O processo de demolição, por desmontagem, das últimas três torres do Bairro do Aleixo, no Porto – depois das outras duas terem sido implodidas, em 2011 e 2014 -, já está em curso prevendo-se que o processo termine até ao final do presente ano.
Os trabalhos decorrem sob a supervisão do Fundo Especial de Investimento Imobiliário Fechado criado, há cerca de nove anos, para gerir o projeto do Bairro do Aleixo, aglomerado habitacional que foi fundado a 13 de abril de 1974, e que ficou, recentemente, despovoado, tendo sido realojadas as cerca de 270 pessoas que residiam no local, em diversos bairros sociais da cidade.
José Gonçalves Mariana Malheiro
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E foram os graves problemas sociais relacionados com o tráfico de droga (um verdadeiro “cancro”) que marcaram a vida deste bairro situado na freguesia de Lordelo do Ouro, hoje em “união” com Massarelos. Problema que deixou marcas e mazelas as quais não serão “saradas” tão cedo, e, como tal, transferidas para outros locais da cidade, como já acontece com os casos relatados por este jornal na passada edição, na freguesia de Ramalde (Francos, Ramalde do Meio e Viso), mas também, e recentemente – por alertas dos residentes – no vizinho bairro da Pasteleira.
Para já, é certo, o realojamento definitivo das famílias (cerca de 100) que residiam no local, em habitações a serem construídas nos 29 fogos na Travessa de Salgueiros; 36, na zona das Eirinhas (“licenciamento concluído”, assegurou o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira) e no Bairro do Leal, 66 fogos.
O processo de desmontagem
A primeira das últimas três torres do Aleixo encontra-se em processo de desmontagem desde o passado dia 08 de junho, processo esse -, e segundo a FundoBox (gestora do Inversub) -, que só se iniciou depois da retirada do amianto, não só do edifício que está a ser demolido, mas também dos outros dois que terão igual destino até ao final do ano.
Em declarações, recentes e tornadas públicas, o administrador-delegado da FundBox, Manuel Monteiro de Andrade, explicou que a “demolição por desmontagem é um processo que começa com uma máquina bastante potente e poderosa, a qual consegue chegar à cobertura das torres e faz a demolição até uma certa altura”, depois “entram em atividade outras máquinas, mais convencionais, para prosseguirem os trabalhos”.
Depois há, então, um processo “de separação de resíduos da demolição e da sua valorização”, pois, ainda segundo Manuel Monteiro de Andrade, “os betões irão ser transformados em brita e integrados em processos construtivos”. Já o ferro “é todo separado e levado à siderurgia”, enquanto que “as madeiras serão levadas para serem transformadas em aparadas, ou para serem reutilizadas para lenhas, ou paletes»”.
Sabe-se que todos estes trabalhos estão a ser acompanhado de perto pela Quercus, prevendo-se que a desmontagem das restantes torres (2 e 3) será feita de forma progressiva, isto à medida que vai avançando a desmontagem da torre 1.
Estigmas

As mediáticas implosões das torres quatro e cinco do Aleixo, em 2011 e 2013, no mandato do social-democrata Rui Rio, como presidente da Câmara Municipal do Porto, não passaram, na realidade, disso mesmo: “mediatismo”, uma vez que os problemas sociais que grassavam no bairro não só se mantiveram como se agravaram.
Com o mediatismo da medida, o Bairro do Aleixo ficou a ser o centro das atenções nacionais durante alguns tempos. Se, por um lado, as preocupações foram discutidas e foram apresentadas algumas soluções para se tentar resolver ou atenuar os problemas que lá eram evidentes; por outro, os moradores do bairro foram, por assim, estigmatizados, facto que ainda hoje é um problema difícil de sanar.
“O quê? Vêm para aqui os gajos do Aleixo? Oh que caraças, lá vamos ter problemas com a droga”, esta, por exemplo, foi a reação, numa reportagem por este jornal efetuada, de um morador da zona das Eirinhas, na freguesia do Bonfim, local onde estão previstos 36 fogos para a construção de residências, parte das quais destinadas a antigos moradores do Aleixo.
“Eu sei que não seremos muito bem recebidos pelas pessoas dos locais para onde formos, e tudo por causa da droga. Mas, eu não sou drogada, nem ninguém da minha família o é. Sei, contudo, que vou ter de ultrapassar esse problema”, referiu uma moradora do Aleixo, aquando de um outro trabalho por nós realizado no local.
“Cancro(s)”
A questão do “estigmatismo”, mesmo que tenha sido levada em conta pela Câmara do Porto, incomoda sobremaneira os antigos residentes no Aleixo, isto a par de uma outra realidade, que já se torna visível e que está ligada à propagação da trasfega e consumo de estupefacientes em outras zonas da cidade, sendo, como atrás se referiu, visível o mal-estar dos moradores do (vizinho) bairro da Pasteleira, que têm visto nas últimas semanas “movimentos estranhos” nos locais mais recônditos da zona.
O mesmo acontece, em Ramalde, com o crescente número de “frequentadores” em locais já de si problemáticas quanto ao narcotráfico no Porto, e que destacamos na passada edição, como os casos de Ramalde do Meio, Francos e agora também o Viso.
Condomínio de luxo
Com certeza que as autoridades estarão atentas ao evoluir das (novas) situações, e que a integração dos novos residentes em áreas da cidade do Porto que lhes são desconhecidas em termos de vivência diária seja feita dentro da normalidade.
Quanto à zona do Aleixo, fala-se (repito: fala-se!) num projeto urbanístico de luxo – condomínio fechado – com serviços de proximidade. Tratar-se-á de um conjunto de sete edifícios para habitação, que terão até 100 apartamentos, destinados a famílias das classes média e alta.
A ver vamos se será assim.
01jul19










