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VIAGEM EM TEMPO DE PANDEMIA DE OVAR À ÁREA METROPOLITANA DE LISBOA

Com o país em fase de progressivo desconfinamento para uma nova normalidade influenciada pela crise global e suas consequências sociais, económicas e tragédias humanas vítimas da Covid-19. Neste cantinho à beira mar plantado, com um Serviço Nacional de Saúde que apesar de todas as suas fragilidades, mostrou a diferença entre as lógicas neoliberais que o negam e a importância do investimento no SNS.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

A resistência ao novo coronavírus tem deixado algum a tranquilidade e segurança comparativamente com tantos outros países, mesmo na Europa. Um percurso que, não sendo de embandeirar em arco ou de facilitismos, tais são os riscos de novas fases, tem permitido alguma retoma, sem desvalorizar a inevitável crise económica e social que marcará os próximos tempos, não só por cá naturalmente.

Um cenário ainda sombrio, mas de necessária esperança, incluindo de justiça social, uma vez que em nome da crise provocada pela Covid-19, não pode valer tudo. Nem descarregar a crise sobre as vítimas de sempre, em qualquer crise, como são os trabalhadores e as famílias de menores recursos, que mesmo em condições de risco para a saúde, se obrigam a enfrentar todas as dificuldades para sobreviverem, entre as medidas anunciadas de distanciamento e segurança e a realidade concreta bem contraditória que rapidamente deixa de ser notícia.

Neste ambiente em que se tenta retomar a normalidade possível, após a fase mais exigente em que o grosso da população ficou em isolamento e confinamento social, ao mesmo tempo que vários setores profissionais assumiam o risco e garantiam a segurança a todos, destacando-se os vários profissionais de saúde. Tentar voltar a algumas rotinas, como uma simples viagem, no caso, entre Ovar e a Área Metropolitana de Lisboa, é algo ainda estranho neste tempo de pandemia. Curiosamente, quando a confirmação diária de novos testes positivos se tinha deslocado significativamente para Lisboa e Vale do Tejo em percentagens inquietantes a ultrapassarem os 90% de novos casos, com incidência em zonas industriais como Azambuja ou bairros sociais e focos de transmissão concentrados no concelho de Lisboa e em áreas de grandes concentrações populacionais, como a Linha de Sintra.

Partir da Estação de Caminhos-de-ferro em Ovar que chegou a estar fechada durante os dois períodos do decretado “estado de calamidade” e “cerca sanitária” no concelho de Ovar, teve em si, um certo sentimento de deixar para trás um episódio que marcou esta população, que no continente deste país, foi a única a ser sujeita a medidas tão excecionais que farão indiscutivelmente parte integrante das memórias sobre a pandemia da Covid-19, que numa população de 50 mil habitantes, o número de casos confirmados pelas várias freguesias se fixou em pouco mais de sete centenas, com uma dúzia de casos ativos e 40 óbitos.

Sem o verdadeiro espirito e prazer de viajar nesta época de ensaios de desconfinamento, em que a evolução da Covid-19 no Norte e no Centro dão sinais de alguma tranquilidade, relativamente ao Sul, nomeadamente Lisboa e Vale do Tejo. Só mesmo compromissos familiares motivaram tal viagem sujeita a redobrados cuidados de prevenção e segurança, tratando-se de um destino que vem dominando a atenção das autoridades de saúde, em que diariamente acrescentam novos focos e números de positivos, que sendo significativos, se diluem por concelhos de grandes dimensões e concentrações habitacionais e populacionais, a exemplo da Amadora ou Sintra.

Reforçados os cuidados individuais e pessoais de prevenção e segurança básica, através da regular lavagem e higienização das mãos e o uso de máscara obrigatório nos transportes públicos e estabelecimentos comerciais. A estratégia para evitar uma repetida experiencia de confinamento, agora na Linha de Sintra. Foi usufruir, ainda que sempre com o perigo do vírus à espreita a exigir redobrados cuidados de higienização e contato social, procurando evitar ao máximo as horas de ponta nos transportes públicos, nomeadamente nos comboios, em que deu para constatar, que os apelos para que se mantenha o distanciamento, feitos nos altifalantes das estações, em nada correspondem com a realidade, quando as carruagens se enchem de trabalhadores e operários na ida ou regresso dos empregos nas fábricas, comércio ou serviços.

Ao contrário das condições mínimas de distanciamento proporcionadas nos comboios de longo curso, como Alfa ou Intercidades, as linhas da “mole humana” do trabalho diário como um dos exemplos mais visíveis, na Linha de Sintra, Rossio ou Azambuja, muitas vezes nem fora de horas de ponta transmitem segurança e alguma tranquilidade. Considerando até pontuais resistências a uma correta utilização das máscaras, incluindo a garantia da sua higienização, quando muitas vezes, a sua utilização é meramente um recurso para legalizar a entrada nos transportes públicos, independentemente do estado frágil da respetiva mascara.

