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Sexta edição do Festival Literário de Ovar fez “Uma Homenagem a Amália”

Decorreu na segunda semana de setembro, dos dias 9 a 13, a 6.ª edição do Festival Literário de Ovar (FLO), organizado pela Câmara Municipal de Ovar, com a habitual programação de conteúdos literários do escritor ovarense, Carlos Nuno Granja, para quem o FLO, “tem, desde o seu início, uma vertente alternativa,” porque, como lembrou, “sempre conjugou nomes consagrados da literatura com nomes emergentes. Sempre teve o condão de aproximar os escritores e os leitores, de transformar as relações distantes na proximidade que a leitura representa, pois o livro é um elo de ligação que une duas pessoas através das histórias e dos sentimentos que se criam.” A exemplo de momentos marcantes, como o partilhado em “Uma Homenagem a Amália”.

 

José Lopes

(texto e foto)

 

Carlos Nuno Granja, referiu ainda que, “em tempos muito complicados, de uma pandemia que compromete a essência da humanidade, não podemos baixar os braços.” Repto lançado, “num período ainda atípico, e de grandes condicionalismos,” como também realçou o presidente do Município, Salvador Malheiro, garantindo, obviamente, “o cumprimento de todas as orientações e normas da DGS, de forma a salvaguardar a saúde pública de todos os intervenientes.” Numa edição do FLO, que mantendo a sua identidade e dinâmica, surgiu num formato mais descentralizado (Centro de Artes de Ovar, Escola de Artes e Ofícios, Biblioteca Municipal de Ovar, Polo de Capitação e Inovação Social de S. João de Ovar, Auditório da Junta de Freguesia de Cortegaça, Auditório da Junta de Freguesia de Esmoriz, Museu Júlio Dinis. Não tendo, como vinha sendo habitual, o Jardim Cáster como palco principal.

Com oito “mesas” de conversas entre escritores e o público, inauguradas na sessão de abertura do FLO no Centro de Artes de Ovar (CAO), com Francisco Moita Flores, e moderadora Manuella Bezerra de Melo, a que se seguiram poemas com voz de Luís Portugal, e Rui Vilhena (Vozes da Rádio) e Ricardo Coelho.

Vários outros escritores e críticos literários se deslocaram a Ovar, para durante cinco dias participarem nas conversas, apresentações de livros ou sessões de autógrafos, como: Gonçalo M. Tavares, Pedro Guilherme Moreira, João Rasteiro, António Carlos Cortez, Ângela Almeida, Cláudia Andrade, Sara F. Costa, Luís Filipe Sarmento, Miguel Carvalho e Carlos Nuno Granja.

O escritor da terra, persistente entusiasta deste projeto literário com uma programação abrangente que incluiu, a Poesia, Teatro, Música, Contos, Conversas, Oficinas (escrita e imaginação, ilustração) e Visitas Guiadas e encenadas no Museu Júlio Dinis, J. D. Regressa a Ovar com Leandro Ribeiro e visita orientada à Exposição Onde a Erva Murmura de Ana Torrie.

Para a última “mesa” de conversas deste FLO a surpresa foi “Uma Homenagem a Amália”, que juntou no palco do CAO, Miguel Carvalho, autor do livro de investigação jornalística, “Amália – Ditadura e Revolução (a História Secreta)”, e o realizador de cinema, Lauro António, com obras cinematográficas como, “Manhã Submersa” ou o “Vestido de Fogo”.

Uma conversa moderada por Marcelo Teixeira, que, proporcionou ao público presente episódios da vida de Amália Rodrigues, segundo testemunhos de Lauro António que com a fadista conviveu profissionalmente, bem como, elementos da investigação jornalística de Miguel Carvalho sobre a diva do fado entre a Ditadura e a Revolução, em que foi acusada de servir o regime, sendo por isso perseguida e ostracizada no pós 25 de Abril, como lembrou o autor do livro, que também falou do seu envolvimento no apoio financeiro a presos políticos, até reconquistar finalmente o reconhecimento como voz de Portugal no Mundo.

Projeto que lhe permitiu reunir perto de uma centena de entrevistas e depoimentos exclusivos da fadista, reconheceu ainda este jornalista da Visão, para quem foi determinante a influência do disco “Fado Bailado” de Rão Kyao.

“Uma Homenagem a Amália”, no programa de encerramento do FLO, merecia uma plateia bem mais preenchida, mesmo com as medidas de distanciamento físico estabelecidas no Auditório do CAO. Mas para quem teve o privilégio de participar, o momento foi de grande intensidade e profundidade, tão pouco habitual nestes tempos de medo e populismos. Falar de Amália, segundo Lauro António, que teve pena de não trabalhar com a fadista, porque, “dava uma boa atriz”, foi falar do Fado, que na opinião deste realizador de cinema, “não era muito bem visto pelo Estado Novo”, que se aproveitou da fama internacional da artista.

Mas, falar da Amália Rodrigues e do processo de investigação jornalística que deu origem à obra da autoria de Miguel Carvalho, é ainda na sua opinião, “uma obra inacabada”, e acrescentou, “é o meu contributo a partir do jornalismo”, uma vez que, como reconheceu, “há projetos em curso por outros autores”. Este jornalista desabafou mesmo a sua admiração, “por a Amália estar tão mal tratada pela Academia”, concluindo que “ainda há muito para andar e descobrir”.

Para a sessão de encerramento de mais uma edição do FLO e com uma plateia bem mais preenchida, depois da experiencia descentralizada pelo concelho de Ovar. Subiram ao palco do CAO Pedro Lamares e Rui David, para o espetáculo “Como se Desenha Uma Casa” a partir do livro de poemas de Manuel António Pina, que, como foram partilhando no diálogo com o publico, é ponto de partida deste projeto de amizades e afinidades entre vários artistas, que se podem encontrar em casa ou nos bares, para dizer poemas, tocar, cantar, com muitas conversas que vão consolidando esta casa, desenhada de amigos, ideias, poemas e utopias. Uma casa de paixão e encontros do mundo, desenhada em pleno palco, por entre música e poesia com Pedro Lamares e Rui David, que sem medo ou tabus afirmaram, “há racismo…” em Portugal.

Por entre a conversa, a música e a poesia que brindou este encerramento do FLO, destacaram-se textos poéticos de Filipa Leal, Mário Cesariny, Vasco Gato, Herberto Hélder, Ana Luísa Amaral, José Régio, Sophia de Mello Breyner, Carlos Drummond de Andrade ou Manuel António Pina, que embalaram, mas também inquietaram e despertaram para tantas realidades, económicas, sociais e politicas que vivemos, tão cantadas pelo Zeca, Fausto, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Vitorino, ou Chico Buarque, que inspiraram o alinhamento do espetáculo “Como se Desenha Uma Casa”.

Uma extraordinária aposta da programação da 6.ª edição do FLO, que, como tinha afirmado Carlos Nuno Granja num agradecimento inicial a todos que fizeram ser possível o Festival Literário, “Fazemos acontecer. Agora está do lado da comunidade, façam acontecer, porque valer a pena vale sempre.”

 

01out20

 

 

 

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