Cristóvão Sá TTmenta
CETERIS PARIBUS (I)
Nas primeiras aulas de introdução à economia, na Faculdade de Economia do Porto, aos meus ouvidos virgens sobre o novo conhecimento chegou-me a expressão que serve de título a esta peça. Não só eu, traduzimo-la para “certos parvos”. Hoje bem apropriada para nos referirmos aos papagaios e picaretas falantes que televemos por aí que falam de uma forma descuidada e mesmo revelando desonestidade intelectual. Não cuidando de alertar que o que dizem parte sempre de pressupostos que se dão como adquiridos e nunca admitindo que possa haver fenómenos que alteram radicalmente o que é conhecido. Pois é! “Prognósticos só no fim do jogo”(João Pinto, FC Porto dixit).
Ceteris paribus é uma expressão latina que pode ser traduzida por “todo o mais é constante” ou “mantidas inalteradas todas as outras coisas”. Uma predição ou uma afirmação sobre uma relação causal, empírica ou lógica indutiva entre dois estados de coisas é ceteris paribus se for reconhecido que a previsão, embora geralmente precisa em condições esperadas, pode falhar ou a relação pode ser abolida por fatores intervenientes” .
Para se entender melhor a utilização daquela expressão apresento-vos uma aplicação prática. Suponhamos que queremos estudar a relação entre o peso e a idade de uma pessoa de uma dada população. Partindo do pressuposto que o peso (variável dependente) será influenciado pela idade. Então iremos recolher dados sobre o peso e a idade de pessoas que se consideram ser uma amostra representativa dessa população.
Com esses dados, recorrendo a instrumentos da matemática estatística, podemos encontrar uma expressão algébrica (regressão linear) que nos dá uma estimativa do peso de qualquer pessoa atenta a sua idade. Assim será!? Isso só, é suficiente para calcular o peso de qualquer pessoa dessa população? E a altura, a dieta alimentar que as pessoas seguem não influencia o peso? E o sexo? E o território onde vivem? E muitas outras interrogações se podem colocar.
Diz-se terem sido os economistas que começaram a apresentar os seus modelos de previsão introduzindo uma parcela (costuma representar-se por U ou E (mais exatamente a letra grega Epsilon)) que representa tudo aquilo que consideravam inalterável. A U e a E chama-se o erro aleatório. Aproveitando o exemplo acima afirmam de “ex-cathedra”: ceteris paribus, a idade de uma pessoa é definida pela expressão P(peso)= I (idade) ± U . Parece ser compreensível e aceitável que a idade tenha significado positivo para a tradução do peso de uma pessoa. Mais idade mais peso, teoricamente. Quanto à parcela U nada se sabe. Tanto pode ter um impacte positivo como negativo. Donde se concluir que a nossa dose de ignorância é enorme. Apesar do coçar a cabeça com a ponta dos dedos e com mão em posição de coeficiente de queixo, exprimindo assim a incerteza e desconhecido, os picaretas falantes e os papagaios e as também, habilitam-se a mandar palpites.
Voltarei à expressão ceteris paribus para evidenciar quanto somos regidos pela incerteza. Tentar também falar da teoria do caos e do efeito borboleta. E em consequência falaremos de vulcões e de vírus.
Imagem: pesquisa Google
01mai20
