Maria de Lourdes dos Anjos
Maio– aí está o mês de maio. O meu tempo de nascer de novo em cada ano que passa. O tempo de recordar as Mães que me deram colo, as Marias com quem partilhei a vida e o perfume forte das maias. Aí está maio, perfumado, atrevido, vaidoso e convencido que é o mais bonito de todos os irmãos. E foi. Foi lindo esse maio primeiro que uniu as vozes deste povo nas praças, sem bandeiras e inteiro no sonho de liberdade. Foi lindo o 1º primeiro de maio, quando nas praças todos sorriam a todos e todos fomos um só.
Foi lindo esse tempo de esperança , esse dia de sol… já lá vão 40 anos.
Foi lindo. Maio foi lindo!

Maias– ei-las, as maias. As maias de amarelas flores que enchem o norte de cor e fazem inveja às papoilas vermelhas do Alentejo. Gosto do seu perfume forte, mesmo forte, sem meias medidas nem meias tintas, à nossa moda. Gosto da sua forma arredondada parecendo contas dum rosário onde se reza pela mãe natureza, pela primavera sempre em festa, pela fertilização das terras que serão o celeiro do povo que respeita o seu chão e acredita no seu céu.
Mãe – aí está o mês da minha mãe. O meu, o seu, o nosso mês, minha mãe. Hoje, neste ano, apesar dos meus 64 anos e dos seus 94, ainda sei que sou a sua filha mais nova, a que lhe copiou o rosto e os gestos, a luta e a vontade de estar e morrer de pé. Livre e verdadeira até ao fim; certa nos passos e certeira nos tiros que teve de dar para viver em paz com a alma inquieta que tem.
Mãe, a minha mãe que há dias, há poucos dias, no Hospital de Santo António, recusou um tratamento doloroso que lhe daria mais e melhor vida mas que a privava de falar durante muitas horas diárias. Disse ao médico que rejeitava aquele aparelho porque queria morrer em liberdade. Chamadas as filhas, apenas nos disseram que tanta inteligência e tanta lucidez proibiam o médico de usar tal tratamento e não permitiam que as filhas fossem suas tutoras. Morreria mais cedo, mas livre porque era a sua vontade. A minha mãe lutadora até ao fim.

Uma das pessoas de quem me orgulho muito. Como deve estar sorrindo o meu pai, e repetindo para os seus vizinhos de “habitação” que realmente ela foi a mulher mais linda que ele conheceu. Obrigada minha mãe. Amo-a muito mas ainda tenho vergonha de lhe dizer isto assim… olhando-a nos olhos. Esses olhos cor de mar que as bisnetas reclamam como herança.
Marias – o mês das Marias mulheres, mães e amantes. Das Marias cristãs e das outras que nunca aprenderam a escrever o nome do homem que “enganou” uma outra Maria e partiu, silenciosa e cobardemente.
Maria de Jesus Loureiro, a minha Maria, a minha velha ama, a mulher que sempre desafiou a autoridade da minha mãe, quando me deixava sujar na relva e na terra do quintal ou me mandava dar uma mijadela trás das dálias, “sem a mãe ver, para não ralhar uma tarde inteira”, como se fosse uma madrasta velhaca. A companheira de um homem enlouquecido pelos gazes da 1ª guerra mundial, empregada às tardes na casa dos meus pais, anjo protetor nas horas de guerra maternal, senhora do seu nariz quando a julgavam pela sua humilde condição financeira, mulher com todas as letras da palavra coragem e também carrejona de serviço de muitas oficinas da rua do Bonfim, transportando fardos enormes à cabeça para a estação de Campanhã ou para as carreiras de Braga para ganhar mais uns tostões que pagassem a renda da casita que habitava numa ilha que tinha o nome do sua cruz: A “Ilha” do Esgazeado.

