José Gonçalves
O apoio do Estado à comunicação social está a originar alguma polémica, talvez menos que aquela que realmente pensava ir gerar. Não que defenda a posição de Rui Rio, para quem esse apoio seria escusado, mas porque os critérios de “seleção” para atribuição desses apoios deixam muito a desejar.
Se se confina – e a palavra está muito em voga – a comunicação social aos grandes grupos económicos do setor, então, ignora-se, pura e simplesmente, a comunicação social que se faz neste país, a começar pela de carater local, regional ou metropolitana, e até mesmo a especializada.
E por falar em informação especializada – que também tem os seus leitores, os quais merecem toda a consideração, porque há públicos específicos para esses projeto editoriais -, é com tristeza que vi encerrar a “Transportes em Revista”, um título que não se reservava a tal, ou seja, a editar informações (muitas exclusivas) sobre “mobilidade”, mas também a desenvolver iniciativas, fazendo, assim, um jornalismo de proximidade, que muito me apraz registar, até porque sempre o defendi.
Este encerramento, anunciado da noite para o dia, e que me apanhou de surpresa, mais surpresa me causou devido à qualidade do produto que era apresentado. Tudo isto é, contudo, sintomático do que se está a passar no setor da comunicação social, e que muitos, teimosamente, não querem ver, tapando os olhos com subsídios extraterrestres, porque para certa gente o jornalismo, pelos vistos, resume-se às grandes empresas da comunicação social, às grandes audiências, e o resto é, literalmente, considerado “paisagem”.
Ora, para a comunicação social regional, onde estão registadas centenas de empresas – títulos, alguns com história na Imprensa em Portugal -, o Governo fez, assim, vista grossa, continuando essa Imprensa à mercê do cacique lá da terra, dos editais das câmaras municipais, ou e também delas – dos pontuais votos “Feliz Natal e Próspero Ano Novo” que enchem páginas desses jornais e ajudam a pagar subsídios a jornalistas e colaboradores.
A propósito li, e com atenção, um alerta do Sindicato dos Jornalistas, datado do dia 27 de maio de 2020:
“O Sindicato dos Jornalistas (SJ) tem sido confrontado, nas últimas semanas, com vários casos de “subsídio” ou “conteúdos patrocinados” na imprensa regional que põem em causa a independência e a liberdade de ação de jornais e jornalistas.
Na sequência da pandemia, e da quebra de receitas que levou alguns jornais a suspender a publicação, ou a diminuir o número de páginas, diversos municípios decidiram apoiar financeiramente os media locais.
Porém, ao invés de o fazerem através de publicidade e/ou assinaturas, ou mesmo compra de exemplares (no caso da imprensa escrita), algumas Câmaras acordaram com as direções dos órgãos de informação locais uma contrapartida em forma de “conteúdos jornalísticos”, num registo que facilmente se pode tornar promíscuo, dependente e pouco ético.
O SJ exorta os jornalistas a denunciarem junto das estruturas competentes, nomeadamente o Conselho Deontológico, sempre que se verifique alguma tentativa de coação para que produzam os referidos conteúdos (notícias, entrevistas, reportagens).
O SJ lembra as autarquias que o apoio dado aos media locais não pode significar, em caso algum, a exigência de contrapartidas ou interferência nos conteúdos editoriais.”
Na muche!
Entretanto, penso que se se fizer um estudo relativo à comunicação social em Portugal nas últimas décadas, facilmente se chegará à conclusão que a liberdade de expressão, através dos jornais locais, regionais ou metropolitanos, está mais que condicionada, e se o mesmo estudo se estender ao número de títulos que deixaram de existir, colocando no desemprego largas centenas, senão milhares, de jornalistas e colaboradores, então, a situação tornar-se mais grave.
A imprensa regional continua, em boa verdade, a ser o parente pobre da comunicação social. É certo, que, por vezes, por culpa de quem gere os próprios jornais – e refiro-me à Imprensa porque é a área que mais conheço -, e ao não cumprimentos das linhas (estatutos) editoriais. Com especial destaque para a questão deontológica. Mas, em muitos outros e bons exemplos, o trabalho que se desenvolve é de qualidade e merecedor de mais apoios do Estado ainda que centralizado, confinado, em Lisboa.
Tendo em conta o aviso do Sindicato dos Jornalistas, que atrás se publicou, ser muito importante, a verdade é que para os alguns jornais locais, regionais e metropolitanos resta a esperança de, como para o ano há eleições autárquicas, os “empresários” locais se prepararem para se “chegarem à frente”. O pior é que, numa considerável percentagem dos casos, esse “apoio” é feito de forma condicional, muita das vezes, de direta e literal ameaça.
A ver vamos, se, para o ano, será assim, se bem que, quem vos escreve, já esteja a ver o filme…
Aliás, não só já o presenciou por diversas vezes, como foi protagonista em alguns deles, isto numa luta contra o caciquismo, que o levou a ser despedido. Humilhantemente despedido! Mas, cá se fazem… cá se pagam! Até breve…
01jun20
