Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos durante 29 anos, sendo reeleito sucessivamente desde 1977, Narciso Miranda é o “símbolo vivo” de um concelho que se desenvolveu como poucos em Portugal nas últimas décadas.
Eleito sempre nas listas do PS, Narciso acabaria por abandonar o partido para se candidatar, pela primeira vez como independente à autarquia matosinhense, em 2009.
Secretário de Estado da Administração Marítima e Portuária (XIV Governo Constitucional, liderado por António Guterres) e Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Narciso Miranda voltou a candidatar-se como independente nas últimas eleições autárquicas (2017), conseguindo a sua lista ser a segunda força mais votada, facto que o levou a fazer parte, como vereador sem pelouro, do executivo, liderado pela socialista Luísa Salgueiro, a quem dá nota positiva pelo trabalho que tem vindo a desenvolver em Matosinhos.
Não sabendo se vai, ou não, recandidatar-se nas “Autárquicas”, que se realizarão, no próximo ano, o nosso entrevistado assume-se como uma pessoa ambiciosa, sempre insatisfeita e pronta a dizer “presente!” na sociedade matosinhense, parte considerável da qual, ainda o trata por “presidente” quando o vê ou por ele se cruza na rua.
Com ideias concretas em relação a transportes e à habitação, Narciso Miranda, não se esquece, nesta conversa, de enaltecer o papel das juntas de freguesia no crescimento do concelho, assim como, de relevar o importante apoio que a edilidade tem dado às camadas jovens no incentivo à prática desportiva.
Mas, há mais, muito mais, para ler nesta entrevista com um homem que se recusa – para já! – a calçar as pantufas…
José Gonçalves Roberto L. Fernando
(texto) (fotos)
É das poucas pessoas que já faz parte da história de Matosinhos. Vinte e nove anos à frente da Câmara Municipal, é obra, até porque a obra está aí, e à vista desarmada…
“Foi algo que aconteceu. As coisas proporcionaram-se para que assumisse a liderança do concelho de Matosinhos, e logo numa altura difícil. Matosinhos sofria de grandes problemas, ora nas infraestruturas, ora nos equipamentos… na própria qualidade de vida. Fez-se, então, um grande projeto para o sul do concelho, para que eu nele pudesse pegar e projetar. Tivemos de trabalhar muito! Tenho muito orgulho desse trabalho, mas, com toda a franqueza, tudo isso pertence ao passado. Agora, há que olhar para o futuro…”
Que opinião tem sobre o trabalho que a atual presidente da Câmara Municipal, Luísa Salgueiro, tem vindo a desenvolver ao longo do mandato, isto, naturalmente como vereador, ainda que sem pelouro, depois da sua lista ter sido a segunda mais votada nas últimas eleições autárquicas?
“Acho que o trabalho da equipa liderada pela Luísa Salgueiro é, globalmente, positivo. Não posso dizer que seja um trabalho perfeito. Não vou dizer que fazia exatamente o mesmo, mas acho que, globalmente, é positivo. O executivo tem tido a preocupação de defender os interesses dos matosinhenses. Introduziu algo de importante, como o respeito pelas regras democráticas, facto que valorizo muito! Há o respeito à diferença, a opiniões diferentes… acho que isso é muito importante. Por outro lado, conseguiu resolver alguns problemas que herdou. Ela costuma dizer que teve um grande legado. Acho que ela teve um legado – não sei se é grande ou pequeno – mas teve um legado que o teve e tem de gerir, e portanto, em poucas palavras, o balanço que faço é positivo.
Vai recandidatar-se nas próximas eleições autárquicas que se realizarão já no próximo ano?
“É muito cedo! Ainda falta um ano e meio. Há vários fatores que têm de ser ponderados. Depende do ritmo. Se as coisas continuarem como estão, está aberto o caminho para uma mais que desejada pacificação no sentido de serem cicatrizadas – não digo curadas! – algumas feridas que foram abertas no passado…
Dentro do Partido Socialista?
