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SEM “FOGO”, CONCERTOS NA AVENIDA E RUSGAS… EIS UM “SÃO JOÃO DO PORTO” DIFERENTE, QUE PODERÁ SER MAIS ESPONTÂNEO E PRÓXIMO DAS TRADIÇÕES DE BAIRRO! Mas, o que diz Hélder Pacheco, Rui Moreira e António Fonseca sobre este “novo” S. João? Saiba, lendo o que vem a seguir…

Que se saiba, este ano, é a primeira vez que, oficialmente, não se comemora o São João na cidade do Porto, tudo por causa da pandemia (já mais calminha) provocada pelo novo coronavírus, através da doença Covid-19, e por todas as medidas cautelares para travar a  transmissão do vírus.

Esse facto levou a Câmara Municipal do Porto a, atempadamente, suspender, como medida profilática, manifestações que concentrassem, na noite e dia de São João, milhares e milhares de pessoas, o que aconteceria, certamente, se houvesse os já habituais fogo-de-artifício,  Concertos na Avenida e  desfiles das Rusgas. Mas…

 

José Gonçalves

(texto)

 

… será que, por isso, os tripeiros vão confinar o S. João a suas casas? Claro que não! O importante é manter a tradição com precaução, não vá o “corona” dar sinais de vida. E, se formos a avaliar as reações em relação à suspensão oficial dos festejos, a verdade é que eles – os festejos, obviamente – não vão deixar de acontecer, ainda que em moldes diferentes, se calhar, mais tradicionais.

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A criatividade virá, com certeza ao de cima, tudo para compensar a ausência de Festa nas Fontainhas e um pouco por toda a cidade, desde a Ribeira a Ramalde, de Campanhã à Foz do Douro e do Bonfim a Paranhos.

PNS
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Ora, para sabermos se esta será, ou não, a primeira vez que não se realizarão, oficialmente, festejos ao São João, no Porto, nada melhor que falarmos com um dos mais ilustres tripeiros, e bem conhecedor que ele é da história da Invicta…

HÉLDER PACHECO: “NÃO HAVER SÃO JOÃO NO PORTO É ASSISTIR-SE AO IMPOSSÍVEL!

LN

Então, este será, ou não, o primeiro S. João que, oficialmente, se deixará de comemorar no Porto? Para o professor Hélder Pachecosim!

“Que me lembre, praticamente desde que nasci, na Rua do Correio, em pleno coração da Baixa, assisti e participei na Noite Grande – assim chamo à nossa festa. Fosse ao colo de minha mãe, fosse, quando comecei a andar, a descer até à Praça, pela mão de meu pai e  ver, com espanto, o bulício da multidão e dos foliões, a animação das muitas rusgas que então se organizavam.

Veio depois a adolescência e a juventude e a borga ganhou outra dimensão, com guerras de alho e outras munições, bem ou mal cheirosas, assaltos de grupo a casas de amigos, visitas a cascatas – como a da Lã Maria, na Rua Formosa, um espanto mecânico  -formação de seitas  para avançar até às Fontainhas (para a minha geração, espécie de sanctus santoram da festa, de visita e usufruto obrigatórios, repleto de atrações e rituais)”.

LN

“Depois casei, vieram os filhos, de rajada, e, dois ou três anos seguidos, a noitada foi interrompida e apenas sentida à distância (morava, então, no Campo Alegre, onde nada se passava). Quando eles cresceram foi o regresso, mais moderado, sobretudo à Boavista e, mais tarde, ao Ouro, à Cantareira e um salto, sempre que possível, às Fontainhas. Uma das minhas paixões, desde pequeno, era deitar balões, hábito que só abandonei – por razões de segurança – há 3 ou 4 anos”.

LN

“Enfim, a novidade deste ano – que nos é imposta –é não haver Festa. Nada, a não ser em casa e dentro de nós. E não haver S. João, no Porto, é assistir ao impossível, improvável e inacreditável. O zero absoluto em matéria de urbanidade. Mas tratando-se de enfrentar e tentar vencer um  filho da mãe (para não dizer outra coisa, à moda do Porto), um estupor  que já me levou dois amigos, até compreendo e aceito. Que morra o bicho. Que estoure  e vá para o diabo que o carregue!”

Palavras do(e) Mestre…

NOS BAIRROS E NAS “ILHAS” HÁ QUEM PROMETA ANIMAÇÃO COM… PRECAUÇÃO PARA PRESERVAR A TRADIÇÃO

PNS
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Bem, mas as tradições relacionadas com o São João no Porto não se vão perder por causa de um vírus. É certo que sem a exuberância de outros festejos, mas, com mascarilha, e o devido distanciamento físico, a verdade é que nos bairros e nos outros locais tradicionais da cidade, não faltará um bailaricozinho, umas marteladas com o dito cujo desinfetado (martelo), e tudo em são convívio familiar ou/e de vizinhança.

A tradição está mais que enraizada nas gentes tripeiras, que deixar passar em branco a noite mais longa do ano, onde o alho-porro é rei, a par dos manjericos e da sardinha e do cabrito assado, de um caldo verde, de um tinto ou branco à maneira, de um pé de dança e de uma caminhada da Ribeira até à Foz, é, praticamente, impossível e impensável!

Agora, e porque há uma nova normalidade, todos os cuidados são poucos. Mas, para o efeito, basta avisar o pessoal, que, se os cuidados não forem levados à prática, para o ano é que não há mesmo São João, a não ser – e desculpem o exagero-, no Prado do Repouso ou em Agramonte.

