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Palavras Sentidas

“Em 01 de Abril de 2014 foi publicada no jornal electrónico ETC e TAL, pelo jrnalista José Gonçalves director do referido jornal, uma “extensa entrevista”, palavras dele, sob o título “CASTRO CARNEIRO: O capitão que comandou, a 25 de Abril de 1974, as tropas libertadoras nas ruas do Porto”.

Ainda tenho bem presente a longa conversa que tivemos na Messe de Oficiais do Porto situada na Praça da Batalha.

Por mais fértil que fosse a minha imaginação, não era possível sequer desconfiar que o ETC e TAL jornal, esta entrevista e algumas das minhas afirmações na altura, fossem a causa de um reencontro que aconteceu passados que foram 47 anos.

Mas vamos por partes e comecemos exactamente por aquilo que na altura disse:

“O M’Pozo era um sítio complicado e um local que precisava de ter gente com experiência, que, no meu caso, não era muita mas já alguma. O capitão que me foi render era um dos do CCC (Curso de Capitães Cadetes). Tratava-se de oficiais milicianos que faziam aqui o seu curso e depois iam quatro meses a Angola ou a outra “província” qualquer fazer uma espécie de Tirocínio junto de capitães do quadro. Era um bom sítio para aprender depressa!

Antes da Companhia regressar, ou seja, antes de terminar a Comissão Liquidatária, esse capitão que me substituiu, teve uma emboscada e perdeu 17 homens, e isto por uma razão, extremamente simples: na minha Companhia era preciso ir buscar tudo – comida, lenha, água, etc – e os homens que foram para a lenha levaram as armas debaixo da lenha… ficaram lá dezassete, assim de uma vez!”

Parece-me necessário explicar as razões que me levaram a fazer esta afirmação a primeira das quais tem a ver com o meu conhecimento, também de experiência feito, sobre a forma como eram formados estes “Capitães Cadetes” entre os quais se encontrava o Neves. Como eu era capitão do Quadro Permanente e o M´Pozo era justamente considerado um local perigoso, ajudei a “formar” em 16 meses dos 24 que lá estive, 4 destes capitães e se como pessoas só posso dizer bem de todos, (sou amigo de um com quem mantive contacto por ser do Porto como eu) eram mais do que evidentes as suas “limitações” como futuros Comandantes de Companhia, não querendo com isto dizer que todos eles não tenham feito o melhor que podiam e sabiam.

Cerca de 4 meses antes de terminar a minha comissão no M´Pozo, foi colocado na Canga, companhia imediatamente a seguir à minha, um destes capitães a quem tive que “socorrer” em vários aspectos, nomeadamente no operacional, por manifesta “falta de instrução” da companhia e evidente “falta de jeito” do seu capitão. Sobre esta “circunstância” da guerra que travamos durante 13 anos muito haveria para dizer e para falar, mas isso são “contas de outro rosário” que não são para aqui chamadas nesta altura.

Tenho ideia de ter vindo para Luanda por volta do dia 15 de Agosto de 1973 onde devo ter permanecido cerca de 1 mês, mês e meio, a fazer a Comissão Liquidatária da minha companhia e histórias do tipo da que me foi contada sobre a companhia do M’Pozo, já não consigo recordar por quem, eram, não direi o “pão nosso de cada dia” mas sem dúvida nenhuma bastante frequentes, o que não me levou sequer a desconfiar tratar-se de um “boato”. Mais até, não tive qualquer dúvida em aceitar que se os homens do Neves tivessem ido à lenha e deixado as espingardas debaixo da lenha, versão que me foi relatada, teriam pago com sangue essa “indisciplina”, já que também não tenho dúvida nenhuma que a FNLA sabia tudo aquilo que a minha companhia fez durante 2 anos e tudo aquilo que a companhia dele fez durante o tempo que lá esteve. Aliás tanto quanto me relatou na conversa que tivemos, isso mesmo lhe foi afirmado por elementos da FNLA com quem teve contactos a seguir ao 25 de Abril de 74.

