José Gonçalves
Trabalhar numa redação de um jornal, ou de outro órgão de comunicação social, sob pressão, diria mesmo assédio psicológico, é um verdadeiro terror! Quem vos escreve sabe-o por experiência própria.
Na verdade, estar a trabalhar, sem a devida concentração, tudo porque não se sabe se no dia certo se receberá o salário; ou se poderá ser demitido devido a alegadas “reestruturações”, é um atentado, quanto mais não seja, à estabilidade emocional de quem produz e é, intelectualmente, proprietário do que faz e publica.
Com este tipo de jogadas, nas quais os jornalistas e demais colaboradores são as principais vítimas, está a condicionar-se o direito de informar em liberdade, subjugados que estão os profissionais à pressão exercida, direta ou indiretamente, pelas entidades patronais.
Os casos que vieram a lume, através do Sindicato dos Jornalistas, sobre o que se passa no Global Media Group (GMG), que engloba, entre outros títulos, o “JN”, “Diário de Notícias”, “O Jogo” e ainda a rádio “TSF”, são extremamente perigosos para o futuro profissional de quem lá labora.
O adiar de datas para o pagamento de ordenados, assim como o divulgar de uma lista de despedimentos, que não se sabe lá muito bem por quem é composta, nem por quantos jornalistas é formada, é um ato violador dos mais elementares direitos do ser humano enquanto trabalhador. Ou seja: é um ato terrorista!
O que está a acontecer nesse grupo de comunicação social, já aconteceu em muitos outros e no decorrer do presente século. Os exemplos são tantos que envergonham a classe, que para muitos nunca a foi.
Na maioria dos casos, os profissionais da escrita e da fotografia ficaram ao Deus dará, sem que, muita das vezes, o Sindicato dos Jornalistas os tenha defendido como devia.
Os empresários, que não sabem gerir as suas próprias empresas, não podem começar a reestruturação das mesmas pelo que consideram mais fácil: o despedimento de trabalhadores! Há por certo outras soluções, mas que, com certeza, não serão as mais convenientes, porque lhes vão diretamente aos bolsos.
No caso do GMG, ou grupo do Notícias como é popular e tristemente conhecido o “coiso”, a venda, para a instalação de um hotel, do atual “edifício do JN” veio dar a volta à cabeça não se sabe bem de quem, o mesmo “quem” que decidiu comprar (?) um edifício de um antigo stand de automóveis na portuense Rua de Latino Coelho, para lá transferir as redações.
O dito cujo lembrou-se de tudo e de todas as miudezas processuais… menos dos “seus” trabalhadores jornalistas e colaboradores, e quando se lembrou teve – pelo que se sabe – que mandar suspender as obras no novo edifício de modo a poder pagar os esquecidos ordenados.
Não sei se adiantará, como o fez o Sindicato, pedir ajuda ao Presidente da República para tentar resolver algo que não está na sua alçada de competências. A verdade, porém, é que o desespero é tanto que tudo tem sido feito para salvaguardar o justo interesse dos jornalistas, os quais não sabem ao certo qual o seu futuro, e logo, um futuro que estará sempre ligado – caso queiram seguir a profissão – a um mercado de escravos como o é o do jornalismo em Portugal.
E se falamos em despedimentos ou em salários em atraso, falemos também nos precários salários que os jornalistas recebem na maior parte das empresas de comunicação social (nacional, regional e local) e comparemos esses ordenados com, por exemplo, os valores que são atribuídos aos profissionais da escrita e da fotografia na vizinha Galiza.
Mas, se estou aqui a abordar os casos relacionados com um grande grupo de comunicação social, não posso nem me devo esquecer de outros grupinhos, liderados por caciques, nas mais nobres terrinhas deste país à beira-mar plantado, e que fazem a vida negra aos profissionais da comunicação. Aí não chega o Sindicato, e, mesmo que chegasse, os jornalistas teriam medo de assumir as realidades, por receio de represálias junto de familiares e amigos.
Isto é verdade! Sei do que escrevo.
E depois fala-se em classe. A classe – se é que existe “classe”– tem de ser defendida mas, na maior parte das vezes, ela, por si só, não se sabe (quer?) defender.
É assim que se faz jornalismo em Portugal?
Salvo raras e honrosas exceções… é!
E tão cedo não à volta a dar, por mais pedidos que se façam ao Presidente da República. A este e aos vindouros…
Foto: pesquisa Google
01ago19
