Largas centenas de pessoas saíram à rua, na Trofa, na tarde do passado sábado, 27 de junho, participando num “mega buzinão e marcha lenta”, destinados a contestar a instalação de um aterro sanitário na freguesia de Covelas.
Já várias foram as iniciativas levadas a cabo, nesse sentido, por um grupo de contestatários, mas, a realizada no passado sábado (27jun20), reuniu, como nunca, as forças vivas da região, de bombeiros à própria Igreja – que se solidarizou com a iniciativa, através de toques a rebate, e não só – assim como de um número considerável de pessoas em protesto pelas artérias da cidade, alguns dos quais conduzindo tratores (40), oriundos das casas agrícolas de Covelas.
A prevista instalação de um aterro sanitário “é o principal foco desta revolta popular, pois a freguesia, onde o mesmo será construído (Covelas), já está fustigada por outro tipo de poluentes, nomeadamente, linhas de alta tensão, uma autoestrada (A3), uma linha férrea (que corta a freguesia a meio), gasodutos e diversas indústrias poluentes”, como salientam os contestatários.

De salientar, contudo, que essência da manifestação, e das iniciativas de protesto que lhe antecederam, surge depois do anúncio, feito a 19 de maio, à Lusa, por Sérgio Humberto, presidente da Câmara da Trofa, quanto à instalação do aterro sanitário, a troco de uma indemnização de 2 milhões de euros pagos pela empresa gestora de aterros Resinorte.
Uma semana e poucos dias depois, em comunicado assinado pelo executivo camarário, foi anunciado um recuo na pretensão da autarquia em patrocinar a instalação do aterro. Só que isso não foi suficiente para demover os protestos que, por essa altura, já tinha ganho expressão através do “Movimento contra o aterro em Covelas“.
Movimento, que já promoveu,desde então, duas manifestações, uma caminhada pelo Ambiente e uma sessão de esclarecimento, iniciativas essas que reuniram largas centenas de pessoas. De acordo com os contestatários, a instalação deste aterro servirá para “passar os resíduos de Valongo para uma nova célula no concelho da Trofa”, lê-se em comunicado.
Recorde-se, a propósito, que este jornal tem acompanhado, a par e passo, todo o processo e contestação da população de Sobrado (Valongo) quanto ao aterro lá existente e, essencialmente, pelos problemas ambientais pelo mesmo criado.
HUGO DEVEZAS: “COVELAS JÁ PAGOU A SUA FATURA AMBIENTAL!”
Em declarações ao “Etc e Tal”, Hugo Devezas, um dos promotores das referidas iniciativas de protesto contra a instalação do aterro sanitário em Covelas, começou por referir que “as pessoas de Covelas sentiram-se traídas na verdadeira aceção da palavra, a partir das declarações, tornadas públicas, pela Lusa, de Sérgio Humberto, presidente da Câmara da Trofa, dizendo que, já em 2021, o aterro ia avançar e que já tinha os pareceres favoráveis de todos. Depois, aparece uma gravação, que se torna público, de uma reunião secreta entre o executivo da Câmara com o representante da Resinorte e com os eleitos da freguesia de Covelas, e onde ele diz muito claramente que o Município da Trofa tem interesse na instalação do aterro”.
Segundo o nosso entrevistado, “a população nunca foi consultada sobre esta questão. Isto surgiu de um momento para ou outro. E, quando souberam, organizaram-se imediatamente. Organizaram um grupo de protesto contra o aterro, grupo que já tem cerca de 1300 pessoas, com a envolvência de todos os partidos políticos e da Igreja”.
O (importante) papel do padre Ramos
Sim, da Igreja que é caso raro por aquelas bandas envolver-se em situações de caráter público. O destaque vai todo para o papel do padre José Ramos.
“O padre José Ramos é extraordinário”, diz Hugo Devezas, que confessa “nunca esperar ver um padre a assumir este papel na, e de, luta. Ele diz que é o primeiro homem na frente da batalha. No fundo, ele tem uma dívida para com a população de Covelas, por ser pároco de lá, e, por questões meramente pessoais, quer agradecer a forma como lá foi recebido. É uma pessoa com muita consciência; que sabe muito bem o que está a dizer e isto tem entalado particularmente o Município da Trofa, porque não esperavam essa posição de um padre”.
“Nesta ação há gente de todos os partidos”
E ao padre juntam-se as casas de lavoura, bem como todas as forças vivas da região, que, por exemplo, e em outra iniciativa de protesto, como foi “a última caminhada”, constituíram “uma multidão”.
“Não esperávamos tanta adesão. Aliás, não temos um número em concreto sobre quantas as pessoas que da caminhada fizeram parte. Há quem fale em mais de mil”, referiu Hugo Devezas, para quem, “o nosso movimento tem tido a força mas também a consciência de se conseguir organizar e não deixando-se minar pelas forças políticas. Nesta ação há gente de todos os partidos.
“A maximização dos lucros sobrepõe-se aos valores locais”

Indo mais fundo na questão, vem ao de cima a “questão dos dinheiros”. Então, aí, os contestatários sabem bem que “os resíduos importados, e não só, depositados em aterro, dá mais que dinheiro. Aumentar os índices de reciclagem; a recolha seletiva; o tratamento mecânico e biológico, isso custa. Na nossa visão, e é a opinião de grande parte do nosso grupo, isto do tratamento de resíduos ser privatizado leva a uma perspetiva economicista da gestão de resíduos por parte de privados, olhando sempre para a maximização dos lucros que se sobrepõe aos valores locais.
“Sabemos”, continua Hugo Devezas, “que a eliminação de resíduos através de aterros, pressupõe impactos negativos ambientais como a população de Covelas há muito sabia, e por isso se organizou com tanta força: havia uma lixeira a céu aberto, que depois passou a aterro sanitário, que originava maus odores, com gaivotas, às centenas, no local. Aquilo era considerado o aterro de Santo Tirso, mas como não gostavam, diziam que era o aterro da Trofa, era sempre assim”.
“Não empurrem mais coisas para Covelas, porque a sua população sente-se trofense de segunda”

Covelas atem ainda outra questão, que é a relacionada com a “Savinorte, a antiga fábrica da tripa, que, apesar da situação estar muito melhor nos últimos dois, três anos, havia alturas em que ninguém podia por lá estar. Imagine quem vivia ali por perto. Era impossível estar no centro da Trofa quando o vento para lá empurrava os odores”.
Assim sendo, e para Hugo Devezas, “Covelas já pagou a sua fatura ambiental. Não empurrem para Covelas mais coisas, porque a sua população sente-se trofense de segunda, porque é preciso passar um gasoduto… passa por Covelas; uma linha de alta tensão… passa por Covelas. Esta população não é de forma alguma valorizada”.
Texto: José Gonçalves
Fotos: “Notícias da Trofa” (incluindo a de destaque), Hugo Devesas e pesquisa Google
01jul20


