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Os Liceus do Bonfim (I) – Liceu/Escola Secundária Alexandre Herculano

Maximina Girão Ribeiro

 

Os antigos Liceus do Bonfim são, sem dúvida, uma marca histórica desta freguesia, uma memória para a posteridade, um património a preservar. Por lá passaram milhares de alunos/as ao longo do tempo da sua existência – falamos do Liceu masculino Alexandre Herculano e do feminino Rainha Santa Isabel.

Com o evoluir dos tempos a designação de “Liceu” deu lugar à denominação de “Escola Secundária”. Destes Liceus, o primeiro é hoje a Escola Secundária de Alexandre Herculano, sede do Agrupamento com o mesmo nome; o segundo que, inicialmente, era só feminino, deixou de existir, já há alguns anos – o Liceu Rainha Santa Isabel.

No início do século XX, a zona oriental da cidade ostentava ainda um certo cunho de ruralismo, misturado com uma população de operários fabris. Contudo, a proximidade da Estação de Campanhã trouxe a fixação de muitas pessoas para a parte oriental da cidade, promovendo um crescimento da população escolar, o que exigia a criação de um Liceu masculino, nesta zona.

Passaram a existir duas grandes zonas pedagógicas na cidade, instalando-se em cada uma delas um Liceu Central, por decreto de 4 de Janeiro de 1906. Mas, não havendo instalações apropriadas para o fim desejado, logo no “Anuário do Primeiro Ano de Funcionamento (1906/1907) do Liceu Alexandre Herculano” as queixas apresentadas quanto às instalações precárias e aos materiais escolares inexistentes ou insuficientes, são bem demonstrativas das enormes dificuldades com que se lutava.

Segundo consta, no Jornal “O Primeiro de Janeiro”, nº 333, 3 de Dezembro 1956, aquando das “Comemorações do 50º Aniversário da Fundação do Liceu Alexandre Herculano”, relatava-se que o nascimento desta instituição de ensino foi feita, inicialmente “[…] num velho e feio pardieiro, na rua do Sol, com um pavilhão anexo apenas coberto por telhado de zinco […] as paredes cheiravam a bafio […] no Inverno frigidíssimo, no Verão, exalando calor tórrido […].”

Só a 26 de Setembro de 1908 é que o Liceu Central da 1ª zona, mudou o seu nome para Liceu Central de Alexandre Herculano com instalações alugadas, na Rua de Santo Ildefonso.

Mas, o alojamento continuava tão deficiente e impróprio que, cada vez mais, se exigia a construção de um edifício feito de raiz. Assim, por influência do deputado Dr. Ângelo Vaz, antigo médico do Liceu, ficou decidida a construção de um edifício novo, com a dignidade suficiente para ser um estabelecimento de ensino. O Estado constituiu um empréstimo de 150 contos para o edifício que ia ser construído.

Em 1911, foi aprovada a autorização da construção de instalações próprias para o Liceu, tendo sido escolhido um dos talhões em que ficou dividida a Quinta de Sacais, no espaço que é hoje a Avenida Camilo.

O lançamento da primeira pedra do Liceu, teve cerimónia oficial, a 31 de Janeiro de 1916, com a presença do Presidente da República, Dr. Bernardino Machado.

A construção do edifício foi sofrendo alguns revezes, não só de cariz económico, como também devido à instabilidade política em que se vivia, durante o período da 1ª República, bem como a participação de Portugal na 1ª Grande Guerra (1914 – 1918), com todo o desgaste económico daí resultante, culminando toda esta situação com o estabelecimento da Ditadura Militar e do Estado Novo, no início do qual seria finalizada a construção do monumental edifício.

O Liceu em construção

Este Liceu foi concebido pelo prestigiado arquitecto Marques da Silva, antigo aluno da Academia Portuense de Belas-Artes, continuando a sua formação em Paris, onde frequentou a École Nationale et Spéciale des Beaux-Arts, onde obteve o grau de Arquitecto Diplomado pelo Governo Francês, em 10 de Dezembro de 1896. A sua intensa actividade profissional, rapidamente o elevou ao reconhecimento público, com várias distinções e prémios, nomeadamente na Exposição Universal de Paris de 1900 em que obteve a medalha de prata e na Exposição do Rio de Janeiro de 1908 foi premiado com a medalha de ouro.

