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Um Poeta de Inspirações!

Carmen Navarro

Um tiro Fatal ecoou por todos os campos e caminhos de S. Miguel de Seide, numa tarde domingueira de 1 de Junho de 1890, cerca das 15h15, acabou por falecer horas depois, seriam 17horas, uma lenda conturbada partiu, o representante típico do Ultra-romantismo em Portugal. Com uma vida carregada de contradições, incompreensões, tortuosa, que muito amou as mulheres do seu tempo, um génio imortal. Camilo Castelo Branco, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador,   tradutor, muito ligado ao Jornalismo e poeta.

Um lisboeta que nasceu a 16 de Março de 1825, na Rua da Rosa, freguesia dos Mártires e que se apaixonou pelo Porto.

Cidade que inspirou muitos dos seus livros e onde conheceu o amor da sua vida que tanto infortúnio o fez passar, assim como a Ana Plácido, mulher culta, erudita, e que viveu numa sociedade machista, num pais em que grande maioria era analfabeta, lutou contra a tacanhez e o obscurantismo daquele tempo, viveu um pouco à frente do seu tempo, também escritora, a sua vida foi um pouco apagada, devido à enxurrada permanente dos escritos multifacetados e polémicos do génio que foi Camilo, produziu obra literária muito amargurada e variada, com mais de cento e trinta títulos.

Um livro, anjo do céu, quero ofertar-to,
Não rico d’instrução; pomposo e altivo
De sentimento, sim! – Filho dest’alma,
Nasceu-me entre gemidos, e martírios,
E lágrimas de fel… Mal sabes quanto
De profundo sofrer m’inspira os hinos
Que ali dispersos vês nas pobres páginas,
Tão pobres para ti, pérola augusta
Da coroa do Senhor! … Mal avalias
O fel que aí repassa as minhas trovas,
As tuas… minhas, não – que eu nada tenho
Além do teu amor!

Vivi, sozinho,
Muito longe de ti, entre as fraguras
Dessas serras d’além, onde a tristeza
Esmaga o coração, qual o rochedo,
Que lá nos calvos serros se debruça,
Pensando em peito de homem! … Tristes versos
No ermo descantei! … A dor mos dava,
A dor mos inspirou! Trovas descrentes,
Não luzem de prazer, não tem um nome
Perfumado no amor, rindo ao futuro!

In  Inspirações
Camilo Castelo Branco

Ana Plácido foi sempre uma apaixonada e fiel companheira de letras. Camilo e Ana Plácido fundaram em 1868 “A Gazeta Literária do Porto” que pouca vida teve devido a problemas económicos entre Camilo e o seu editor Anselmo Evaristo de Morais Sarmento.
Esta revista teve grande qualidade, pois os seus artigos foram sempre assinados por grandes personalidades intelectuais da literatura. Entre os quais Ana Plácido, esteve sempre presente, assinando sobre pseudónimo de Gastão Vidal de Negreiros

É considerada a sua obra-prima “ Amor de Perdição” onde o drama a tragédia os sentimentos, os preconceitos e as convenções sociais, caiem sobre a existência dos heróis do romance. E põem-se em luta com as convenções sociais. Esta obra foi escrita em 15 dias, na Cadeia da Relação, onde ele permaneceu, um ano, assim como Ana Plácido, acusados de Adultério.

As asas da imaginação fazem-nos recuar até ao século XIX e reviver uma cidade e uma sociedade repleta de ricaços incultos “Os Brasileiros”  “Os torna viagem” que Camilo detestou, talvez por experiencia própria. Camilo escreve em 1850 um texto onde desanca sem dó nem piedade toda a burguesia portuense.

Os amigos

Amigos cento e dez, e talvez mais,

Eu já contei. Vaidades que eu sentia!

Supus que sobre a terra não havia

Mais ditoso mortal entre os mortais.

 

Amigos cento e dez, tão serviçais,

Tão zelosos das leis da cortesia,

Que eu, já farto de os ver, me escapulia

Às suas curvaturas vertebrais.

 

Um dia adoeci profundamente.

Ceguei. Dos cento e dez houve um somente

Que não desfez os laços quase rotos.

 

– Que vamos nós (diziam) lá fazer?

Se ele está cego, não nos pode ver…

Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco 

O seu profundo conhecimento da língua portuguesa faz com que ainda hoje seja lido, talvez pouco! Já sabemos que não é um escritor atual, no entanto, a forma crítica e sarcástica, por vezes uma reflexão de aplauso ou uma vergastada de censura, a forma como analisou a sociedade do seu tempo, mostra-nos que se ele hoje ainda escrevesse sobre esta sociedade desumana, egoísta e materialista, duma hipocrisia total, material não lhe faltava para analisar. Camilo Castelo Branco, foi o primeiro escritor na Península Ibérica a viver da escrita. As dificuldades foram muitas, escrever para viver no século XIX, obrigou-o a “vender a Pena” aos padrões morais dos seus leitores e dos seus editores, as dificuldades de penetrar no meio literário, foram sempre grandes.

Lembremo-nos que entre 1865 a 1867, Camilo escreveu onze romances, esboços literários, colaborações avulsas em Jornais. Pedro II, Imperador do Brasil, visitou em 1873, Camilo que então vivia na Rua de São Lazaro, no Porto., e concedeu-lhe a comenda da Ordem da Rosa no dia 17 de Julho de 1872. Esta visita deu origem a que Camilo queimasse o Romance que tinha acabado de produzir, “A Infanta Capelista” que não era muito abonatório para a Família Real. Em 21 de Dezembro de 1889, D. Pedro II, já ex Imperador  voltou a visitar. Camilo

A fama trouxe-lhe muitos dissabores e inimizades na elite portuense, pois ela foi sempre visada, sem dó nem piedade, o escritor fez um retrato ao pormenor da sua época.

A Maior Dor Humana

Que imensas agonias se formaram

Sob os olhos de Deus! Sinistra hora

Em que o homem surgiu! Que negra aurora,

Que amargas condições o escravizaram!

As mãos, que um filho amado amortalharam,

Erguidas buscam Deus. A Fé implora.

E o céu que respondeu? As mãos baixaram

Para abraçar a filha morta agora.

Depois, um pai que em trevas vai sonhando,

E apalpa as sombras d’eles onde os viu

Nascer, florir, morrer! …

Desastre infando!

Ao teu abismo, pai, não vão confortos,

És coração que a dor empederniu,

Sepulcro vivo de dois filhos mortos.

Camilo Castelo Branco

  1. Miguel de Seide , 27 de junho de 1887.

Foi homenageado em 1889, pela Academia de Lisboa, era já um escritor reconhecido a nível nacional.

A sua grandeza, no entanto, ressalta na novela passional e como novelista urbano, os temas campestres foram sempre tratados com humanidade e tolerância e um perfume psicológico grande.

A impressionante emoção e o envolvimento que se desprende da sua obra, merecia que tivesse tido um reconhecimento popular maior.

Recebeu o título de Visconde concedido pelo rei de Portugal, Luís I.

Alma Atribulada

Ó Alma atribulada, corta o laço
da torva angústia que te cinge à vida!
Vai, foge para Deus, ou para o espaço…
Ou nada ou Deus, que importa? Eis-me remida.

Não tiveste na vida um dia de escasso
de paz e de alegria! Escurecida
te foi sempre a existência, desvalida,
e cortada de abismos, passo a passo.

Vai! Não leves saudades do que deixas.
Se a fé em melhor mundo de preluz.
Alma gemente, por que assim te queixas?

Desprende-te a sorrir, da horrenda cruz
em que tanto penaste! Os olhos fechas?
Abre os d’alma, e verás que infinda luz.

Camilo Castelo Branco

A dificuldade de visão pouco a pouco mergulhou Camilo na mais profunda noite o que lhe trouxe uma enorme depressão. Depois de saber que ficaria definitivamente cego, Camilo suicidasse em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, no dia 01 de junho de 1890.

O corpo de um dos mais notáveis escritores, vindo de comboio de Famalicão, atravessou o Porto até ao Cemitério da Ordem da Lapa, para o Jazigo de um  Amigo, o funeral  foi triste,  pouca gente o acompanhou até à sua ultima morada, os próprios Jornais  pouco falaram.

Camilo continua a viver naqueles que lhe reconhecem todo o mérito.

José  Saramago depois de receber o Prémio Nobel da Literatura, foi visitar a  Casa de Camilo e escreveu no “Livro de Visitas”.

“Na casa onde Camilo saiu da vida para entrar na eternidade do génio, venho trazer rosas. Venho também trazer o prémio que me deram, o valor simbólico, que Camilo merece como provavelmente nenhum outro escritor português. Eu, aprendiz, deixo rosas ao mestre.”

Um Génio da Literatura, que foi muito infeliz.

 

Fotos: pesquisa Google

01out19

 

 

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