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Uma sociedade (bem) casmurra

Miguel Correia

 

 

Demorei mais tempo que o habitual para escrever esta crónica. Não que tenha necessidade de me justificar – até porque não sou concorrente do “Big Brother” – porém admito que se torna quase impossível conseguir pressionar as teclas do computador, quando tenho os dedos queimados com tanta solução alcoólica aplicada!

Por estes dias as práticas de higiene estão em modo histérico e inclusive existem relatos preocupantes de ácaros e outros pequenos rastejantes que assistiram ao extermínio dos familiares. Sei que estar constantemente a abordar o tema da “Covid-19” parece um contrassenso: a malta anda bem mais limpinha, mas tem saudades de um passado, bem mais javardo. Estou solidário com todos os que sofrem de mau hálito e usam máscara facial durante horas a fio. Protege quem está em redor, é certo, mas é desumano para o próprio. A sociedade de Portugalinegrado tem passado por um processo de aprendizagem nunca antes visto. Isto não significa que, de facto, tenham aprendido alguma coisa, mas as regras estão lá!

O mesmo se aplica ao Código da Estrada: todos que possuem a habilitação para conduzir fartam-se de ignorar as regras básicas e, pasmem-se, ainda conseguem insultar todos aqueles que insistem em cumprir o que aprenderam! Talvez por este elevado grau de “chico-espertismo”, todos os anos o número de mortes na estrada aumenta e a culpa é sempre dos outros…

Atualmente, tudo se rege por condicionamentos e novas normas de convivência. Seja nas praias ou nos centros comerciais (shopping’s) existem regras de circulação para prevenção da propagação do vírus. E – mérito seja dado pelo esforço – houve malta, de rabo para o ar, a colocar no soalho setinhas, marquinhas e pezinhos para controlar o fluxo dos clientes.

Queria tanto escrever que a mensagem passou e que as pessoas perceberam a simbologia colada aos seus pés. Mas, não posso! A consciência deste nobre povo – que outrora descobriu novos mundos – deve estar perdida numa qualquer gaveta empoeirada e posso afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que é um orgulho verificar que (grande parte) não distingue o puxe do empurre e insistem em entrar pela saída! Atrevo-me a ir mais longe para afirmar que os seguranças nas lojas já não se preocupam com a gatunagem: passam a maior parte do turno a educar as pessoas que, por negligência ou rebeldia, tentam ludibriar as regras! O mesmo fenómeno que é verificado nas máscaras de proteção facial.

A malta – tal como aconteceu com o açambarcamento do papel higiénico – agora julga que o vírus ataca os queixos! É normal e corriqueiro ver que, a maior parte das gentes de Portugalinegrado, tem a máscara arrumadinha na zona do queixo e pescoço, quando deveria estar a tapar o nariz e boca! Mais uma vez, a elevada dose de civismo, impele a maioria a distorcer os propósitos de uma simples indicação. Vou arriscar tudo e deixar um pequeno alerta: tenham cuidado com o uso dos preservativos! Porque, tal como as máscaras, de nada servem quando não são usados no sítio certo…

 

Foto: pesquisa Bing

01jul20

 

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