O arquitecto Marques da Silva e uma vista aérea sobre o Liceu

O novo liceu começou a ser frequentado a partir do ano lectivo de 1921/22, apenas com 28 salas, laboratórios, salas para Física e Química, Ciências, Geografia, Desenho e Música, uma biblioteca, um anfiteatro, sanitários, um pátio de desporto, três ginásios, piscina, refeitório, entre outras valências, embora algumas destas instalações tenham sido inauguradas posteriormente (entre 1929 a 1934), nomeadamente a biblioteca, o ginásio, o balneário e a piscina. Eram equipamentos modelares adaptados às diferentes áreas disciplinares, tendo em conta o bem-estar dos alunos e de algumas alunas que inicialmente o frequentaram. O edifício era tão completo para a época que tinha sala de Cinema Educativo, Anfiteatro para apresentação de peças de teatro, Cozinha e Cantina, Gabinete médico-pedagógico, aquecimento na Biblioteca, no Gabinete de Física e no de Química… verdadeiros luxos para tempos de pobreza e de muito analfabetismo.

Para além do já descrito, o Liceu tinha cinco pátios de recreio, casa própria para o reitor habitar, assim como outras dependências para o chefe de secretaria e outras para o porteiro. Todo o espaço envolvente era rodeado de jardins bem tratados. A construção do edifício denota, por parte do arquitecto preocupações relacionadas com a orientação solar e a entrada de luz nas salas, com janelas altas e largas, além de ventilação adequada e higiene dos espaços, denunciando também um conhecimento profundo das mais recentes teorias e práticas pedagógicas, já na época, em vigor no estrangeiro.

Foto: Pedro N. Silva (EeTj – 2017)

Arquitectonicamente o Liceu apresenta três corpos, sendo o corpo central ligeiramente um pouco mais recuado, em relação aos outros que o ladeiam. Em todos se manifesta um equilíbrio estético considerável, ostentando nas fachadas alguns dísticos com inscrições e molduras em pedra, que o embelezam. Enquanto edifício arquitectural, pode considerar-se como um ex-libris da cidade do Porto.

Foto: Pedro N. Silva (EeTj -2017)

Os anos cinquenta e sessenta representaram um aumento significativo do número de alunos, a maior parte residentes no Porto, mas muitos oriundos de Rio Tinto, Gondomar que vinham de camioneta, ou os que vinham de comboio de Espinho, Valadares, Gaia… Pode-se imaginar o caudal imenso de alunos que percorriam as ruas do Heroísmo ou a de Pinto Bessa para chegarem ao Liceu…

Esta instituição de ensino possuía um grande espírito académico e, os seus alunos, eram tratados por “Alexandrinos”, como homenagem ao grande escritor e historiador, patrono deste estabelecimento. É antiga a Associação “Os Alexandrinos” que congrega muitos ex-alunos, em encontros e convívios.

A criação de Jornais Académicos, as actividades de âmbito cultural e científico, as festas de finalistas e o célebre “Comboio Lombriga”, constituído por filas de alunos que percorriam as ruas, em grande algazarra, com cartazes humorísticos. Estes foram alguns dos aspectos que se salientaram na vivência e na vitalidade deste Liceu, por onde passaram figuras proeminentes da nossa sociedade, como Aureliano Pires Veloso, Belmiro de Azevedo, Manuel Sobrinho Simões, Rui Vilar, Manuel Alegre, Álvaro Siza Vieira, Pacheco Pereira e muitos, muitos outros…

Nos últimos anos, a degradação do edifício centenário era notória em quase todos os espaços da instituição – as infiltrações de água, as coberturas em perigo, as más condições das salas de aula, os recursos pedagógicos desactualizados… e, muitos ratos por todo o lado. Toda esta conjuntura se arrastava há vários anos, sem respostas concretas para que as obras avançassem. Contudo, actualmente, a Escola Secundária Alexandre Herculano está em total remodelação, com obras profundas em todos os sectores.

“Não deixem cair o Alexandre!” era o título da petição pública para que se fizessem obras com urgência. Hoje dizemos que ele não cairá, nem morrerá, pois as casas guardam memórias que devem ser preservadas para que cada um ou cada uma que por lá passaram continuem a identificar-se com um espaço onde se “fizeram gente”, enriquecidos pelos conhecimentos que guardam dentro de si.

Que o Alexandre Herculano volte ao seu esplendor, preservando as suas características exteriores e muito do que foi o seu interior.