Também me relatou e penso poderá ter sido essa a origem do “boato”, que a companhia da M’Pala, portanto do mesmo batalhão, teve passado pouco tempo de lá estar, um acidente em que morreram 5 militares e embora entre 5 e 17 a diferença seja grande é voz corrente que “Quem conta um conto, acrescenta 1 ponto”. Terá sido essa ou não a origem, não o consigo determinar.

Como também ele pode verificar a “loucura” (não sei se será esta a palavra que melhor traduz o dia-a-dia de uma cidade capital de um país envolvido neste tipo de guerra) fácil lhe foi constatar “ter sido notória a minha não intencionalidade” ao fazê-lo, como facilmente se pode verificar no texto que me escreveu e que também transcrevo um pouco mais à frente.

Em Março de 2020 já em pleno período de confinamento recebo um SMS muito “cerimonioso” que não sou capaz de reproduzir textualmente mas que em termos gerais dizia o seguinte:

“– Sr Coronel Carneiro não sei se é o Capitão Carneiro que em 1973 rendi no M’Pozo; se não fôr peço desculpa pelo abuso que estou a cometer mas se fôr, sou o Capitão José Neves Comandante da Companhia que rendeu a sua e gostava que me contactasse” o que fiz no mesmo dia ou no dia seguinte. Os termos exactos poderão não ser exactamente estes mas a “cerimónia” e o sentido são os que procurei retratar.

Como troquei de telemóvel não guardo nem o sms dele nem a minha resposta.

Tivemos uma longa conversa telefónica e o Neves informou-me ter lido no ETC e TAL jornal a minha entrevista e que através de um amigo comum tinha conseguido chegar ao número do meu telefone. De referir que se ele tinha conseguido guardar em memória o meu nome durante 47 anos, o mesmo não tinha acontecido comigo, o que de alguma forma se pode explicar pela grande quantidade de documentos e relatórios que lhe deixei quer sobre a Zona de Acção da Companhia do M´Pozo, quer sobre o Inimigo que ele iria enfrentar (mas não só), e que ele teve tempo de sobra e admito que também interesse em ler, o que não sucedeu comigo, já que não fiquei com qualquer documento que me recordasse o nome dele.

Na mesma altura referiu-me a necessidade de rectificação de alguns dados constantes da minha entrevista e combinamos que me faria chegar por correio electrónico esses dados.

Parece-me, portanto, chegada a altura de o pôr a falar a ele, o que farei de seguida.

“– Considero que a entrevista do ETC.&TAL, que reli com toda a atenção e regozijo, merece uma reflexão profunda e um comentário extenso, tendo presente a atitude séria, transparente e íntegra do entrevistado, quer na exposição do seu percurso militar e político, quer no respectivo envolvimento prático, o que exige sem qualquer reserva um aplauso caloroso!

Devo confessar, no entanto, que esse teu empenho total no 25 de Abril não foi, ou é, uma surpresa. Durante a sobreposição das nossas companhias, na véspera da partida, após o sucedido com o rebentamento das 2 minas (A/C + A/P)[1] que destruíram o camião civil, já de noite e depois do jantar, a sós, perguntei-te (até me lembro do local: a sala da messe de oficiais onde comíamos!!!): “E como é que “isto” vai acabar? A situação tem capacidade para se aguentar?” A estas perguntas deste a seguinte resposta: ”Olha, vamos (militares de carreira) ter de fazer alguma coisa, doutra maneira ainda seremos acusados de perder a guerra e acabamos todos pendurados nos candeeiros de iluminação pública!” (sic). Quase 47 anos depois – foi em Agosto de 73 – continua a ser um momento inesquecível da minha tropa!

O meu batalhão foi formado em Abril73 no Funchal, no então BII19, … e aí tomei conhecimento do tal decreto que espoletou o descontentamento dos capitães e outras patentes do QP.

Quanto às referências feitas na entrevista sobre o inexistente “massacre”, já esclarecemos o assunto ao telefone. Mas para que não subsistam quaisquer dúvidas sobre a realidade operacional então vivida, seguem em anexo umas notas resumidas da “História da Unidade”, com mais detalhe no que se refere à minha companhia (2ª CCaç.)[2], onde, com olhar de profissional, facilmente se perceberá o desempenho dos seus efectivos. A atribuição do Mepozo à minha companhia foi decidida somente pelo comandante do batalhão, o que me aborreceu, pois, começasse ele a distribuição pelo Cabeço da Velha ou pelo Mepozo, eu ficaria sempre sediado na Mepala, dado ser a 2ª! Perguntei-lhe porquê e ele foi, como de costume, muito franco: aquele local era considerado o mais difícil, eu tinha estagiado na Guiné e…era solteiro(!?), ao contrário dos outros dois capitães! Contestei respeitosamente e cumpri…que remédio!!!”

Interrompo aqui o texto do Neves para intercalar as “notas resumidas” da História da Unidade.

RESUMO DAS OCORRÊNCIAS NAS COMPªs ORGÂNICAS E DE REFORÇO (4+3) NO BCAÇ 4912/72:

Minas A/C – 11 (Mepozo 3 / Mepala 3 / Mamarrosa-Luvo 2 / Canga 1 / Lufico 1 / Cabeço da Velha 1

(Após 25ABR = 2 + 3 + 2 + 1 +1 + 1 = 10)

Minas A/P – 04 (Mepozo 2 / Canga 1 / Mamarrosa – Luvo 1 (após 25ABR = 0 + 0 + 1)

TOTAL de minas – 15

02 Ataques a aquartelamentos – 1 Mamarrosa + 1 Luvo (após 25ABR) –

01 Emboscada – Grupo do Mepozo no IPR Tomboco-S. Salvador

TOTAL de Mortos – 15 – (Mepozo 8 (6 emboscada + 1 mina + 1 acidente) / Mepala 5 (acidente) / Cabeço da Velha 1 (acidente) / Lufico 1 (mina) foi a última baixa do batalhão em Outubro74.

TOTAL de Feridos – 28 (Último em Outubro74)

Continuemos com o texto do Neves.

“Para muita gente, especialmente da sociedade civil ou ex-milicianos que desmobilizaram antes do 25 de Abril, há o errado convencimento de que após essa data a guerra terminou, o que é manifestamente errado: no Mepozo, o último morto em campanha foi em Agosto74 e no batalhão foi na ZA do Lufico em Outubro74, também um morto em campanha, ambos os incidentes provocados por minas anti-carro. Finalmente, quando tudo se apaziguou no mato, “levantamos ferro” e zarpámos para o inferno de Luanda, onde permanecemos em actividade de Dezembro de 74 até ao início de Fevereiro de 75, cerca de mês e meio em ambiente urbano turbulento,  entre os combatentes da FNLA, UNITA e MPLA que lutavam entre si para arregimentar militantes e ocupar posições e do fim inexorável de um estilo de vida para os portugueses lá radicados.

Posto isto, porque tenho o receio fundado de estar a ser maçador, termino com um apelo: é provável que o boato das “mortes na emboscada da lenha” , (embora seja notória a sua não intencionalidade!)[3]  se tenha propagado, inclusive nos ex-militares da 3391; fico-te muito grato se nos encontros comemorativos puderes desfazer esse equívoco, caso exista. Os meus homens, com uma mão cheia de excepções, a quem devo toda a consideração e respeito pela forma disciplinada como sempre se comportaram e me obedeceram, mesmo nos dificílimos tempos após o 25 de Abril, não merecem a manutenção deste equívoco no que se refere à sua disciplina e operacionalidade no teatro de operações.

Meu caro Amigo, foi um enorme prazer falar contigo ao fim de 47 anos! Desculparás o abuso desta longa carta, mas creio que contribuirá para conheceres melhor alguns dos acontecimentos do fim do império.