“Dentro do Partido Socialista e na própria sociedade civil. Isto não é só uma questão partidária, isto há aqui fraturas que aconteceram na sociedade civil matosinhense; criaram-se feridas, algumas delas, se calhar, não passam de arranhões, mas isso provoca o seu efeito psicológico e, depois, precisam do seu tempo para serem curadas. Estamos, assim, nessa base, ou seja, a fazer essa cura, e abrir o caminho para uma grande pacificação na sociedade matosinhense que – repito! – é muito importante!”
Disse, há pouco, que os vinte e nove anos à frente da Câmara Municipal de Matosinhos fazem parte do passado, mas, se calhar, ainda tem algo – quiçá desse tempo – para poder ser concretizado no presente. Tem? O quê?
“Sou uma pessoa muito virada para o futuro. Recebi Matosinhos, como recebi. Não sei se foi bom, ou se foi mau… foi como foi. O Matosinhos que eu deixei, não sei se foi muito bom, ou menos bom… foi aquele que eu deixei. E temos, agora, um Matosinhos que é também muito do que eu deixei…”
E que Matosinhos deixou…
“Deixei um Matosinhos de progresso, virado para o futuro. Um Matosinhos com qualidade de vida, com grande foco de atratividade. As pessoas quiseram vir para cá; quiserem viver aqui, porque tinham qualidade de vida. Neste momento, Matosinhos continua nessa senda, e com esses objetivos…
Mas, há problemas, por certo, a ter em conta!
“O primeiro grande problema de Matosinhos é a mobilidade. Pode, contudo, perguntar-me: mas esse é um problema caraterístico de Matosinhos? E eu respondo-lhe que não. Esse é um problema de todas as grandes cidades. É um problema do Porto, de Lisboa etc. E, a par da mobilidade, vem o problema dos transportes, das acessibilidades… das vias de comunicação.
Depois, em segundo lugar, temos o problema da habitação. Já não há barracas, pois acabei com elas, mas as pessoas, sobretudo da classe média, não têm, hoje em dia, capacidade de resposta para os níveis de especulação, que se atingiram em Matosinhos, quer para alugar, quer para comprar casa. E, nesse caso, essas pessoas da classe média baixa e média, estão a sair de Matosinhos, porque encontram casas mais baratas na periferia, como em Rio Tinto, em Ermesinde, etc. E isso é muito mau em termos de futuro, porque isso esvazia Matosinhos do melhor que tem: o seu património humano. E pode ainda contribuir, a médio ou longo prazo, para que Matosinhos passe a ser um concelho envelhecido.Mas, a Câmara tem consciência disto. E há medidas para resolver este problema, com o meu apoio. Depois, a terceira questão diz respeito aos transportes do ponto de vista global…”
AS LINHAS “FUNDAMENTAIS” DA METRO DO PORTO QUE FALTAM EM MATOSINHOS…
Vamos falar do Metro?
“Não vale a pena fugir à realidade: do Metro, sim, do Metro. Quando saí da Câmara havia obras programadas que acabaram por não se fazer. É preciso fazer a linha do Metro de ligação da Senhora da Hora, rasgando Padrão da Légua, São Mamede Infesta, à linha do Hospital de São João. Esta é uma linha decisiva! Ela servirá São Mamede Infesta e o Padrão da Légua, que é uma zona, de grande concentração urbana. Essa linha é fundamental, para que este núcleo se desloque, utilizando o Metro, como meio de transporte eficiente, rápido, seguro e amigo do ambiente, que é.
Segunda linha muito importante é a ligação Matosinhos Sul ao Porto pela zona do Campo Alegre. Uma linha importante – repito! – e que já está estudada há 14 anos. Tem de se voltar a falar nesse assunto. Se for preciso tem de se reivindicar!
E fico-me por estas duas linhas, pois se elas forem concretizadas já será muito bom. É claro que depois será preciso o prolongamento para norte, ligando a linha de porto-Matosinhos ao aeroporto, fazendo, assim, a coroa. Mas, se se fizer as duas linhas que falei já é muito importante.
