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FORAM SEIS MIL QUILÓMETROS DE JIPE PARA ENTREGAREM UM… JIPE A MISSIONÁRIOS NA GUINÉ! EIS AS HISTÓRIAS DA HUMANISTA “PEREGRINAÇÃO” DO PORTO A BISSAU DE… QUATRO PADRES E QUATRO LEIGOS

No passado dia 03 de fevereiro, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, deu a “bênção” de partida para um “raide” (missão) de jipe da Sé do Porto à Guiné-Bissau, com a participação de quatro padres e outros tantos leigos, que tiveram como objetivo a entrega de um… jipe, oferecido pelo Bispo, a missionários guineenses.

Bispo do Porto na bênção da viatura, à partida da Sé

A ideia foi incentivada pelo pároco de Canidelo (Vila Nova de Gaia), Almiro Mendes, depois de há, sensivelmente, 14 anos se ter deslocado à Guiné-Bissau e ter ficado chocado com a pobreza lá existente. Mas já antes desta iniciativa, realizada em fevereiro último, e com o lucro da venda de dois livros, o padre Almiro tinha enviado para a Guiné cinco jipes.

A ideia como que criou “raízes”, e num ato que surpreendeu tudo e todos, foi o próprio Bispo do Porto a oferecer um jipe aos missionários na Guiné, viatura que acabou por percorrer cerca de seis mil quilómetros até chegar ao seu destino.

A viatura todo-o-terreno não foi, obviamente, sozinha, como também não foi o padre Almiro Mendes, verdeiro ativista da ideia, conseguindo reunir mais sete pessoas (entre os quais três seus colegas) para a jornada, uma das quais chegou mesmo a ofereceu uma pick-up, a qual, acompanhando o célebre jipe também chegou à Guiné e lá foi entregue a quem dela precisava para ajudar quem de ajuda precisa.

Bispo do Porto já na Guiné junto das missionárias

A corajosa e humanista missão durou doze dias, passando os aventureiros por Espanha, depois pelo estreito de Gibraltar, Marrocos, Saara Ocidental, Mauritânia, Senegal até chegarem à Guiné-Bissau.

José Gonçalves

(texto e entrevista)

E antes de iniciar a entrevista com o padre Almiro Mendes, fique, desde já, bem vincado, que este trabalho, é por si só, um registo histórico, não só para o nosso jornal, mas para todos e todas, aqueles e aquelas, para quem o significado das palavras “humanidade” ou humanismo” tem um significado real na prática e na vivência.

Este não é nem uma nota da direção, nem uma observação, é algo que, quem vos escreve, sublinha, porque o papel de um jornal não é, como no nosso nunca foi, só e somente para revelar relevando coisas tristes, algumas das quais têm sobremaneira afetado a instituição eclesiástica.

Esta entrevista não tem preconceitos, é, no fundo, uma história contada na primeira pessoa do singular, falando dela num plural de gente que é nobre e que aqui, desde já, enaltecemos!

PADRE ALMIRO MENDES:PASSEI DO «EU SOLITÁRIO” PARA O «NÓS SOLIDÁRIO»

Simpático, emotivo no falar, Almiro Mendes, de 57 anos, é pároco de Canidelo (Vila Nova de Gaia), e um homem que tem levado a diversos países, ações solidárias dignas de registo, isto para com povos em sofrimento. No fundo, o nosso entrevistado, e “mentor” da recente missão à Guiné – Bissau, apoiada pela Diocese do Porto, é a imagem viva e prática de como, no entender de muitos, deve ser a ação da Igreja.

E no passado dia 03 de fevereiro acabou por concretizar-se, ao iniciar-se, mais um périplo por África, tendo com principal objetivo a chega à Guiné-Bissau, para lá serem entregues duas viaturas que, por certo, salvarão muitas vidas, naquele que é um dos países mais pobres do planeta.

Esta ação tem uma história, uma vez que, e segundo Almiro Mendes “ela remonta ao ano de 2005, quando estive como padre em trabalho na Guiné. Foi nessa altura que me magoei muito com o sofrimento daquele querido povo. A Guiné é o quinto país mais pobre do mundo. E quando de lá parti veio comigo assolapada a ideia de lá voltar.

Entretanto, escrevi dois livros e com o dinheiro dos mesmos, consegui enviar para a Guiné cinco jipes. Este, agora, foi o sexto e foi oferecido pelo senhor Bispo do Porto. D. Manuel Linda. Acho que a Diocese do Porto quis constituir-se como uma instância do Divino Bom, ao oferecer este jipe à Guiné-Bissau, e o senhor Bispo, numa visão verdadeiramente surpreendente, ofereceu o jipe e num ato profético, deslocou-se à Guiné para o entregar pessoalmente, assim como uma substancial oferta às missões em Bissau.”

“Acho que é com estes gestos que esta Igreja traduz a fidelidade à sua idiossincrasia e também evidencia a sua catolicidade, porque oferecer um jipe à Guiné é tornar a Igreja Católica universal. Foi um abraço de Portugal, da Diocese do Porto a Bissau e a Bafatá! Isto parece-me, verdadeiramente, admirável….”

Foi uma aventura que nunca faria por desporto ou até que me pagassem

Mas, o padre Almiro Mendes não foi sozinho. A aventura humanitária teve, pelos vistos, boa companhia, a começar pela presença não só de três colegas, mas também de quatro leigos.

“Houve, na realidade mais três colegas meus que, logo de início, decidiram acompanhar-me porque esta viagem nem é rápida, nem é fácil e, como tal, impossível de fazê-la sozinho. Houve, então, o padre de Oliveira do Douro, da Trofa, e o padre da Lixa que se disponibilizaram a me acompanhar. Entretanto, e depois, quatro leigos – um professor, um médico, um engenheiro e um comerciante – manifestaram também vontade de ir connosco, levando, inclusive, um carro – uma pick-up – que ofereceram a uma ONG chamada «Na Rota dos Povos». Portanto, esta viagem foi, realmente, diferente por esta razão também.

Foram os padres a levar o jipe que o senhor Bispo do Porto ofereceu à Guiné, e foram também quatro leigos a oferecerem uma pick-up. Agora, estamos a tratar de enviar uma ambulância – essa num barco – oferecida pelos Bombeiros Voluntários de Vila Meã”.

Percorrer quase seis mil quilómetros, do Porto a Bissau, não será, por certo, fácil, tanto mais que, e de acordo com Almiro Mendes, esta “foi uma aventura que nunca faria por desporto, ou até que me pagassem. Mas, como foi uma aventura para deixar um jipe que vai salvar vidas, ousámos fazer o que fizemos. Um jipe aqui, em Portugal, é um veículo de luxo, mas na Guiné é um salva-vidas. Foi uma viagem cansativa porque atravessámos muitos países; foram muitos quilómetros…”

Convívio entre os “aventureiros”

E, depois, aparecem sempre alguns contratempos neste tipo de iniciativas “radicais”, tanto mais que “a prova” – ao contrário, por certo, de um Paris-Dakar – não é organizado ao mínimo dos mínimos pormenores…

“Estivemos sete horas na Mauritânia para atravessar a fronteira. São contextos diferentes e nada fáceis”. Contextos esses que se devem, essencialmente, com “o sistema que África vive e mergulha: leis complicadas e isso obriga a que as fronteiras, em alguns casos, sejam quase que um caos. Mas também não há missões de luxo! Quando partimos para uma viagem desta natureza temos de estar preparados para todas as eventualidades”.

Estava, na realidade, o padre Almiro Mendes preparado para este duro, mas aliciante, desafio?

“Estava! Já sabia que a viagem nem era rápida, nem fácil. Preparo-me sempre com a esperança que tudo vai correr bem, mas também me preparo para o pior. Mas não houve assim nada de grave no sentido de nos impedir que chegássemos lá. O pior que pode acontecer nestas coisas é um acidente, ou um assalto, ou uma doença, mas não padecemos desses males, apenas um padre foi com uma rutura de ligamentos, um dos leigos com febre metade da viagem, mas tirando essas coisas…”

É uma viagem que se reveste de encantos. Mas também nos magoamos com a pobreza que vimos

Tirando alguns “percalços” de pouca monta “a viagem teve também essa parte de fascínio, como conhecer países – atravessámos o sul de Espanha; o estreito de Gibraltar-, mas, sobretudo, as zonas mais desertas como o Sahara Ocidental, a Mauritânia, o Senegal, e depois de contornámos a Gâmbia, chegarmos à Guiné”, disse-nos o padre da paróquia  de Canidelo.

“É uma viagem que também se reveste de encantos, de paisagens, nos animais que vemos, como dezenas e dezenas de camelos e javalis. Depois, em Marrocos e no Senegal há milhares de burros a empurrar carroças… é uma cultura diferente. Nesse aspeto é fascinante!

Depois também vimos o pôr e o nascer do Sol no deserto que é qualquer coisa de único. O experimentar o silêncio! Esta viagem também teve esse encanto, essa beleza.

Mas, e ao mesmo tempo, também nos magoamos com a pobreza que vimos. As condições de vida no deserto são paupérrimas. Contudo, houve outra coisa que nos fascinou que foi ver os milhares de jovens e crianças, caminhando à beira da estrada. É uma realidade interessante. É uma viagem nesse aspeto também muito engraçada”, referiu o nosso entrevistado, que teve sempre um objetivo principal em toda esta “maratona”.

Em boa verdade, contudo, “o interessante foi chegar à Guiné e entregar o jipe para salvar vidas. Estivemos em Bissau, em Caió que é uma tabanca – aldeia no interior do mato –, fomos à Diocese de Bafatá, onde o senhor Bispo do Porto foi lá ter connosco depois de viagem de avião, pois nós quisemos que ele se inteirasse daquela realidade e levamo-lo lá. Ele ficou admirado com a realidade e com vontade de continuar a ajudar. Penso que que esse foi o grande fruto desta viagem. Nós regressamos com a vontade de continuar a ajudar.”

A Igreja na Guiné é aquela com que Cristo sonhou

Já para além das agruras do deserto, em termos de viagem, assim como do contemplar de paisagens únicas, e uma vez na Guiné, Almiro Mendes, bem como os seus acompanhantes, deparou-se com um outro “cenário”, uma outra realidade… sendo de salientar as nobres missionárias…

Bispo do Porto junto de missionárias e do padre Almiro

“Nunca vi ninguém saber tanto com tão parcos recursos como os missionários na Guiné. Dá-me vontade de me ajoelhar perante aquelas mulheres extraordinárias, que sãos as missionárias, as freiras, (em toda a Guiné, em todas as missões estamos a falar de muitas centenas de padres e de freiras. Basta dizer que a escola, na Guiné, começa, como em Portugal, em setembro, mas houve uma manifestação de jovens na Guiné porque as escolas no interior que, em fevereiro ainda não tinham aberto. As únicas que estavam a funcionaram eram as das missões.”

“O único hospital pediátrico para tratar crianças com dignidade é da Igreja, é das dioceses. Portanto, a Igreja na Guiné é a mais bela expressão do «humano bom» e do «divino excelente». Estamos num tempo em que as pessoas veem a Igreja só pelo lado negativo, enfatizando um pecado que fica muito mal e que também me envergonha, como é a pedofilia, mas na Guiné está lá uma outra Igreja, julgo que é aquela com que Cristo sonhou, que pensou e que acho lá estar bem traduzida”.

Em Portugal há quem não tenha sapatos, mas lá, na Guiné, há pessoas que não têm… pés!

E a missão do padre Almiro não se circunscreveu à realizada, recentemente, à Guiné-Bissau. A experiência é muito mais vasta e enriquecedora…

“Faço parte de uma associação chamada «Padrinhos de África», nós apadrinhamos crianças que vivem com dificuldades, estamos também em Moçambique, onde já fui, isso como em outros países africanos, porque a Guiné não é o único país a necessitar, mas é de todos o mais carenciado.

Sabe que há muita gente que diz: então, mas porque é que vão assim para tão longe, quando temos em Portugal muita gente e muitas crianças para serem ajudadas”. A verdade é que em Portugal há quem não tenha sapatos, é verdade, mas lá há pessoas que não têm… pés.”

“Isto é: a pobreza da Guiné não é sequer comparável com a que se verifica no nosso país; as pessoas é que não conhecem a realidade. Eu vou sempre para onde Deus me empurra e às vezes vou aos trambolhões e não digo que no futuro não tenha que voltar a fazer uma aventura destas, embora não a deseje, porque na realidade ela é muito desgastante. Mas não fecho essa possibilidade”.

Não conseguimos negar aos olhos as lágrimas!

Bispo do Porto, D. Manuel Linda, em fraterno convívio

Mas, ao fim e ao cabo, como reagiram os guineenses; as missionárias e todos aqueles para quem esta iniciativa estava destinada?

”Não conseguimos negar aos olhos as lágrimas. Depois de tantos quilómetros percorridos, tantas picadas feitas, tantas dificuldades superadas, chegar à Guiné com o jipe direito e poder entregar as chaves, tendo a certeza que a viatura vai salvar vidas é algo de indescritível. Eu tenho essa sorte! A sorte de realizar-me no palco da vida dos outros. Eu sou padre, e um padre como homem uma das alegrias maiores que vi na minha vida toda são estes momentos. É uma alegria invisível”, palavras emocionadas de Almiro Mendes.

E, e verdade, é que toda esta humanitária aventura ficou registada, conseguindo o “Etc e Tal jornal” uma pequenina mas valiosíssima parte desses registos…

“Fizemos quatrocentas e tal fotografias e vídeos, mas é em nós que se grava indelevelmente tudo: as imagens, as vivências, as experiências. O jipe que conduzi levava milhares de assinaturas de crianças da catequese, dos velhinhos, até de doentes… de muitas pessoas da paróquia de Canidelo, e até de artistas da televisão. Portanto, não fui eu que fui levar o jipe, foi toda esta gente. Eu fiz tudo para que as pessoas tivessem a consciência que não era o padre que ia – algumas até colaboraram com dinheiro para ajudar no gasóleo, nas despesas; rezaram por nós -, portanto foi a comunidade toda, foi muita gente, que fez esta viagem. Ela foi logo divulgada por aí envolvendo as pessoas. Mas continua a divulgar-se também através de si e do seu «Etc e Tal»”.

De acordo com o padre Almiro Mendes “nós vivemos numa sociedade que está sempre a revelar a desgraça, as tragédias, os tristes acontecimentos e é muito importante que as pessoas entendam que ainda há bonitas expressões. Acho que ao divulgar esta iniciativa, como está a fazer, é que se age como construtores do Ser humano, que minimiza a desgraça e o sofrimento de tantos inocentes. Por isso, esta viagem, esta peregrinação – «vocês vão como peregrinos», disse-nos o Bispo do Porto ao abençoar-nos na partida… «é assim que vos envio» -, não foi um padre aventureiro que se lembrou ir, mas fomos todos! Passei do «eu solitário» ao «nós solidário».

E percebamos que a maneira mais fácil de sermos é construirmos paraísos à nossa volta. Este jipe que fomos lá levar foi uma maneira de criarmos paraísos dentro de nós, e também criou um paraíso na Guiné porque aquele jipe vai ajudar muita gente, vai ser um instrumento para aquela população. O Bispo da Guiné que recebeu o jipe comoveu-se porque só se compadece quem padece, ele ficou comovido quando ficou possuidor das chaves do carro”. Palavras (bonitas!) do padre Almiro Mendes.

E foi, assim, esta peregrinação, que se iniciou no passado dia 03 de fevereiro, com a partida, pelas 15h30, da Sé do Porto, de quatro sacerdotes e de quatro leigos rumo a Bissau; dia 12 foi celebrada a chegada a Bissau; nesse mesmo dia partiu, de avião, do Bispo do Porto, D. Manuel Linda, para a capital da Guiné; e dias 13 e 14 realizou-se visita do Bispo do Porto às Dioceses de Bissau e Bafatá e a algumas Missões. Dia 15: visita a Bissau e regresso ao Porto.

E pronto. Um registo que fica para a história.

Fotos: cedidas pelos “peregrinos”

01mar19

 

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