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: pesquisa Web

 

01jan21

 

 

 

10 Comments

  1. Arlindo José Mendonça Garcia Fernandes

    Faltou referir a Associação dos Antigos Alunos do Liceu Alexandre Herculano de que fui fundador e que continua a fazer mensalmente um jantar bem como um anual englobando todos os sócios e não só da Associação. Apareçam e agradecemos a divulgação. Abraço para todos Garcia Fernandes

  2. Florindo Baptista Morais

    Eu também sou Alexandrino e posso testemunhar por completo o artigo. Foi pena que a autora não tivesse feito referência ao corpo docente, à sua elevada qualidade e sentido humanitário. Também em Lisboa se realiza mensalmente um almoço convívio de Alexandrinos. É na última quinta feira de cada mês no restaurante Granja Velha, na R. dos Douradores. Organização do incansável Eduardo David. Apareça.

  3. ANTONIO HENRIQUE NUNES CARDOSO

    Muitos parabéns pelo artigo e muito obrigado ! Oito anos que passei nesta grande Casa, vindo, diariamente, de comboio de Espinho para subir Pinto Bessa . Bem Haja!

  4. Armando Fonseca

    Parabéns pelo texto e obrigado por o ter escrito. Sugiro, também (passe o atrevimento), um sobre o Liceu Rainha Santa Isabel.

  5. Fernando Graça Pinto

    Parabéns pela iniciativa, que me fez recuar às decadas de 60/70 em frequentei o LICEU, onde fui muito feliz e comecei a fazer-me homem.
    Espero que depois da recuperação do meu LICEU (finalmente) de grande importância para todos os que lá andaram e para a cidade, seja realizado um evento em que todos os interessados tenham a oprtunidade de visitar e assim recordar bons velhos tempos.

  6. Luis Filipe B Silva

    Andei lá e recordo, com saudade, esses tempos.

    Em 2009, tivemos (um grupo de “Alexandrinos” que se reune uma vez por ano desde 1978) oportunidade de efectuar uma visita a esse templo. Esperamos que quando o mesmo voltar a ser reinaugurado, lá possamos voltar.

    Fica um texto, que à data, escrevi sobre tal visita.

    Por vezes, curiosamente, o passado surge-nos como certos sonhos: a preto e branco. E isto sem qualquer tipo de desprimor nem para o passado nem para os sonhos.

    Mas é assim, simplesmente. Tal como os filmes antigos, antes da cor ter aparecido. Como se a nostalgia fosse mais forte assim, sem a distracção das cores.

    E talvez por culpa destes “alexandrinos” almoços, talvez por culpa da proximidade do local, talvez por culpa da saudade, muitos de nós, tiveram a oportunidade, quiçá o privilégio, de reviver, mesmo que momentaneamente, o “recente” passado de um percursos que fizeram juntos.

    É que a 7 de Novembro de 2009, ou seja cerca de trinta e alguns anos volvidos, ao transpor novamente aquelas altivas portas, ao pisar novamente aqueles majestosos corredores, aqueles históricos pátios (até fomos fumar um cigarrito ao celebérrimo “cantinho dos fumadores”), aqueles, outrora austeros espaços, que dia após dia, durante alguns anos, nos foram moldando, vieram-nos à memória tantas e tantas recordações sem qualquer ordem cronológica, nem talvez ordem de importância, mas que foram chegando assim mesmo, numa catadupa de afectos e lembranças.

    “… a sumptuosa (e já inexistente) biblioteca, os pães com omeleta ou chocolate, as constantes e inumeráveis escapadelas ao Rainha Santa durante os intervalos, as Tuchas, as Paulas, as Becas, as Ninis, as Micás, as Isabeis, as Fátimas, as Beluchas, os contínuos que nos descascavam (literalmente) as bolas de futebol, o “cantinho dos fumadores”, o “Fininho”, o “Toupeira”, o Sr. Acácio, (secretaria), os exames, os famosos avivadores de memória mais conhecidos por “copianços”, as roupas na piscina, a zona, vulgo corredor, interdita e finalmente as nossas e nossos professores (Dr. Costa Paz, Dr. Sarmento, Drª. Berta Pimenta, Dr. Mário Fiúza, Dr. Olívio de Carvalho, Dr. Mário Guerra, Dr. Cruz Malpique, Dr. Mário D. Soares, Dr. Filinto Elísio… e tantos, tantos outros e outras)… enfim!!!”.

    Momentos fortes, de surpresas, de sublimes recordações, de radiantes alegrias, de marcantes cumplicidades, de fiéis compromissos e sobretudo de genuína camaradagem, que nos deixaram com um nó na garganta.

    Éramos muito jovens (nas nossas recordações, claro) e a vida parecia ser eterna. E, de facto, em certa medida assim era (mas desde que existam recordações… que é que isso tem a ver com a idade?).

    Sim, a nostalgia é óptima! É a parte boa e alegre da saudade, aquela parte que se lembra e se perde em pensamentos, sem sentir falta, sem sentir dor… