A vereadora da CDU na Câmara Municipal do Porto, Ilda Figueiredo, acompanhada por outros elementos ligados ao PCP, visitou – num habitual e já quase tradicional, périplo que faz, habitualmente (e não só em período eleitoral), pela cidade -, e desta feita, na manhã do passado dia 18 de junho, os bairros do Lagarteiro e do Cerco do Porto, ambos na freguesia de Campanhã.
A visita que teve como um dos objetivos o contacto com determinadas instituições dos bairros em questão, serviu, essencialmente, para uma troca de “impressões” com a população residente, nos casos, do Lagarteiro e do Cerco do Porto.
Mas, antes do contacto, e digamos que num primeiro olhar, “saltou à vista”, o desleixo em que se encontravam áreas destinadas a “relvados” junto às habitações, transformadas que estavam em autênticos silvados, e, como referiu uma moradora, passaram a ser um “paraíso para as baratas” que, “gigantes como grilos”, invadem as residências.
Bem. Um prometedor início de visita, num Lagarteiro, muito calmo (nada de movimentos que, há anos, eram frequentes, ligados à trasfega de drogas), e convidativo a uma boa caminhada, sempre acompanhada por muita erva junto aos passeios maltratados.
“Já contactamos os serviços da Câmara para virem limpar estas ervas todas. Disseram que vinham segunda-feira (22jun20). Vamos lá ver se será assim”, diz alto e a bom som uma moradora, que lamentou ainda o facto de a associação de moradores que existia no bairro ter acabado.
E a caminhada foi feita também na companhia de André Sousa, da associação “Norte Vida”, a qual tem como função um trabalho de proximidade junto dos jovens, com a promoção de artes desportivas e culturais por forma a afastá-los do caminho da toxicodependência.
Um trabalho, que o “Etc e Tal” dará a conhecer, mais ao pormenor, em futura edição.
E, como já devem ter reparado, os moradores não deixaram, naturalmente, de estar presentes, lamentando, para além dos reparos anteriormente publicados -, certas situações e carências infraestruturais que lhes retiram as comodidades que outros usufruem em determinadas zonais centrais da cidade.
“Não termos aqui um supermercado, nem uma caixa de Multibanco”, lamentava uma moradora, se bem que o lamento fosse endereçado, por Ilda Figueiredo, para uma qualquer entidade privada interessada na questão.
De resto, o facto de não haver um parque infantil, e a zona desportiva (um rinque) apresentar níveis de degradação consideráveis, já fizeram parte dos registos da vereadora comunista.
A visita institucional, no Lagarteiro, foi feita à Obra Diocesana de promoção Social do Centro Social local, que dá apoio a 27 crianças através de ATL, sendo de salientar, e de acordo com uma das responsáveis, que neste bairro não há um Centro de Dia, e que os idosos não são, assim, devidamente apoiados. Mas, se não há centro de dia, também não hé, por exemplo, um parque infantil, onde as crianças se possam, naturalmente divertir.
O único espaço, e em visível estado de degradação, é um ringue relvado, destinado essencialmente à prática do futebol de cinco.
De viagem até ao “vizinho” Bairro do Cerco do Porto, a comitiva da CDU deparou-se com um cenário diferente, pelo menos em termos de reabilitação já efetuada pela câmara municipal do Porto, a um vasto leque de casas. De resto, o cenário foi muito idêntico ao do Lagarteiro.
No contacto com a associação local visitada pela CDU, “CerPorto”, a grande queixa foi os constantes deferimentos por parte da Câmara do Porto ao pedido de novas instalações para esta filial. Dando apoio a 40 crianças, esta associação dá acompanhamento direto a cerca de 215 famílias beneficiárias do Rendimento Social de Inserção, em questões ligadas a emprego e Saúde, com periódicas visitas domiciliárias.
ILDA FIGUEIREDO: “NESTES BAIRROS SÃO NECESSÁRIAS EQUIPAS COM ANIMADORES CULTURAIS E DESPORTIVOS, COM APOIO DE MEDIAÇÃO, PARA CRIAREM UM AMBIENTE MAIS SAUDÁVEL”
No final da visita, e para os jornalistas, a vereadora Ilda Figueiredo, reafirmou algo que, ao longo das duas visitas chamou à atenção…
“Defendemos, e isso já foi aprovado por duas vezes em reunião de Câmara, a constituição de equipas multidisciplinares que intervenham nos bairros e de permanência, ainda que não em todos os bairros.
Mas, para zonas como as que visitamos – no Lagarteiro e no Cerco do Porto-, uma equipa que dê resposta em permanência é fundamental. E viu-se, desde a limpeza, até aos arranjos dos espaços envolventes, mas, sobretudo, o contacto com as pessoas, porque é necessário apoiar a ocupação de tempos livres das crianças, dos jovens e dos idosos”.
De acordo com a vereadora comunista, “e, embora haja algumas instituições, IPSS, a intervir nestes bairros”, a verdade, em seu entender é que “a sua intervenção não cobre todos os bairros. Não cobre a maioria das crianças, dos jovens e dos idosos. Portanto, precisamos de uma equipa permanente que faça isso. É necessária uma equipa com animadores culturais e desportivos, com apoio de mediação entre as famílias, de modo a criar-lhes um ambiente mais saudável. E isto, porque há pessoas nos bairros que estão ansiosas por ter esse trabalho no bairro, só que não têm ninguém de fora que os apoie. Se houvesse uma equipa que, em permanência, desse esse apoio não faltariam mulheres, homens e jovens dispostos a intervirem e a criarem uma outra dinâmica nestas zonas residenciais, que são fora dos grandes centros e nas quais as pessoas se sentem abandonadas”.
Ilda Figueiredo realçou também “a necessidade de mais equipamentos”
“Faltam parques infantis! Em geral, os equipamentos que existem, estão abandonados e degradados; e mesmo os espaços públicos também. Ora, sendo certo que a Câmara, de vez em quando, manda arranjar certas coisas, com a falta de uma equipa de intervenção permanente, de mediação e ocupação dos tempos livres, isto vai sendo vandalizado, no espaço de tempo intermédio.”
Consequências da pandemia

Outro dado a registar, e levantado essencialmente pelas associações contactadas foi o significativo agravamento das condições de vida de várias famílias devido á pandemia.
Para a vereadora essa é uma realidade “porque nestas zonas vivem populações com ocupações muito frágeis e com rendimentos muito baixos, seja os que estavam a trabalhar em atividades precárias que ficaram paralisadas durante esta fase. As pessoas, em geral, ficaram sem rendimentos, ou com rendimentos muito mais baixos, se é que já receberam algum. Depois, quando a pandemia apareceu, muitas pessoas com crianças, que tinham refeições nas escolas, não pediram a ida para levantar a refeição, ficando, assim, sem o rendimento e sem a refeição. Nas crianças, sobretudo, detetam-se problemas alimentares e em idoso também.
A Segurança Social também precisa de estar mais atenta às situações que se estão a viver nestas zonas. Diria também que a Segurança Social precisava de ter uma equipa de permanência nestes bairros, para ir detetando este agravamento das condições de vida”.
PSP “abandona” Lagarteiro

E o abandono que as pessoas se dizem votadas, neste caso no bairro do lagarteiro, reflete-se também em termos de segurança.
“A própria PSP, que tinha um posto de atendimento de proximidade, primeiro no Lagarteiro; depois, quando foi das obras retiram-no dizendo que depois voltava e nunca voltou; colocaram-no depois, numa zona próxima, em Azevedo, e agora até essa, em Azevedo, fechou e as pessoas precisam de ir à Corujeira. Isto não é correto”, referiu a vereadora.
Vereadora que voltou a salientar a questão do abandono, salientado que “as obras da Câmara Municipal que estão a decorrer de recuperação do bairro do Cerco do Porto estão lentas, porque uma boa parte ainda está muito degradada e com esse ar de abandono que as pessoas sentem, embora tenham a esperança que haja, a curto prazo, uma reabilitação.
Nós insistimos muito, na montagem das equipas multidisciplinares nestas zonas, abrangendo um ou vários bairros, conforme as áreas e as carências que permitam dar resposta às questões de limpeza, com mais equipamentos: caixotes de lixo, papeleiras, e maior limpeza diária junto dos equipamentos como campos de jogos etc., porque se sente esse ar de abandono, e as pessoas queixam-se”.
Droga: um problema em crescendo, mas mais na zona ocidental do Porto
Um dos casos positivos na visita aos dois bairros, verificou-se com uma verdadeira “pacificação” na questão de tráfico e trasfega de drogas, que, ao contrário do que acontece por aqui, tem aumentado sobremaneira na zona ocidental da cidade.
Ilda Figueiredo referiu a propósito que “quando há agravamento da situação económico-social, em geral, há agravamento da situação de tráfico de drogas. Sabemos isso. É o normal destas situações. Infelizmente, os que vivem à custa da exploração e da miséria dos outros, intensificam essa atividade designadamente através do tráfico de drogas.
De qualquer modo, aqui nesta zona (Cerco do Porto) não encontramos uma situação tão grave quanto a que vimos na Pasteleira Nova etc. Aqui, não está essa situação! Lá é à descarada, aqui nada se viu como puderam também reparar”. E reparamos.
Os sem-abrigo

Uma consequência direta da pandemia, mas também do complexo mundo da droga reflete-se no crescente número de pessoas sem-abrigo no Porto.
Sobre esta problemática, Ilda Figueiredo é da opinião que “a Câmara Municipal do Porto tem dado algumas respostas nessa área, embora caiba ao Governo fazê-lo. Estamos a insistir com o Governo, aliás, a Câmara do Porto aprovou por unanimidade uma proposta em que a autarquia se dispõe a comprar, ou a construir, mais habitações destinadas à resolução do problema dos sem-abrigo, entrando o Governo com dois terços da verba necessária para isso. Estamos à espera que o Governo responda, porque é a ele que compete também dar essa resposta. A Habitação é uma responsabilidade constitucional do Governo. E estamos, aqui, a lutar nestes bairros, porque estes são da Câmara e, aqui, cabe à autarquia um grande papel, e tem-no, de intervenção, de melhoria etc., Mas, para nova construção, é o Governo que o tem de fazer!”, concluiu.
Texto e fotos: José Gonçalves
01jul20






