouveia.
viva etcetal e meu amigo diretor se não tomar mal. Sr. Goncalves. e sua equipa. cumprimentos.
amadeu almeida
Obrigado pela reportagem, José Gonçalves e pelas fotos, Mariana Malheiro, ficamos com o “recado” e tudo faremos, também às AdP e CMP, muito sensibilizadas para a continuação da já iniciada (1.a fase) despoluição, desentubamento e reabilitação da Ribeira da Granja, um dos ex-libris de Ramalde, pela sua beleza ambiental e paisagística que, no verão, nos dá alguns desgostos, falta educação cívica de alguns, o respeito pela mãe natureza, compensado largamente pelos hortelãos que, com as suas hortas, pululam por ali. O presidente Rui Moreira, já há muito tempo, lançou-me o repto de abrirmos na freguesia uma feira de produtos frescos, hortícolas e artesanais. Quem sabe se conseguiremos sensibilizar o Manel, o Freitas e outros hortelãos da freguesia para avançarmos com a ideia, o Bolhão fica tão longe …