Na Missa de Páscoa, o bispo do Porto, D. Manuel Linda, deu o “mote” para que o “encerramento dos supermercados e centros comerciais ao domingo” seja, como já foi, uma realidade. Volta e meia esse é um assunto que vai alimentando discussões mas, que em boa verdade, de nada têm adiantado.
José Gonçalves
(texto e fotos)
O bispo do Porto chegou a pedir aos fiéis que se lembrassem “do novo esclavagismo da laboração contínua, legalmente imposta”, como salientou, “pelos novos senhores do mundo, que dominam a economia e, por esta, os governos”.
Mais: “pensemos como os critérios dos turnos, em setores onde, para além da ganância, nada os justifica”, origina o “esclavagismo laboral que só prejudica a família”.
Dizendo que “os países mais ricos não abrem os supermercados, nem os hipermercados ao domingo”, D. Manuel Linda referiu estarmos a viver “numa civilização fria, sem alma, individualista; de base materialista e hedonista, perdendo as marcas da herança cristã e da cultura ocidental humanista”.
O bispo do Porto chegou mesmo a alertar, na Missa de Páscoa, realizada na Sé Catedral do Porto, para os “graves transtornos psicológicos do trabalhador” e do “fracionamento dos encontros familiares”.
APED e APCC criticam declarações do bispo
E as palavras de D. Manuel Linda não caíram em saco roto, já que, logo de seguida, foi criada uma petição online, que, poucos dias depois, contava já com qualquer coisa como 45 mil assinaturas a favor do encerramento dos centros comerciais e supermercados ao domingo.
Por outro lado, a Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) tornou pública a sua posição, salientando que “a liberalização dos horários importa a todos os setores, tem como base a proximidade, a conveniência e a diversidade de oferta”, indo assim “ao encontro das expectativas dos consumidores”.
A verdade, é que há cerca de uma década tantos os centros comerciais como os hipermercados se encontravam encerrados ao domingo, tendo sido a própria APED a lançar uma petição, esta com 250 mil (repito: 250 mil) assinaturas para a reabertura desses espaços tanto nas tardes de domingo como nos dias de feriado. Assim acontece há uma década.
Também a Associação Portuguesa do Centros Comerciais (APCC) criticou a posição do bispo do Porto, referindo em comunicado, a que o EeTj teve acesso, que “a abertura dos centros comerciais ao domingo foi uma decisão incontestada, compatível com a vida moderna e com as reais necessidades dos consumidores.”
“Entendemos”, refere ainda a APCC, “não fazer sentido o país voltar a um debate que a sociedade já ultrapassou”, realçando que a “flexibilidade dos horários adaptou-se na perfeição à vida dos portugueses”.
Greve dos Trabalhadores dos Hiper e supermercados para o 1.º de Maio
Para além das petições e outras ações de apoio às declarações de D. Manuel Linda, os trabalhadores dos híper e supermercados marcaram uma greve para hoje (1 de maio – Dia do Trabalhador), tendo o pré-aviso sido emitido pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços (CESP) e transmitido à Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), abrangendo os trabalhadores da “Auchan”, “Pingo Doce”, “Sonae” e do grupo DIA.
Entre as reivindicações estão a revisão do Contrato Coletivo de Trabalho, em negociação há 31 meses, com aumento dos salários para todos os trabalhadores, o fim da tabela B, a progressão automática do operador de armazém e o encerramento do comércio aos domingos e aos feriados, incluindo o Dia do Trabalhador.
O CESP, em comunicado, “denuncia os comportamentos que as empresas de distribuição já estão a ter, uma vez mais de pressão e tentativa de intimidação dos trabalhadores, mas também denunciamos as empresas que estão a organizar lanches, almoços e festas, dentro dos supermercados, para comemorar o Dia do Trabalhador, ao invés do encerramento no 1.º de Maio, respeitando o direito dos trabalhadores destas empresas a comemorarem o seu dia em conjunto com as suas famílias e amigos”. E o CESP, neste mesmo comunicado, saúda a posição do bispo do Porto contra, entre outros factos, “o novo esclavagismo da laboração contínua”.
“Gostava de fazer greve, mas depois como é que é?”
O “Etc e Tal jornal” contactou com alguns trabalhadores das superfícies comerciais anteriormente referidas abrangidas pela anunciada Greve, salientando alguns, no “Pingo Doce” – e não querendo dar cara, nem nome, por causa de possíveis represálias – que “a ideia é boa; as reivindicações têm sua razão de ser, mas, infelizmente, não podemos fazer greve, porque não podemos jogar com o futuro da nossa vida profissional”, como nos disse uma trabalhadora. “Gostava de fazer greve, e depois? Como é que é? Tenho dois filhos para alimentar!”.
“ Não acho que o encerramento aos domingos seja algo que vá alterar muito a nossa vida. Que me lembre houve sempre, trabalhos por turnos em muitas profissões, por que não nesta? Gosto imenso de folgar ao domingo, mas quando ao domingo estou de folga não me livro, de, também eu e a família, ter de fazer compras…” reação de um funcionário de uma conhecida cadeia de supermercados que, na Páscoa, por exemplo, deu folga aos seus colaboradores.
Consumidores “torcem” o nariz ao encerra de portas
E como encarariam os clientes de centros comerciais e de supermercados à eventualidade de estes se encontrarem de portas encerradas aos domingos.
Não fomos aos centros comerciais mais frequentados do Grande Porto – quem vos escreve não se dá lá muito bem com confusões desenfreadas-, mas aos com ambiente mais recatado, ainda assim com clientela a ter em conta, tanto mais que no seu seio, abriu, recentemente um supermercado, e se encontra localizado no “coração” do Porto, e aí falamos com algumas pessoas (clientes) que… não gostaram muito da ideia.
“Estou a chegar da Foz. Estava lá mais frio que no centro do Porto. E quando faço um passeio ao domingo, com a minha mulher e às vezes com o meu neto, não prescindo de vir até aqui, a este centro comercial, para comermos qualquer coisa que servirá de lanche e de jantar. Se fechassem isto ao domingo ia sentir muito, mas concordo que os empregados devem também ter direito ao convívio com a família”, referiu Manuel Duarte, morador na portuense freguesia do Bonfim.
Já o jovem Paulo Silva, de Gondomar, é lacónico: “fechar para quê? Eu também trabalho em regime de folgas rotativas. Às vezes calha-me um domingo. Depois até gosto de folgar à semana: os outros estão a trabalhar e eu a dar umas voltas com a namorada. Fechar isto, não leva a lado algum, pois as pessoas já têm sua vida organizada de acordo com os planos das empresas. Eu tenho!”.
A discussão foi lançada. Há, na realidade, questões pertinentes a ter em conta, faltando agora saber qual a adesão que a greve agendada para hoje (01mai19) vai ter. Seja como for, não parece ser, para já, que as ideias do bispo do Porto venham a ser concretizadas, o que não o impediu de colocar o dedo numa ferida ainda não cicatrizada.
01mai19







