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O Mar…

Carmen Navarro

Estava penosamente, prostrada numa rocha mais elevada, com visão sobre um mar revolto, esmoendo lembranças quando uma vaga corre para mim e de repente foi como se todo o mar viesse apanhar-me, mas não, espraiou-se na areia fina e dourada, tive que segurar o meu olhar com medo que se quebrasse.

E neste susto, neste medo lembrei os medos que o mar provocava nos nossos antanhos. Os nossos navegadores acreditavam que a terra era plana portanto o mar terminava num abismo sem fim. Chamavam-lhe o Mar Tenebroso o Cabo dos Medos. Ninguém se atrevia a aproximar-se de tão grande perigo e para assustar mais ainda, tinham lendas recheadas de monstros, fantasmas imaginários que assustavam todos os marinheiros. E eles acreditavam devido aos inúmeros naufrágios no mar. Certamente devido aos terríveis monstros…

E neste constante cogitar interroguei-me. Será que os Homens ainda sonham, ou são crédulos que em tudo acreditam, ou o medo é uma constante? E ali fiquei sentada no penedo a meditar.

Sentada
naquele penedo
distante e salgado
olhando
o  mar imenso
que  mais parecia
uma serpente
no seu ondular
constante,
assim fiquei
especada
no tempo,
senti-me
transportada
para  as montanhas
altas e verdejantes,
onde as palavras
que solto
atiro-as ao vento
na ânsia
que te
encontrem,
mas eu continuo
parada,
derreto-me,
assim desliza
o tempo
e eu
esperando
as palavras tuas,
senti medo
de não mais as escutar,
e assim fiquei,
sentada no penedo.

Carmen Navarro

Há imensas lendas do mar e contos infantis maravilhosos. O mar foi sempre inspiração para poetas e uma riqueza enorme e que tão mal tem sido tratado. Sei de uma lenda que circulava há muitos, muitos anos atrás e que muito deslumbrava os marinheiros antes de Gil Eanes dobrar o tal Cabo dos Medos ou seja o Cabo Bojador. A Lenda do Mar Tenebroso.

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas foi nele que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

Os Portugueses sempre se sentiram atraídos pelo mar, pelo desconhecido. Dizia-se que o mar estava repleto de monstros horrendos, fantasmas e água a ferver que o mar era plano, terminava num fosso sem fundo, nevoeiros muito espessos faziam-lhes acreditar que era verdade.

Quando navegavam para Sul, lá longe ouvia-se o cantar das ondas a bater nos penhascos e os marinheiros acreditavam que estavam próximos do Mar Tenebroso e que tinham chegado ao fim do mundo, quando avistaram o promontório do Cabo Bojador, para eles era o limite, para lá só podia ser o abismo.

Todos os marinheiros embarcavam com medo de se separarem da navegação costeira pois podiam não voltar, no entanto, dizia-se também que no reino de Preste João, lá só havia ouro e pedras preciosas e como a vontade de enriquecer e o fascínio pela aventura era tão grande que à medida que avançavam pelo desconhecido os navegadores faziam os fantasmas e os monstros desaparecerem e a razão faziam-nos ir em frente.

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A lenda do Preste João espalhou-se na Europa e chegou a Portugal em 1165 por uma carta supostamente falsa que descrevia o reino do Preste João, como uma figura lendária, um monarca que se dizia ser descendente de um rei mago que lutou contra muçulmanos defendendo o cristianismo. O seu reino tinha imensas riquezas, um palácio todo em ouro e as pedras preciosas que corriam abundantemente pelos rios.

Deriva

VIII

Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais,
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais.

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Só estas fantasias a fome que grassava, e a ambição de possuir riquezas faziam que as gentes embarcassem para o desconhecido numa aventura tão perigosa sem certeza de um regresso.

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Na época, em função da lenda terrível que destruía qualquer forma de vida, só os monstros sobreviviam e depois, só o abismo no mar, todos os naufrágios ocorridos no mar eram atribuídos a monstros.

A inteligência e a coragem do navegador português Gil Eanes, e os seus homens, surpreendentemente, foram além dos medos em 1434 e esse cabo deixou de ser das Tormentas, a barreira caiu e eles estavam para lá do Bojador numa pequena Barca de 30 toneladas de um único mastro, provavelmente, muitas vezes movida a remos com uma tripulação de 15 homens, estabeleceu uma das maiores conquistas do seu tempo, abrindo caminho a novos descobrimentos.

Os medos ainda estão presentes com formas diferentes.

Quando era pequena tinha um búzio grande, castanho que tinha dentro guardada a voz do mar.

 

Fotos: pesquisa Google

01ago19

 

 

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