Maria, a nossa Miquinhas, que arregalava os olhos sempre que lhe cheirava a meia sêmea com fígado de cebolada empurrada por uma pinga verde branco fresquinho, na hora do lanche.
Maria, Miquinhas – a mulher pequenina de corpo mas de enorme alma que não gostava de usar cuecas porque era moda das senhorecas e o seu pássaro não era de gaiola…era livre! A mesma Maria que se recusou morrer, também no Hospital de Santo António, antes nascer o meu filho. Queria vê-lo, pegar-lhe ao colo e saber que ele ia dizer o nome dela, um dia qualquer! Maria, a mulher que nunca deixou vago o canto aconchegado que conquistou no meu coração.
Maio, Maias, Mãe e Marias. Mês de maravilhosas memórias…
MAIO SONHO DE ABRIL
Ser Livre é olhar-me e saber que estou vestida de verdade
Saber que o limite não se mede a palmo ou passo corrido
É sentir que o horizonte está lá, livre d’ algemas ou grade
É sorrir-te, Vida, porque o caminho se faz dever cumprido
Liberdade é crescer e subir sem magoar quem vem atrás
É tentar que os muros não sirvam para encarcerar ou proibir
É aprender a escrever versos prenhes de justiça, e paz
É negar meia gente ou meio pão e ajudar a erguer e construir
Ser Livre é lutar pelos valores, em que , verdadeiramente, acredito
É , sem favor, merecer, dia a dia, a tua confiança e a tua amizade
É, corajosamente, continuar a ser o meu , o teu, o nosso grito
É acreditar que damos corpo e voz a um sonho de Liberdade.
EM MAIO VAMOS ANDAR POR ESTAS BANDAS A SEMEAR POESIA
Dia 3– Casa da Cultura de Paranhos -16h00
Dia 3-Centro Recreativo de Mafamude- 22h00
Dia 7-Centro de Dia da Arrábida- Lordelo do Ouro -15h00
Dia 9– Encontro “Amigos das Tasquinhas” do Porto – Casa do Padrão – R. Sto Ildefonso -21h30
Dia 10 –Estudos Brasileiros – ED. Pinto Leite 6º andar-16h00
Dia 16 – Flor de Infesta-21h30
Dia 17– Galeria Vieira Portuense- Largo dos Lóios-16h00
Dia 18 – Casa de Chá 3×13- Foz do Douro-16h00
Dia 30 – Igreja das Sete Bicas – Senhora da Hora-21h00
Dia 31– Apresentação do livro de Kim Berlusa, na Casa da Cultura de Paranhos-16h
Dia 31– Universidade Sénior de Gondomar-21,30h
Fotos: Pesquisa Google
01mai14


O e-mail acima transcrito é da autoria de Celeste Reis. Por esquecimento não foi colocado na “carta”.
(enviado por e-mail e escrito à 1h30) Transcrevo:
Querida amiga. Não me encontro em Portugal. Gostaria de estar muito consigo, de a conhecer, porque temos as tripas no sítio… carago! Okhe e foi com muitos caragos que conheci o Zé… o seu amigo (porque sei que é)Zé Gonçalves. Um dia vou dar-lhe um beijinho, um beijinho daqueles que só quem é do Porto sabe entender.
Cara amiga, acredite neste projeto, porque já acreditou no meu amigo. Li este jornal e li também a entrevista do senhor Coronel e comentário que ele fez. É admirável esta gente que faz parte desta equipa.
Doutora Maria de Lourdes a minha careta é a mesma, não a conheço, mas eu conheço a sua… e gosto dela! Obrigado por cá longe ter acesso direto à minha terra, ao meu Porto, à minha gente. Obrigado Zé por teres criado este projeto.
Maria… até um dia!
Celeste, gosto de pessoas inteiras, com opinião e sem meias verdades.Porque razão “não irei com a sua careta”!? Um dia destes vamos tomar um café , dar duas de letra e ver a nossa careta…PODE SER CELESTE? TOME LÁ ESTE MEU TRIPEIRÍSSIMO ABRAÇO…E TÁ DITO.
Parabéns senhora doutora. Admiro-a muito, mas às vezes, quando não concordo consigo, não concordo, e pronto! Mas gosto muito de si, mesmo que só a conhecendo – e isso é importante – pelas palavras que nos transmite. Você é capaz de não ir muito com a minha “careta”, mas eu sou assim e gosto do que escreve. Tá dito!