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A crise e as minhas manias

José Luís Montero/ Tribuna Livre

Estou perto do triste. A minha cabeça, sem me pedir licença, quer empurrar-me para o romance policial e eu não gosto de Literatura paranoica. A questão começou pela minha tendência de fazer leituras tristes. Apanhei documentação e os típicos estudos que fazem os economistas sobre a quebra do Lehman Brothers.

Fiquei chocado pela quebra; pelo negócio dos ou das subprimes, mas, existe uma pergunta que paira e sobrevoava esses tristes textos: porquê, contrariando a prática habitual, o Governo dos Estados Unidos não corre em ajuda? Porquê o Tesouro não o protege durante dois ou três dias para que o Barclays Bank solucionasse o problema legal em Inglaterra? A dimensão que alcançaria esta quebra era conhecida e também a sua repercussão. No entanto, nada se fez para a evitar. Sabia-se que perante uma quebra dessa magnitude o mundo tremeria. O mundo tremeu e treme.

universidade harvard

Depois de tudo isto caiu gente e alguma dela viu a sua vida narrada até à fantasia nos Mídias. No entanto, quando as hipotecas subprimes começaram a estalar, os grandes de Wall Sreet, na presença do então presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, pediram às autoridades americanas regulação e argumentavam, talvez atemorizados pela chuva que se anunciava, que eram avarentos, por isso, necessitavam regulação, apesar disso, as autoridades estadunidenses, também se negaram a regular o produto tóxico.

Todos os membros do Governo, incluído o do Tesouro, com responsabilidades diretas ou de assessoria nestas questões chegaram de grupos como por exemplo: Goldman Sachas ou eram prominentes universitários de Harvard ou alguma outra Universidade. Estes doutores com “” maiúsculo, além de lecionar, tinham uma autêntica indústria de conselheiros. Eram pessoas que realizavam trabalhos para os banqueiros das toxinas sobre as toxinas. Não eram ignorantes ou estranhos ao mundo de Wall Sreet. Pode-se dizer que eram os doutores das toxinas…

Visto este panorama; sentando-me nas minhas manias e digo que são muitas, pensei que algum Sherlock Holmes teria que ser inventado para chegar às cabeças que provocaram o caos desde a sua génese até à sua eclosão. Um número infinito de famílias ficou sem casa nos Estados Unidos de América. Os juros sobre estas hipotecas de risco eram especulativos e altos; viram-se impossibilitados de pagar apesar de todos os esforços.

Portanto, era previsível, incluído para mim, que esta forma de gerir a economia e as finanças acabasse num estrondo maiúsculo. Para fugir à maldita ideia de fazer um romance policial especulo um bocado e penso: “ esses gajos eram uma cambada de idiotas.”

No entanto, o juízo ataca-me e diz-me: “ não, não são idiotas; são uma cambada de desalmados”. Sendo assim, terá que ser inventado um novo Sherlock Holmes para que entre nessas cabeças de Wall Street, Harvard e todas as aldeias das proximidades; terá que entrar no petit comité que sobrevoou esse micromundo e desenhou, conscientemente, uma crise que atacou o mundo; encostou países; retirou conquistas que custaram sangue, suor e lágrimas aos trabalhadores; levou a fome às escolas e deixou falecer, dolorosamente, anciãos nos corredores de Hospitais.

sherlock holmes

Despois de entrar, enquanto acaricia o bigode e bebe um cálice de vinho do Porto, deverá desvendar o crime e os criminosos.

Este novo Sherlock Holmes terá que ser um amante de Ray Charles. Desta forma ou com este pretexto, terá conversa inicial com o presidente Obama para lhe perguntar, antes de se despedir, porque falha ao compromisso eleitoral de regular toda esta questão cabalmente e não enfeitando quatro leis inoperantes. Dando um salto à Alemanha da Senhora Merkel, seguramente num avião privado que o seu guionista lhe facilitará, poderá falar com a líder germânica da excelência do vinho branco de Mosel, os Riesling, e perguntar-lhe uma questão de números: como foi possível que no ano 2009 o FMI fizera uma previsão do PIB para o seu País de – 5,1 e no ano seguinte já tinha uma previsão de crescimento do PIB  3,6…

Afinando bem o seu bigode, poderia despedir-se com a pergunta se aconselhou ou impôs essa mesma política aos países do sul como Portugal, Espanha ou Grécia.

Aproveitando que tem Madrid perto e poderá rever as Meninas de Velasquez, sentado no Café Gijón, poderá telefonar ao Presidente do Governo para perguntar-lhe, como galego que é, que lhe parece o trágico fim de vida que tiverem em Ceuta os imigrantes africanos e- para não parecer que está desinformado – como está a questão da Infanta Cristina e a consistência da Monarquia Espanhola.

lehman brothers

Evidentemente, quem está em Madrid, está em Lisboa num sopro e estando tão perto, não resistirá e saltará para saborear o bacalhau e beber um bom Douro. Em Portugal terá uma tarefa mais delicada porque terá que falar com o primeiro-ministro e o seu vice. As perguntas terão que ser bem escolhidas e encaminhadas.

Primeiro optará por falar com o primeiro-ministro para saber se o caso BPN são as más-línguas ou foi um buraco do tamanho da Estátua do Marquês de Pombal. Despois, mais descansado porque o calor lisboeta sempre aperta, falará com o vice Paulo Portas para saber se comprou os submarinos a pensar que também poderiam ser utilizados na pesca do bacalhau…

Após esta viagem europeia, Sherlock Holmes regressará aos Estados Unidos de América para reunir os protagonistas da crise do Lehman Brothers e contar-lhes que com as coisas de comer não se brinca, portanto, negar-lhes a possibilidade de comer hambúrguer durante o resto da sua vida. 

 

01mar14

 

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