Carmen Navarro
Os meninos já foram felizes sem o saber…
Lá longe em tempos passados em que não tínhamos telemóvel, só um telefone, negro com uma rodinha com buracos que deixavam ver os números, também pretos, quando se discava nunca tínhamos a certeza de ouvir a voz da pessoa que procurávamos. No estabelecimento do meu pai existia uma caixa de madeira com uma ranhura para guardar as moedas das chamadas de quem não tinha telefone (que eram muitos) e lá iam para telefonar. Como eu gostava de brincar com a rodinha do telefone, que alegria!
Brincar
Gostaria de voltar no tempo
para de roda brincar
de pião girar
a ingenuidade cultivar
dores, só das quedas
os abraços recebidos
os sonhos vividos
a inocência nos olhos
os poderes e quereres
poderiam ser tirados ali
de um pé de manga, de laranja
de um brincar no riacho
as corridas pra se alcançar uma bola
ah, meu tempo de infância,
de criança voltar.
Pati Menezes
De manhã cedo íamos para a escola a pé, com uma malinha de cartão ou uma sacola de pano a tiracolo, dentro a lousa e uma “pena”, mais a sebenta, pois os cadernos brancos eram caros e só se usavam para trabalho limpo, que por vezes ficava esborratado, pois a caneta era de aparo para molhar na tinta, quando esta ficava mal escorrida lá caía o borrão de tinta no trabalho.
Uma escola para meninas, outra para meninos, nada de mistura a única coisa que era para meninas e meninos era a régua ou palmatória de cinco olhos e uma cana longa que servia para a professora descarregar a sua ira nas meninas e nos meninos, a cana era longa, pois, a professora sentada não se podia levantar para dar com ela na cabeça dos alunos. Nem o hino Nacional, nem as rezas nem a vigilância dos retratos dos Governantes do Regime, nos livravam do medo à professora. Toca a sineta, era o corre, corre para livremente jogarmos no recreio, para a brincadeira e fugir daquele inferno, por vezes caíamos como peças de dominó, mas nada fazia mal, o chão era como algodão, mesmo com os joelhos esfarrapados. Saltávamos à corda.
Jogávamos ao trapo queimado, á cabra cega, as escondidas ou em roda de mãos dadas cantava-mos lengalengas, Re béu, béu, béu, pardais ao ninho e ficas tu, e assim se escolhia quem ficava no meio da roda para continuar a cantar e assim escolher outra para continuar a brincadeira, ou outra; Aniki Bobó, fico eu ou ficas tu Aniki bobo, melopeia usada pelos catraios para brincarem aos Policias e ladrões, ou canções populares, que estão diretamente relacionadas com a brincadeira de roda infantil como: Ciranda, Cirandinha, As Pombinhas da Catrina, Que Linda Falua, Fui ao Jardim da Celeste e éramos felizes sem telemóvel.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
O anel que tu me deste
Era de vidro quebrou se,
O amor que tu me tinhas
Era pouco e acabou-se.
Popular
Nos tempos livres depois de fazer os “deveres” toca a brincar outra vez, O cabo da vassoura e a imaginação davam um excelente cavalo para montar e correr montes e vales, jogar à bola sem árbitro, sem equipamento com uma baliza feita com duas pedras.
Com um pau de giz e uma patela que normalmente era o tacão de borracha de um sapato de homem, fazia-se a festa. Desenhávamos no chão vários retângulos (casas) numeradas e assim se passavam umas belas horas a atirar a patela, a caminhar em pé coxinho para apanhá-la em equilíbrio num só pé e a regressar também em pé coxinho. Ou a empurrar com um pé e o outro no ar a patela de casa em casa. Jogo da macaca.
Tinha um pião de madeira bico de lança, piasca e faniqueira para o fazer girar, desenhava um círculo no chão e mesmo sozinha era um divertimento. Um simples caixote de madeira de embalar o sabão servia para fazer um carro de corridas, era só arranjar uns rolamentos ou quatro pequenas rodas, um pouco de corda e um parafuso e fazíamos um estonteante carro de corridas que descia as ladeiras ou então era empurrado à vez pelos amigos, pois todos eram pilotos de alta velocidade.
Mais calmamente brincar. Tínhamos bolinhas de vidro umas pequenas outras maiorezinhas, de brilho mágico como o arco-íris, era uma emoção, jogar ao Berlinde.
O jogo do Mata em que todos podiam entrar.
No entanto, sabíamos tintim por tintim todos os nomes dos caminhos-de-ferro, todos os rios e seus afluentes, as serras, tudo bem identificado e reconhecido no mapa de Portugal, era obrigatório conhecer também os mapas das Ilhas e Colónias para identificar o mesmo que no de Portugal. Os reis de Portugal também eram do nosso conhecimento, gramática, aritmética e geometria, sem máquina de calcular, sem computador.
Como adorava ler e colecionar os livrinhos de histórias da “Majora“.
Foram a minha paixão, talvez por isso ainda hoje não resisto a viver sem estar rodeada de livros por todos os lados.
Poesia é…
brincar com as palavras
como se brinca com bola,
papagaio, pião.
Só que bola, papagaio, pião
de tanto brincar se gastam.
As palavras não:
Quanto mais se brinca com elas,
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
José Paulo Paes
Apesar de todos os problemas divertíamo-nos a valer e não me lembro de meninos hiperativos. Creio que nesse tempo se chamava “falta educação”.
A criança necessita de ter a liberdade de inventar as brincadeiras que por vezes são do mais parvo para os adultos, no entanto, nesse momento está a aprender a desenvolver a sua própria identidade e a imaginação descobrindo através dos jogos formas de abordagem a diferentes situações e ao brincar com os outros está a aprender a importância de ouvir os que a rodeiam e a partilhar, assim, contribui para o seu desenvolvimento global.
O mundo dos adultos desvaloriza a brincadeira e a sua preocupação máxima está em que a criança tire “ boas notas” na escola. Ainda é desconhecido que o sucesso escolar e na sociedade, está diretamente relacionado com as capacidades adquiridas enquanto a criança brinca.
Como gostava de viajar para os tempos em que o céu era sempre azul, em que as laranjas pintavam os dedos e as estrelas brilhavam mais. O tempo tinha outros cheiros e cores.
Éramos Amigos sem dar por isso. Só assim existem os verdadeiros Amigos e estas são amizades e memórias que nos ficam até ao fim da nossa vida, mesmo sem brinquedos sofisticados. Éramos felizes sem dar por isso.
Ser responsável sempre também cansa.
Fotos: Pesquisa Google
01mai19







Não consigo exprimir por palavras o que acabo de ler, mais parecendo estar a vivenciar as minhas memórias de infância, recordando o meu feliz e mais remoto passado. Atualmente encontro-me a narrar por capítulos as minhas memórias, ao fazer pesquisas na INTERNET, encontro este tesouro, que alegria. Para mim este simples texto é das melhores coisas encontradas até hoje. Como me identifico com tudo o que aqui escreveu. Carmen Navarro estou felicíssimo, perfeito, muito, muito AGRADECIDO. Seja feliz.
AS COISAS MELHORES DA VIDA, SÃO AS MAIS SIMPLES..OBRIGADA POR LEMBRAR…