Depois, é preciso acabar com o maior problema de escoamento de trânsito que existe na Área Metropolitana do Porto, que é a Rotunda dos Produtos Estrela. Rotunda que é muito bloqueadora e perturbadora quanto à fluidez do trânsito”.
Quanto à “Maré” – empresa de autocarros de Matosinhos – foi só como que um pintar dos autocarros da empresa “Resende”? Funciona? Dá resposta às exigências de quem a utiliza como transporte público diário?
“A «Maré» substituiu a «Resende». Se me dizem que é melhor(?!). Bem, para ser melhor que o que havia, não era preciso muito. O serviço é razoável, mas insuficiente. É preciso mais arrojo. Mas, deu-se um salto positivo.”
O “PAREDÃO”
Quanto a outra questão que, a dada altura, originou forte polémica: concorda, ou não, com o prolongamento, em 300 metros, do paredão, do porto de Matosinhos?
“É um problema que teremos de enfrentar”.
Mas, pouco se tem falado sobre o assunto.
“Mas vai falar-se. Se não se falar antes, falar-se-à quando aos máquinas aparecerem. O povo de Matosinhos, como o povo português, é pacífico… é sereno. Eu entendo, porém. que os problemas devem ser discutidos antes deles acontecerem. Sou, assim, grande defensor de que se antecipem os acontecimentos. Isto, agora, está um bocadinho adormecido. Mas, quando aparecer aí uma máquina… isto mexe logo!
Se sou a favor, ou contra? É muito difícil de responder. Se eu quiser dar uma resposta fácil, simpática, que me saia cá de dentro… diria: não. Mas, eu tenho de ir ao fundo do problema; tenho de analisar muito mais, e como esta obra é muito importante para aumentar a capacidade e acessibilidade do porto de Leixões e a sua segurança. Esta é análise do acionista, tendo em conta uma perspetiva nacional.
Pelo contrário, isso vai criar impactos negativos. Então, onde é que está a solução disto? Está na bissetriz. Está em conjugar, tanto quanto for possível, as duas questões: a questão nacional – a entidade do porto de Leixões -, e a local. Ou seja: a questão dos interesses da qualidade de vida das populações.
A APDL está a fazer um estudo rigoroso sobre esta questão?
A APDL está consciente que o projeto tem de ser analisado nesta perspetiva: nem nos podemos concentrar só no objetivo da obra; nem nos podemos concentrar só no objetivo de ser contra. Temos de aproximar posições, e é isso que tem de se fazer. Acho que está a haver esse esforço, o que já não é mau”.
“A ÁREA METROPOLITANA DO PORTO, COMO INSTITUIÇÃO, PRECISA DE SER ABANADA…”
A Área Metropolitana do Porto, como instituição, está a funcionar bem, ou precisa de um abanão?
“Precisa de ser abanada. Acho que está a funcionar razoavelmente bem, mas não também quanto eu acho que é necessário. O problema é que esta é uma instituição geradora do espaço negocial; onde os presidentes de câmaras se sentam para negociar as melhores soluções para os problemas estratégicos e, sobretudo, para os problemas que são comuns. Mas, quando estas pessoas se sentam à volta da mesa a negociar – já era assim no meu tempo, e é assim agora – estão é a pensar na sua terra… na sua quinta. Acho que se tem evoluído, mas com demasiada lentidão..”
“NÃO HÁ NENHUM GOVERNO QUE OFEREÇA A DESCENTRALIZAÇÃO DE BANDEJA AOS AUTARCAS”
…e a descentralização. A tal descentralização que, agora, é acerrimamente defendida pelo primeiro-ministro, António Costa?
“Vai-se fazendo de uma forma tímida! Não há nenhum governo que ofereça a descentralização de bandeja aos autarcas. O António Costa é, de facto, o primeiro-ministro que mais avançou em matéria de descentralização. Mas, nenhum primeiro-ministro, seja quem for, entrega de bandeja a descentralização ao poder local. António Costa é um homem que defende, convictamente, a descentralização! E tenho a certeza disso, até porque ele foi autarca e sabe quais são as vantagens da descentralização. Só que depois tem muitos obstáculos pela frente, e não são poucos. Tem muitas teias à sua volta que lhe travam o caminho. Agora, eu continuo a defender, não obstante alguma contestação – menos agora, do que no passado -, que a regionalização é fundamental como parceiro da descentralização.”
