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Segundo Rui Moreira: 100 mil visitaram a edição da Feira do Livro do Porto de 2020

Embora não tenhamos conhecimento do balanço final oficial da Feira do Livro do Porto de 2020, tendo em conta as declarações do presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, a uma rádio, e reproduzidas pelo “Porto.”, o evento terá tido “qualquer coisa como 100 mil visitantes, o que é extraordinário na circunstância atual”.

Rui Moreira começou por confidenciar que a organização do certame nunca esteve em causa. “Definimos este horizonte, apontamos para lá a bússola e felizmente conseguimos fazê-lo”, regozijou-se. Recordando que o Porto foi um dos primeiros municípios a encerrar as atividades culturais com contacto social devido à pandemia, o presidente da Câmara estabeleceu, já nessa altura, “objetivos e uma ambição”. Ambição essa que passava pelo “regresso à atividade cultural e ao contacto social com a Feira do Livro”, referiu.

“Fizemo-lo pesando e sopesando um conjunto de circunstâncias. Em primeiro lugar, sabemos que ela decorre num espaço público, mas apesar disso é um espaço vedado, com condições para garantir o controlo do número de visitantes. Ao mesmo tempo, a Feira do Livro tem uma característica diferente de qualquer outro programa cultural da Câmara, porque é mais transversal, temos música, poesia, leitura, mas temos também a atividade comercial ligada ao livro. Pressentíamos já na altura que iria ser um setor muito fortemente afetado”, continuou, sublinhando que neste processo os expositores depositaram “total confiança” no Município.

Os resultados, congratulou-se Rui Moreira, estão há vista. “Acho que foi a vez em que a Feira foi melhor promovida, porque também não podia falhar. E também a própria magia do espaço ajudou. Não é um espaço ignoto”.

Feita em condições muito particulares e difíceis, com limitação de entradas, criação de circuitos e sinalética especial, o coordenador programático reforçou uma mensagem de Rui Moreira. “Queremos que este evento seja um horizonte de esperança”, citou, lembrando que essa mensagem se dirige a todos, mas particularmente aos livreiros, editores, alfarrabistas, mas também, e em especial, aos músicos.

“Lembro os Concertos de Bolso, programados pelos Maus Hábitos, uma das novidades desta edição, como incentivo para que estas bandas possam continuar a tocar e sintam que são desejadas”, destacou Nuno Faria.

O QUE MUDOU EM SETE ANOS

Foto: Miguel Nogueira (Porto.)

O festival literário, que é hoje um dado adquirido para a cidade, resultou de um modelo de organização implementado pela Câmara do Porto há apenas sete anos.

“Quando cá chegámos em 2013 não havia Feira do Livro há dois anos. Tinha-se feito um evento mais ou menos semelhante, na Avenida dos Aliados, mas que de facto não tinha nenhum conteúdo cultural. Era, digamos, uma exposição de livros à venda”, descreveu Rui Moreira, que recordou a rutura entre o Executivo Municipal do antecessor, Rui Rio, e a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros).

“Herdei essa situação de conflito e tentei resolvê-la com o vereador Paulo Cunha e Silva”. As negociações seguiram-se e estaria tudo liminarmente acertado para a APEL realizar a Feira do Livro na Rotunda da Boavista, algo que pessoalmente até nem agradava ao autarca, confessou.

Mas houve um volte-face. “A APEL veio subitamente rasgar o acordo, pois considerou que a pessoa que a representava não estava habilitada a tomar decisões. Em sequência disso, a APEL apresentou ao Município condições supervenientes que eu não poderia, de todo, aceitar”, afirmou.

“Pareceu-me falta de educação e de princípio. Mas pareceu-me também, ao mesmo tempo, que nos dava a possibilidade de nos libertarmos definitivamente dessa tutela”, partilhou o presidente da Câmara, fazendo a este propósito a “ficha de cadastro” desta entidade.

“A APEL é uma associação muito respeitável, mas que representa as grandes editoras, com muito pouco impacto junto dos mais pequenos, dos independentes, com uma visão muito restrita relativamente aos alfarrabistas, que são muito importantes na cidade. Basta perceber que estamos a celebrar 1820 e perceber a importância que já tinham nessa altura”, sustentou o presidente da Câmara.