Com tal quadro sempre presente psicologicamente, e num período de desconfinamento regulado por medidas, que na altura da segunda semana de junho, com dois feriados a proporcionarem pontes, ainda se faziam sentir em Lisboa e sua Área Metropolitana, o prolongamento do encerramento dos shopping e muita da restauração e comércio, mesmo com medidas restritivas. Passar no Rossio, Rua Augusta e Terreiro do Passo, até ao Rio Tejo, com a Margem Sul ligada pelas pontes, Vasco da Gama e 25 de Abril ou pelos transportes fluviais com ligação ao Barreiro, Seixal ou Cacilhas, num movimento sem a azáfama normal. Foi um estranho vazio e silêncio deprimente, que se aprofundou com o cancelamento dos festejos dos Santos Populares.

Pela Linha das Praias, entre o Cais do Sodré e Cascais, a ausência dos habituais turistas que deixaram a cidade de Lisboa vazia, depois de as respostas e investimentos para o seu acolhimento ter descaraterizado alguns bairros emblemáticos e típicos como Alfama. Agora com muita oferta hoteleira encerrada. A paisagem ganhava alguma vida com quem começava a procurar o lazer junto de áreas balneares, depois de uma longa quarentena. Na generalidade sem a bolsa dos turistas estrangeiros para alimentarem a economia, nomeadamente da restauração, que em Cascais foi possível constatar, pelos enormes espaços públicos vazios, quando habitualmente estavam literalmente ocupados por quem procura os belos sabores portugueses numa vila de grande oferta piscatória.

Também na Vila de Sintra o vazio era perturbador e verdadeiramente estranho, com grande parte do comércio tradicional fechado e as famílias portuguesas a darem sinais de retoma nesta vila entre montanhas, com sua vegetação exuberante a envolverem monumentos históricos como, o Castelo dos Mouros, palácios, conventos, igrejas e capelas, com parques, jardins e bosques que integram a paisagem na Vila de Sintra, com título de Património Mundial, Paisagem Cultural pela UNESCO desde 1992, e consequentemente a primeira Paisagem Cultural na Europa, em 1995.

Chegar à Vila de Sintra no comboio que atravessa autênticas metrópoles multiculturais como Amadora ou Cacém/Agualva, é refúgio perfeito para libertação do medo que as noticias diariamente descarregam sobre nós, numa altura em que a Linha de Sintra surge como foco preocupante nos mais recentes números de novos infetados pelo Covid-19. Se noutras épocas ali bem às portas da capital, era destino para refúgio da nobreza e das elites portuguesas do passado, entretanto ocupado pela pressão do turismo de que se tornou dependente. Hoje, enquanto tudo não regressa ao massificado ritmo de visitas para os passeios turísticos de monumento em monumento, em ruas estreitas de acesso pelas montanhas, desfrutando de um microclima, cuja penumbra lhe confere um ambiente mágico e misterioso. Este ambiente mágico e misterioso está ao dispor de quem procura respirar sem medo a natureza verdejante, ainda que com máscara para locais de uso obrigatório, como esperar em fila com o devido distanciamento, para comprar em serviço take-away sem entrar nas tradicionais casas dos doces típicos, como queijadas de Sintra e os travesseios de Sintra, ou desgostar tais doces nos raros estabelecimentos abertos ao público.

Estes foram os apontamentos possíveis ensombrados pelo pesadelo, de quem, tendo vivido a experiencia das fases do “estado de calamidade” e da “cerca sanitária” em Ovar, assumidas com a exigível e cívica responsabilidade durante a quarentena preventiva e terapêutica. Com resultados de indiscutível controlo do número de casos positivos, mesmo com testes aquém do que seria desejável num concelho que esteve no centro das atenções do país, perante momentos com recurso ao dramatismo e a várias polémicas, a quem os governantes se renderam. Viajar de Ovar até à Área Metropolitana de Lisboa nesta altura, seria quase surrealista, considerando o número de infetados diários. Ainda que com a convicção, de que, quem está verdadeiramente sujeito a riscos de transmissão, continuam a ser os trabalhadores e operários, e suas famílias, que nas horas de ponta se amontoam nos transportes públicos como sardinha de conserva, a exemplo da Linha de Sintra em que já antes da pandemia os passageiros vêm sendo enlatados no capitulo da mobilidade e das suas diferentes realidades sociais e culturais que enriquecem a multiculturalidade que a pandemia não pode confinar nem desvalorizar.

 

01jul20

 

 

 

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