O Governo socialista está a portar-se bem?
“O PS está a governar o País há cerca de seis anos, o que é muito bom! Globalmente, este governo está a fazer um bom trabalho. O Costa está a demonstrar que é um grande primeiro-ministro. É um homem muito hábil na negociação. Agora, há algumas lacunas… algumas falhas. Estou muito preocupado, sobretudo, com os efeitos da governação em termos de futuro. Mas, também não me esqueço dos seis anos do governo do PS, liderado por José Sócrates. Os primeiros quatro anos também correram muito bem, mas depois…”
…mas, aí, com maioria absoluta…
“…tenho alguns receios quanto ao futuro, e mais agora com as questões relacionadas com a pandemia…”
E por falar em pandemia. Como é que se portou Matosinhos? Houve a promessa da Câmara Municipal em distribuir máscaras por todos os matosinhenses, mas, além de as máscaras não chegarem a todos, os que as receberam tiveram-nas sem os padrões de segurança exigidos?!
“Ninguém está isento de erros! Foi uma situação nova e ninguém estava preparado para ela. Tudo aconteceu de um momento para o outro. E faço questão de dizer isto, porque parece que, agora, somos todos especialistas em pandemia. Eu não sou! Sou, isso sim, um cidadão atento e com muita capacidade de observação. Penso, e numa análise global, que a Câmara Municipal teve um comportamento correto. Errou! Mas quem não erra?! Houve, realmente, uma falha nas máscaras, mas isso, meu caro amigo… se eu estivesse lá, faria pior, ou melhor? Não sei!”
“NÃO SOU PESSOA DE SAIR PARA REENTRAR! SAÍ DO PS! SAÍ!… SAÍ!”
Há pouco referiu que o passado é passado mas…
“…acho, com toda a franqueza, que já dei o suficiente para estar satisfeito com Matosinhos. E acho mais: acho que já dei mais que qualquer cidadão que se disponibiliza a dar, em termos de cidadania. Mas, como sou uma pessoa muito ambiciosa, porque nunca estou satisfeito, não posso dizer que a minha função já passou, e que agora venham outros! Tenho sempre a ambição de fazer mais e melhor…”
Regressará ao PS?
“Não sou pessoa de sair para reentrar. Acho que as pessoas têm de ser coerentes. Eu saí do PS, saí…saí! No ponto de vista de rigor, as coisas têm de ser vistas assim”.
Sente-se mais à vontade como independente?
“Não é uma questão de me sentir mais à vontade. Estive trinta anos ligado ao PS, mas saí… saí! Foi um ciclo, agora estou num outro ciclo. repare, que não ingressei em nenhum outro partido”.
Mas, por certo, é melhor ser-se independente do que estar ligado a um todo partidário; a toda uma organização, por vezes complexa. É verdade? Torna-se mais fácil?
“É-se mais livre! Não sei se é mais fácil. Penso que o País depende muito da partidocracia, e isso dificulta a vida aos independentes… mas, somos mais livres!”
E, por mais estranho que possa parecer, ou não, a verdade é que todos os independentes, em Matosinhos, tiveram uma ligação direta ao PS. Portanto é um partido com grande peso cá na terra…
“No meu tempo chegou a andar pelos 60, 66 por cento. Agora, está nos trinta e tal… é a vida!”
“UM MINISTRO DO AMBIENTE QUE NÃO TENHA CONTESTAÇÃO, NÃO É, POR CERTO, UM BOM MINISTRO!”
O Ambiente – questão que há pouco falámos em relação ao Metro, mas também ao prolongamento do paredão do porto de Leixões -, está bem entregue, em termos de “pasta”, ou pelouro, a nível local? E a nível nacional?
