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A morte do Padre Manuel Pires Bastos vítima da Covid-19 deixou Ovar e o seu património cultural mais pobre

Quando todas as espectativas coletivas e espirituais de uma comunidade, estavam concentradas na estabilização e recuperação do estado de saúde do Padre Manuel Pires Bastos, depois de quinze dias de internamento como doente positivo da Covid-19, o Sacerdote da Paróquia de S. Cristóvão de Ovar, com 85 anos, e infeções pulmonares que deram origem ao seu internamento (28 de outubro) no Hospital S. Sebastião, em Santa Maria da Feira, acabou por ser mais uma vítima mortal (7 novembro) desta pandemia, que deixou Ovar e o seu património cultural mais pobre.

 

José Lopes

(texto e fotos)

 

Foi assim com profunda consternação que a comunidade ovarense reagiu, neste momento de dor e luto, à perda de um humanista como o Padre Pires Bastos, que serviu incansavelmente aos vários níveis de intervenção social, paroquial, cultural e associativo, de dedicação a tempo inteiro a crentes e não crentes, cujas memórias de um homem que sempre lutou por tudo o que diz respeito à cultura e tradições de Ovar, são obra a perpetuar como expressão das muitas mensagens de instituições e cidadãos, para quem Ovar ficou mais pobre em termos humanos e culturais.

Das muitas mensagens e recordações em memória do Padre Pires Bastos, destacam-se ainda, os tempos de “transformações sociais depois de 25 de abril”, como realça Hélder Ventura, arquiteto, na sua página facebook, em que afirma: “(…) foi importante conhecer uma pessoa assim e foi mais importante para Ovar ter encontrado este Padre Jesuíta, sempre junto do Povo e abrindo a Igreja aos novos tempos. E na Troupe de Reis da JOC, que tanta falta nos fazem os ensaios que agora estariam a decorrer não fosse a pandemia que o levou cedo demais, esse encontro anual de proximidade que me trazia paz e alento, todos vamos sentir a perda, a sua ausência, pois as inúmeras histórias que nos deixou nunca mais se repetirão. Ficam as memórias, ficam as letras e fica a música, música que ele praticava e admirava. O seu legado é imenso, a Paróquia sabe-o melhor do que eu. Um homem culto. Um Amigo. Como estou triste”.

A Câmara Municipal de Ovar decretou dia de Luto Municipal (9 de novembro) pelo falecimento do Padre Manuel Pires Bastos, “acolhendo a expressão do sentimento e profundo pesar do Povo Vareiro” e “pela irreparável perda humana, paroquial, institucional, social e cultural”. “Dimensão humanista”, que, como também escreveu Vítor Amaral, empresário e ex-vereador, “Ovar saberá prestar-lhe a homenagem que ele tanto merece e essa será a ocasião ideal. Essa homenagem não deverá ser apenas da paróquia, mas da sociedade civil, representada pela autarquia. Assim espero e desejo que aconteça”, tratando-se, como afirmou o Executivo e a Assembleia da União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e São Vicente de Pereira, de uma “Figura marcante da vida religiosa, social e cultural vareira”.

O movimento associativo e cultural de Ovar manifestou profundo pesar pelo falecimento do Padre Pires Bastos e a sua relação do teatro à música. A Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar – Contacto, de que era Membro Honorário, lembrou que, “foi uma das primeiras pessoas a apoiar a nossa Companhia, abrindo-nos as portas do Salão Paroquial e divulgando as nossas iniciativas através do Jornal «João Semana». Era um grande amigo e conselheiro. Um homem do Teatro, da Música, das Letras, do Jornalismo, da História, das Tradições e da Cultura em geral. Com a sua partida, Ovar ficou mais triste e mais pobre. Será sempre reconhecido pelos altos valores que cultivou e por todas as obras que nos legou”.

Para as instituições representativas de um valioso património cultural como são as características Banda Nova e Banda Velha, o Padre Pires Bastos, é lembrado como, “aquele que sempre foi um homem de cultura, promotor do ensino da música e sobretudo um profundo admirador da Filarmonia”. Realçou a Banda Filarmónica Ovarense. Enquanto a Sociedade Musical Boa União agradeceu, “toda a sua contribuição na cultura musical, tanto com as bandas Filarmónicas como o Cantar dos Reis…”.

Nestas manifestações de luto, o Orfeão de Ovar, uma instituição com tradições no teatro e na música, sublinhou que, “para além da sua função de sacerdote, o Sr. Padre Bastos participava em muitas iniciativas culturais, às quais ficará ligado de forma indelével”, acrescentando que, “perde-se um Homem de cultura, posta ao serviço, com grande dedicação, da terra que o recebeu. Ovar está mais pobre”.

Mais pobre ficou igualmente Oliveira de Azeméis, em que o Padre Pires Bastos nasceu no dia 7 de maio de 1935, na freguesia de Loureiro. A Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, considerou tratar-se de, “um dos maiores conhecedores da nossa história local e regional, autor de diversos livros e muitos artigos em jornais e revistas da região”, destacando mesmo que, “conhecia como ninguém a vida e obra do grande clérigo português do século XVIII, D. Frei Caetano Brandão, também ele Loureirense, que se destacou como Bispo de Belém do Pará e Arcebispo de Braga”.

Como Jornalista Equiparado, o jornalismo seria mesmo uma das atividades desenvolvidas para além da atividade pastoral do Padre Pires Bastos, que colaborava em jornais regionais, como no extinto diário católico “Novidades”, exerceu funções de chefe de redação do jornal “Correio de Azeméis”, foi um dos fundadores da rádio “Antena Vareira” em que colaborava, e desde 1976 era o responsável do quinzenário paroquial “João Semana”, que completou 100 anos em 2014, do qual passou a Diretor em 2000, sendo impulsionador da transformação deste jornal que passou a assumir um carater mais noticioso, tendo como diretor-adjunto o jornalista Fernando Pinto.