“Arriscámos. Percebemos que tínhamos a antiga Porto Lazer, agora empresa municipal Ágora, que sabia montar eventos, e que a fazer uma coisa, teria de ser diferente, que no fundo acrescentasse”, referiu o autarca, confidenciando que sempre teve a predileção pelos Jardins no Palácio de Cristal para o local de acolhimento do certame.

“No fundo, queríamos um festival cultural, porque, hoje em dia, os hipermercados são feiras do livro tradicionais”, constatou. A data do evento também foi alterada. “Mudamos de data, de junho para setembro. Fazer isto no fim do verão julgo que era altura interessante, de regresso às aulas, mas que ainda com algum tempo livre para as famílias”.

Num ano atípico também pela ausência de chuva, Nuno Faria destacou “as duas grandes linhas de rumo desta edição. A primeira, “o esquecimento”, espelhado na escolha da poeta homenageada, Leonor de Almeida, “que caiu um pouco no esquecimento e nas malhas da história, mas foi resgatada e reinscrita na contemporaneidade através de duas edições, resultantes do trabalho maravilhoso de Cláudia Clemente”, sublinhou o coordenador.

E, o segundo mote, intrinsecamente ligado ao anterior, erigido “pela insurreição e sublevação” do 1820. “O programa foi interrompido e tomámos a decisão de retomá-lo na Feira do Livro”, assinalou Nuno Faria, que considerou ser este um “ano horribilis”, recordando que a celebração das comemorações dos 200 anos da Revolução Liberal, sob a égide de Pedro Baptista, pensador e professor, iniciou precisamente no dia em que o pensador e professor faleceu.

Rui Moreira aproveitou a reflexão em torno do esquecimento e de 1820 para constatar que “Portugal tem uma grande dificuldade em não esquecer. Conseguimos rapidamente esquecer, mas não sei se perdoamos. Mas há uma desvantagem porque perdemos muita coisa pelo caminho. Quando esquecemos os nossos, esquecemos as referências, é uma parte de nós que desaparece”, lamentou.

Exemplificou esta ideia, com o percurso da homenageada deste ano “Com a Leonor de Almeida, cuja investigação de Cláudia Clemente a Câmara do Porto patrocinou, conseguimos de facto perceber que havia uma grande poeta, que tinha-se esfumado, um pouco por sua vontade, mas também um pouco por todos nós”.

Por outro lado, pensar a Revolução Liberal do Porto neste ano foi também marcante, considerou o autarca. “1820 é um momento de grande cidadania, momento talvez fundador para o muito que depois sucedeu em Portugal. A Feira do Livro onde naturalmente já iríamos tratar 1820, com a apneia que sucedeu no Porto e no mundo, deu-nos a oportunidade de concentrar aqui muitas das atividades que tínhamos pensado. Acho, de facto, que o livro do Prof. Lopes Cordeiro vai ser recordado e, acima de tudo, não vai permitir que se esqueça aquilo que foi 1820”, referiu Rui Moreira aluindo à obra que pode ser vista na exposição da Casa do Infante.

“Ainda ontem falava disso [na sessão das Conversa situadas “Poder & Poderes”]. Quando percebemos hoje a limitação de poderes enquanto cidadãos e eleitores (…) Comparado com o que se passava há 30/40 anos atrás, hoje temos menos mão no nosso destino. O nosso destino envolve agora o futuro, o dos nossos filhos e o dos nossos netos”, concluiu o presidente da Câmara do Porto.

Foi dado à escrita e à escuta; à palavra dita ou palavra soprada”, celebrou-se ainda a poesia, “sobretudo a escrita por mulheres”, completou, por seu turno, Nuno Faria, que neste relacionamento da escuta com a memória, ressalta “entendimento e tolerância”, valores matriciais que distinguem a Feira do Livro do Porto no panorama cultural nacional e que a vão continuar a identificar como única no ano que vem, que vai homenagear Júlio Dinis.

 

Texto: Porto. / Etc e Tal jornal

Fotos: Francisco Teixeira

 

01out20

 

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