“A política do Ambiente da Câmara Municipal de Matosinhos melhorou neste mandato. É a melhor análise que posso fazer ao atual responsável, António Correia Pinto. Não estou a dizer que está bem ,ou está mal, estou a dizer que está bastante melhor do que na última década. Há um esforço digno de registo…”
A nível nacional, há muita contestação ao ministro…
“Devia até haver mais contestação. Um ministro do Ambiente que não tenha contestação, não é, por certo, bom ministro. É contestado pelos autarcas, pelos ecologistas, pelos ambientalistas… Até sou amigo do João Matos Fernandes. E quando falo em contestação, falo num sentido positivo…”
“AS JUNTAS DE FREGUESIA ESTÃO A TRABALHAR DE UMA FORMA INTEGRADA”
Matosinhos foi sempre muito conhecido pelo desporto, pelas atividades das suas coletividades, como o reconhecido e emblemático Leixões Sport Clube. Como é que, em seu entender, o concelho anda nessa matéria? Ou não anda?
“O desporto em Matosinhos tem um pilar, que é um projeto que não se vê, mas sente-se, e é muito positivo. Trata-se da autarquia assumir a responsabilidade de suportar as despesas de tudo o que é camadas jovens. O dinheiro necessário para este ou aquele jovem, esta ou aquela jovem, se inscrever nesta ou naquela associação… isso é muito bom, pois é o crescimento pela base, que pode não ter repercussão no imediato, mas terá, certamente, no futuro. Não há nenhuma criança; nenhum jovem em Matosinhos que queira praticar desporto e não o faça por falta de dinheiro para se inscrever. Isso a Câmara suporta. Aliás, há tradições em Matosinhos muito fortes. Para além disso, há as coletividades que continuam a desenvolver um trabalho muito importante…”
… como o Leixões?!
“…. sim, o Leixões é um clube emblemático, mas muitas outras coletividades.”
O Leixões que passa por uma crise…
“…sim, mas isso passam todas as coletividades. As pessoas passam e os clubes ficam.”
As freguesias estão a trabalhar bem?
“Estão a trabalhar de uma forma integrada. Criou-se, desde o meu tempo, uma boa articulação para um crescimento não monocêntrico, mas pluricêntrico. Essa coisa de se fazer uma cidade com tudo importante no centro, e depois o resto ser paisagem, é do passado. Aqui, em Matosinhos, a preocupação foi sempre a de criar várias centralidades. Centralidade em São Mamede, em Leça, na Senhora da Hora, etc., mesmo em freguesias… há pequenas centralidades. essa é a grande riqueza de Matosinhos. Por cá, há histórias diferentes, até do ponto de vista cultural, e essa é, na verdade, a nossa grande riqueza. É preciso sabermos potenciar esses factos, essas caraterísticas de uma forma descentralizada. E isso é o que se está a fazer”.
Mudando, um pouco de assunto, mas retomando a questão das obras estruturais. Para além das que referiu em relação ao Metro, regresso à questão da habitação, até porque em termos de construção, ela não se pode alargar muito mais, aqui, em Matosinhos…
“Os problemas da habitação em Matosinhos podem ser resolvidos sem ter de se alargar a habitação, ou construir mais habitação. Basta, combater a especulação. Basta entrar no mercado privado, ver as habitações que estão por aí a não ser utilizadas, e a Câmara alugá-las e depois subalugá-las. Penso que se vai fazer isso. Essa é, pelo menos, a minha convicção. Tem de se começar a fazer isso! Não há outra solução”. É pegar, por exemplo, no Alojamento Local que não está a ser utilizado, e transformar isso em habitação para as camadas mais jovens e para a classe média que não tem dinheiro para pagar aqui uma renda.”
Portanto, Matosinhos está no bom caminho?!
“Matosinhos está a ser gerido com sentido de responsabilidade.”
Se se recandidatasse e obtivesse os mesmos resultados, ou parecidos, que nas últimas eleições, e fosse reeleito vereador, aceitaria, desta vez, uma pasta?