Nomeado pároco de S. Cristóvão de Ovar desde 7 de dezembro de 1975, as atividades deste Reverendo no seio da comunidade, destacaram-se também no campo da música e das letras, como a dinamização da Troupe de Reis da JOC/LOC (autor das letras, depois de vários anos em que eram da autoria de Zé da Vesga) e sua publicação anual, a revista “Reis”, ambas com mais de meio século, que muito engrandeceram a tradição de Ovar do Cantar dos Reis.

Licenciado em Ciências Históricas, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a história local revelou-se uma das paixões do Padre Pires Bastos, que colaborava ainda com a Divisão de Cultura, Biblioteca e Património Histórico da Câmara Municipal de Ovar, publicando com regularidade, artigos do maior interesse, que são referência de investigação, destacando-se os livros, que foram igualmente outras das vertentes marcantes no capítulo da investigação do património histórico e cultural, como o exemplo da obra da sua autoria, “Banda de Música de Loureiro – Uma Banda Centenária”. Um livro que como nos disse Joaquim Fidalgo (historiador), dificilmente poderia ser escrito por outra pessoa, tal era o conhecimento e o material reunido na sua própria família sobre esta Banda, da qual o seu pai Manuel Maria Pereira Bastos, tinha sido membro. Entre os projetos de investigação sobre património histórico que tinha em meios, ficou por publicar um livro sobre levantamento dos Moinhos de Oliveira de Azeméis, para o qual, Joaquim Fidalgo, sempre que nas suas específicas investigações encontrava “acentos” sobre famílias de moleiros que se cruzaram nos últimos séculos entre Loureiro e Ovar, colaborava, cedendo tais elementos de pesquisa ao Pároco de Ovar.

ELEMENTOS DA BIOGRAFIA DO PADRE MANUEL PIRES BASTOS

Filho de Manuel Maria Pereira Bastos e de Rosa Alves Pires, Manuel Pires Bastos, “entrou para o seminário de Trancoso, Vila Nova de Gaia (Sagrado Coração de Jesus), em 1946, com 11 anos de idade”. (Ovarmemorias, segundo elementos da biografia do Pároco de Ovar publicada em Paroquiaovar.blogspot.com). “A sua ordenação foi a 3 de Agosto de 1958 na Sé Catedral do Porto (realizada por D. António Ferreira Gomes), celebrando depois a sua Missa Nova em Loureiro a 15 de Agosto, na Igreja Paroquial de S. João Baptista. O seu primeiro serviço eclesial foi na paróquia de Santo Tirso, onde exerceu as funções de Coadjutor da paróquia, tendo também neste período (1960/61) sido Assistente Diocesano Adjunto da Juventude Operária Católica. Entre 1961 e 1975 regressou ao “seu” Concelho para paroquiar a freguesia de Macinhata da Seixa, época em que fez parte da Comissão da Música Sacra do Porto e lecionou Religião e Moral na Escola Comercial e Industrial de Oliveira de Azeméis”.

Após o 25 de Abril de 1974, e já após o 25 de Novembro de 1975, “é chamado a desempenhar funções noutra paróquia, agora na de Ovar, onde também leccionou no Liceu local de Júlio Diniz. Tirou entretanto a licenciatura em história, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ao longo dos anos tem desempenhado o cargo de Assistente Espiritual de Movimentos Católicos, os Cursilhos de Cristandade, as Equipas de Nossa Senhora, os Cursos de Preparação para o Matrimónio, entre outros”.

Pároco de Ovar desde 7 de dezembro de 1975, em 2008, celebrou as bodas de Ouro Sacerdotais, tendo então sido agraciado pela Câmara Municipal de Ovar com a Medalha de Mérito Municipal Ouro. Em 7 de dezembro assinalaria 45 anos de pastoralidade.

Ainda na sua intervenção social, em 2009, e em conjunto com um grupo de voluntários da Paróquia de São Cristóvão, criou o projeto Mãos Solidárias, visando fornecer ao meio-dia, de segunda-feira a sábado, uma sopa diária e um suplemento alimentar a pessoas ou agregados familiares mais vulneráveis. Um projeto que se reveste hoje de grande importância social, tendo tido um papel crucial no pico da Pandemia COVID-19, e que se mantêm na atual fase da pandemia, razão pela qual foi distinguido, pela Câmara Municipal, em 25 de julho do corrente ano, com a Medalha de Mérito Municipal Cobre.

PALAVRAS DE UMA RELAÇÃO PESSOAL DE AMIZADE…

Tal como foi manifestado de forma sentida e profunda a morte do Padre Pires Bastos por uma comunidade que serviu incansavelmente aos vários níveis da sociedade, dedicando-se por inteiro aos crentes e não crentes. Também o autor deste texto assumiu (via facebook) no momento de dor e luto por tal perda, que, “não encontro palavras suficientes, que representem e simbolizem toda a amizade cimentada durante décadas, com particular incidência em momentos e eventos culturais, em que tive o privilégio de partilhar e até no âmbito da relação com a imprensa local, de poder registar palavras e imagens…”. São pois alguns desses momentos, através de registos fotográficos, ainda que não tão representativos da verdadeira dimensão da sua dedicação e atividade pastoral, bem como da extraordinária e exemplar intervenção cultural nas suas vastíssimas vertentes, como património cultural e humano desta região, que em sua memória ilustram este trabalho.

 

01dez20

 

 

 

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