Lurdes Pereira
(texto e fotos)
Serra da Pena, a estrada parece não levar a lado nenhum. Mas, tal como a sua estória, há uma imponente ruína com vestígios de contos de fadas.
O carro galgou o duvidoso estradão de terra batida para chegar a um lugar que parecia estar acompanhado do vazio profundo. No primeiro impacto, já na receção, durante um check in imaginário, já o olhar assaltava a ruína cuja arquitetura, tão interessante, fazia lembrar um castelo, guardião de estórias de encantar. Contou-nos a nossa infância que as histórias onde há castelos também existem princesas e fadas e têm um final feliz, mas nem tudo é como gostaríamos.
Hotel Águas de Radium começa a sua história no séc. XX. Conta-se, por testemunhos orais, que Dom Rodrigo, um conde espanhol, terá curado a sua filha que padecia de um grave problema de pele naquelas que, mais tarde, se vinham a chamar de fontes milagrosas ou fontes santas. A cura da filha foi motivo mais que suficiente para mandar erigir um hotel no interior da Serra da Pena.
O edifício, erigido em pedra granítica, parece inspirado num castelo de luxo. Elegante, majestoso cujas esguias e imponentes chaminés parecem ter o céu como limite.
Se havia luxo no seu interior, agora quase impercetível, é recolhido no olhar das cameras ao registar pequenos pormenores que vão sobrando pelo chão, paredes e tetos. Os vários edifícios já não conseguem, nem lembram os anos glamorosos que proporcionava aos que ali vinham comprar um pouco mais de saúde.
Naquele tempo, médicos e cientistas tinham provas de que a radioatividade era uma benção que se misturava nas águas das três fontes milagrosas. Os tratamentos eram simples: banhos, ingestões de controladas doses de água e tratamentos com lamas. E assim foi, até aos anos 40 do séc. XX, tudo corria de vento em popa. O sucesso garantido para resolver problemas de saúde era o sucesso do grande hotel. A radioatividade era solução para muitos problemas, era um milagre!
Mas, no início dos anos 40, durante a segunda Guerra Mundial, a maldição é lançada com a bomba atómica que arrastava o novo conhecimento sobre os verdadeiros e nefastos poderes da radioatividade. Tal como a bomba rapidamente acabaram as exportações da água engarrafada e dos prodigiosos tratamentos nas termas do hotel.
Se havia promessa de cura, havia o tribunal da razão científica que terminava a sessão condenando-o à pena máxima. O remédio da cura era o constante envenenamento de um erro científico que confirma a maldição. De mão em mão, de dono em dono, o complexo é vendido, é leiloado sem outra fortuna lhe tocar. Há várias décadas em ruínas, rendido à sorte, a desaparecer aos poucos, exposto aos assaltos dos olhares curiosos que, como eu, são fascinados em ruínas cuja geografia ainda permite um registo de dignidade.
Na verdade, há lugares, embora belos, parecem mergulhados num sono tão profundo que se esquecem de si mesmos, que definham doenças sem cura, que morreram esquecidos, abandonados à sorte deixando cair os últimos pedaços de história.
O Hotel finou-se em si mesmo, esqueceu tudo e todos, cavou a sua própria sepultura. Aqui se forma um cemitério de pedras, coroado por um enorme círculo de céu onde não há amnistia que o acuda da eterna agonia.
Assim, no chão da Pena nasceu, no berço de um milagre, uma bela instância de tratamento balnear de luxo, tão rica, mas que chora escoriações que nem as águas milagrosas conseguem curar. Deambulando como um fantasma, o abandonado está à espera de alguém que aqui venha cura-lo deste profundo karma.
01ago20












Obrigada Teresa pelo interesse demonstrado por estes pequenos núcleos museológicos.
Que pena ninguém dar nova vida a uma construção desta beleza, e manter-lhes viva as memórias. Como sempre, e já nos vem habituando, belas fotografias e belo texto. Locais pouco conhecidos, lendas, estórias.