Ansioso pelo nosso futuro almoço, despeço-me com um abraço rijo e votos de SAÚDE.

José Neves”

É evidente que não devo nem posso deixar passar em claro o apelo do Neves, sendo que aos seus homens devo a primeira e a maior das desculpas que tenho de pedir. Tal como ele diz, lhes “devo toda a consideração e respeito pela forma disciplinada como sempre se comportaram e lhe obedeceram” não sendo merecedores do “boato” que de forma pouco reflectida, embora não intencional, – quem passou pela guerra entenderá melhor o que quero dizer ­– ajudei a espalhar.

Depois tenho de lhe pedir desculpa a ele, porque felizmente soube ser o capitão que o M’Pozo precisava de ter, não deixando que os seus homens “pagassem com sangue” quebras de disciplina que ele conseguiu não permitir.

Finalmente tenho de pedir desculpa ao Sr José Gonçalves e aos leitores do ETC e TAL jornal por ter posto a circular uma “Fake News”, como agora se usa dizer, que embora não aproveitando a boa-fé dos seus leitores para qualquer finalidade menos correcta, vai contra os exigentes critérios que o jornal usa nas suas publicações.

Considero que nunca seria suficiente fazê-lo apenas no almoço anual da minha companhia, e que tem que ser no jornal a quem dei a entrevista que muita gente leu, que devo e tenho de pedir desculpa e é isso o que quero e estou a fazer.

Repito, a todos o meu sincero pedido de desculpa, por um erro involuntário, mas que não deveria ter acontecido.

Ao Jornal ETC e TAL na pessoa do seu director, jornalista José Gonçalves, agradeço a oportunidade que me ofereceu de tornar públicas estas minhas PALAVRAS SENTIDAS.

 

Porto, 18 de Junho de 2020

Castro Carneiro

Cor Inf Ref

 

Na foto: vista área sobre M’Pozo

 

[1] A/C – Anti-Carro; A/P – Anti-Pessoal.

[2] CCaç – Companhia de Caçadores

[3] Sublinhado meu.

01jul20

1 Comment

  1. José António Neves

    Acabo de ler o texto do meu amigo, Coronel Castro Carneiro.
    Confesso alguma comoção pelo título e pela forma que utiliza para esclarecer o equívoco involuntário e sem sombra de dolo. Ressalta de uma leitura atenta o caráter impoluto do Autor que, com a humildade própria dos espíritos esclarecidos, assume o erro – reitero, inconsciente! – e, sem hesitação, enfrenta as suas consequências. Só alguém detentor de uma integridade a toda a prova dá testemunho público para corrigir o depoimento, ultrapassando largamente o meu pedido para que tal acontecesse no âmbito restrito dos almoços anuais comemorativos da sua 3391. Reafirmo que o meu intuito jamais foi o de receber qualquer pedido de desculpas – nem tal me passou pela cabeça! – mas tão só retificar uma inexatidão!
    Peço ao leitor que não se distraia com estas quase minudências (passados 47 anos é o que são…), antes foque o seu interesse na magnífica entrevista, esta sim, a merecer a atenção devida.
    Os boatos, como todos os que passaram pela guerra sabem, muitas vezes, senão a maioria, eram apresentados sob as vestes diáfanas da credibilidade das fontes…

    (Nota final – acredito que esta atoarda tenha a sua origem no infeliz desastre rodoviário sofrido pelo pelotão da companhia de M’pala que daqui escoltou até ao Lufico os militares do então Capitão Carneiro no regresso a Luanda. Aquele acidente viário ao retornarem a M’Pala provocou 6 feridos, 2 dos quais graves que foram evacuados mas vieram posteriormente a falecer. De facto, a companhia de M’Pala, comandada pelo meu querido amigo e colega do curso de capitães CCC Gonçalves Dias, à semelhança de muitas outras, iniciou aqui um funesto percurso de acidentes mortais que ocasionaram no fim da comissão 5 baixas. História da Unidade BCAÇ 4912/73)

    José Neves

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