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DA IMPRENSA: “Atenção, este kit contra incêndios não é para ser usado perto do fogo!”

“Em 1929, há exatos 90 anos, o surrealista belga René Magritte pintou um cachimbo e acrescentou uma frase à imagem: “Ceci n’est pas une pipe” (“Isto não é um cachimbo”). O pintor era belga, e também surrealista, palavra que, diga-se o que se disser, significa ser mais do que realista. Um português é outra coisa. Temos muitas coisas melhores do que os belgas – basta comparar as amêijoas à Bulhão Pato com o mexilhão deles. Mas sobre o respeito à realidade (já para não falar da surrealidade) ficamos a perder. Temos horror aos factos, pelamo-nos pelas leves ideias e campanhas folclóricas.

Um cachimbo é um objeto mas, naquele quadro, não o é. É uma representação daquele objeto. Daí o cuidado de Magritte, indígena de um país baixo e chato, em não vender gato por lebre ou o desenho de um cachimbo por um cachimbo – e, isso, sublinhou-o numa legenda famosa e genial: atenção, isto não é o que parece!!! Já nós, quase um século depois do aviso do preclaro belga, não nos importamos em confundir um kit de emergência para situações de incêndio com uma campanha de sensibilização para nos proteger dos fogos.

No verão passado, em aldeias, algumas delas castigadas no ano anterior por incêndios e mortes, a “Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) distribuiu um Kit”   Um saco com coisas lá dentro – um colete refletor, uma gola antifumo, um apito, uma bússola, uma lanterna, uma garrafa de água, uma barra de cereais… Uma campanha cujo nome pretendia dizer a função: “Aldeia segura – pessoas seguras”. Mas enrolou-se. E do kit distribuíram-se 15 mil, e das golas, 70 mil.

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Por estes dias, das golas antifumo veio um escândalo. O material de que são feitas é inflamável, denunciaram os jornais. E, sim, são cem por cento de poliéster, logo, inflamáveis. A Proteção Civil explicou-se: o que vem nos kits é só para “uma proteção ligeira, para usar em situações pontuais”. Enfim, disse a Proteção Civil, agora, sobre a campanha do ano passado: “O objetivo era apenas sensibilizar.”

Ferreira Fernandes, in “Diário de Notícias” (online), 27jul19

 

01ago19

 

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