RUI MOREIRA: “A MANTER-SE A ATUAL SITUAÇÃO, NÃO HÁ RAZÃO NENHUMA PARA QUE AS PESSOAS DEIXEM DE CUMPRIR A TRADIÇÃO…

Rui Moreira a preparar-se para mais um S. João, há três anos – Foto: PNS

E dessa tradição tem o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, consciência e conhecimento, ou não fosse ele também um tripeiro. Mas, como já se sabe, e devido ao coronavírus, medidas houve que tiveram de ser tomadas, principalmente quanto às iniciativas da autarquia para a noitada, as quais apelavam à concentração de milhares e milhares de pessoas, e que tiveram de ser anuladas. Mas de resto…

“Nós não podemos, nem queremos extinguir o São João. Aquilo que dissemos foi que era entendimento do Município do Porto, articulado com o Município de Gaia, não haver fogo-de-artificio, e que aquelas iniciativas proporcionadas pela nossa autarquia, como os Concertos na Avenida e as rusgas, não poderão, este ano, ser realizadas. Ainda assim, sabemos que esta é uma festa profana”

E recorda. “Quando era criança, não havia iniciativas do género, e, no entanto, as pessoas conviviam uma com as outras, em pequenas festividades, nas suas casas; nos jardins da cidade; faziam ainda uma fogueira aqui ou ali, e estou convencido que isso, este ano, vai voltar a suceder. As pessoas vão continuar a comer sardinhas, beber uma cerveja, comer umas bifanas aquelas que não gostam de sardinhas, mas espero que o comportamento que têm tido – que é sempre de realçar -, será cumprido na noite de São João”.

A ajudar à festa está, naturalmente, o estado mais calmo em que se encontra, de momento, o “corona”. “Se fosse há um mês, estaríamos muito mais preocupados, e tomaríamos outras medidas. Teríamos, por certo, carros da polícia nas ruas a avisar as pessoas para irem para casa, mas, a manter-se a situação atual, não há razão alguma para que as pessoas não possam cumprir a tradição e deambular pela cidade”.

“Aliás, o São João sempre foi, acima de tudo, uma festa de deambulação, em que as pessoas convivem com os familiares e vizinhos, e outras gostam de andar pela cidade. Teremos as esplanadas a funcionar! Acho que até vai ser um bom teste ao alargamento das esplanadas”.

Assim sendo, “penso que a cidade está preparada para a noitada de São João. Olhamos para essa atividade com esta nova normalidade possível”, disse Rui Moreira, aquando da conferência de imprensa, realizada no passado dia 29 de maio, a propósito do Plano para Resgatar o Espaço Público no Porto”, e do qual damos conta na presente edição deste jornal.

ANTÓNIO FONSECA: “É NATURAL QUE AS PESSOAS ASSEM SARDINHAS E FESTEJEM O SÃO JOÃO À SUA MANEIRA. SÓ ESPERO É QUE TUDO CORRA COM SEGURANÇA E SEM PROBLEMAS…

pG

António Fonseca, presidente da União das Freguesia do Centro Histórico do Porto, um conjunto de freguesias nevrálgicas nas comemorações do São João, começou por salientar, a propósito dos festejos deste ano, que “todos nós sabemos que o S. João, em termos de iniciativas de grande dimensão, está proibido, porque, se se abrisse mão disso, corríamos o risco de não termos os festejos nos próximos anos. É importante acautelar! Há muita gente cansada com isto; quer ganhar agora tudo e esquece-se que depois não vai ter onde gastá-lo”.

“É claro que haverá, em termos mais populares, alguns festejos, mas, não sei em que modo eles vão ser autorizados. Estou de acordo com as medidas tomadas, tendo em conta o facto que os Festejos do São João começaram a ser geridos como um produto único da cidade, o que os leva a ter impacto internacional. O São João é um produto da cidade do Porto. Mas, repito, desconheço que medidas vão ser tomadas, pois vai ser difícil impedir que as pessoas venham para as suas portas de casa assar sardinhas”.

Para António Fonseca esta é uma noite sempre especial, revelando uma especificidade da qual poucos dão conta. “Na noite de S. João qualquer morador faz figura de empresário, ao vender as suas sardinhas. E muito bem! É uma noite livre para o negócio popular. Vi várias vezes pessoas, à porte de suas casas, a assar sardinhas. Umas ofereciam, outras… vendiam, juntas com uns pimentos e coisas do género. A parte típica do S. João são, na verdade, as festas que são feitas à porta das casas das pessoas, e nas ruas pelas quais se concentram não só os moradores do bairro, mas também as pessoas que por elas passam. É uma noite de liberdade, onde o morador também é comerciante”.

Ora, “conhecendo nós como são as pessoas”, certo, certo é que “haverá sempre iniciativas particulares. Como autarquia não as podemos encorajar, mas, serão sempre atitudes genuínas, espontâneas, das pessoas. Só espero é que tudo corra bem, e que o São João seja bom, ainda que sem aqueles festejos aos quais estávamos habituados, como o «fogo» etc.. Portanto, é natural que na Sé, na Ribeira, em Miragaia, as pessoas assem sardinhas e comemorem, à sua maneira, o São João. Devem é fazer as coisas com segurança e que se protejam para não haver problemas”.

PNS

E, pronto. De 23 para 24 estaremos também a deambular. Depois, a 01 de julho, aquando da próxima edição do “Etc e Tal,” dar-lhe-emos a conhecer tudo o que se passou no primeiro São João dentro de uma normal anormalidade, facto que, por si só, é histórico!

 

Fotos: LN – Luís Navarro; PNS – Pedro N. Silva; FB – Filipa Brito (Porto.); pG – pesquisa Google

 

01jun20

 

 

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