“Ainda é muito cedo para estar a falar nisso. Uma pessoa que esteve trinta anos na vida política, na vida autárquica, tem a sua função cumprida. Só ainda não arrumou as botas e não calçou as sapatilhas porque é muito ambicioso e irrequieto. Eu vivo em permanente insatisfação. Penso que é sempre possível fazer mais. Olho para isto tudo, vejo que dei o meu contributo. Se calçasse as pantufas ficava maluco. Tenho um grande motivo para estar satisfeito comigo!”
“PROBLEMAS COM A JUSTIÇA? FOI UMA PERSEGUIÇÃO QUE ME FIZERAM! UMA SACANICE! QUEM A FEZ HÁ-DE PAGAR SE É QUE JÁ NÃO A PAGOU!“
Disse estar satisfeito consigo, isto mesmo tendo em conta os problemas que teve com a Justiça?
“Os meus problemas com a Justiça vieram de uma perseguição que me fizeram. Passou. Assunto encerrado! Estou a olhar para si de cabeça levantada, sorridente e absolutamente tranquilo. Foi uma sacanice que me fizeram. Quem me fez essa sacanice um dia há-de pagar, se é que já não pagou. Não sou homem de guardar rancores. Sinto-me satisfeito comigo próprio e sinto-me, sobretudo, satisfeito com o que fiz. Como disse: continuo a viver em permanente insatisfação e continuo a ser muito ambicioso, por isso, não posso dizer venham daí os outros. Eu, de pantufas, dava em maluco!”
E hoje, fala-se em democracia, partidocracia, e pouco se fala de meritocracia…
“É o que somos! Somos o que somos, a culpa é nossa. Vivemos neste ambiente; criámos este espaço… é a vida! Eu subi sempre à minha custa, não precisei de ninguém para me ajudar a subir. Lutei! O desafio que faço às pessoas, sobretudo às novas gerações, é garra, determinação, muito trabalho e rodearem-se de pessoas com capacidade. Nunca tive medo de pessoas competentes, inteligentes. Procurava-os. Tenho medo é dos medíocres. Pessoas tacanhas, mesquinhas, perversas, hipócritas… é dessas que tenho medo!”
“HÁ MUITA GENTE QUE FALA COMIGO E O MEU NOME É «PRESIDENTE»”
Matosinhos é terra de boa gente…
“Sem dúvida! Boa gente.”
As campanhas eleitorais aqui são sempre muito animadas.
“Ultimamente, até nem por isso! Um pouco de folclore e tal. Mas, de resto, eram campanhas muito aguerridas… é verdade! Isso é bom, é uma caraterística. Mas, depois passa!”
E as pessoas não se esquecem da sua obra.
“As pessoas falam comigo quando passo por aí. Há muita gente que a mim se dirige e o meu nome é «presidente». Isso é uma maneira de reconhecimento, é uma homenagem de gratidão que respeito”.
É melhor que ter uma estátua?
“Nunca permiti que o meu nome aparecesse em lado algum., a não ser em placas de inaugurações, mas já as tiraram. As placas não contam para nada. Conta é o que fica e que transita de geração para geração”.
01jul20















É com enorme saudade que sinto a falta que o senhor Presidente faz a este Município.Obrigado
Admirei o trabalho de Narciso Miranda, sou de Amarante, Amarante estaria melhor com um presidente interventivo como ele. Parabéns pela entrevista !
Parabéns aos dois: ao Entrevistador e ao Entrevistado; perguntas pertinentes e um Grande Entrevistado a responder com sentido didático.
Não é necessário ter Cartão para se ser militante político; e, felizmente, há muitos matosinhenses que não esquecem o legado deixado por Narciso Miranda e, também, a sua Identidade..
Gostaria muito de o ver (mesmo sem ter Cartão) no desempenho de cargo onde as tarefas exigidas requeressem a elevada qualidade, do Cidadão que ele é, sustentada por uma experiência no terreno (que não tem de provar nada a ninguém) e um interesse pela análise política feita em malha fina, concordando-se, ou não, com ele.
É um desperdício não se aproveitar um Recurso Humano como Narciso Miranda.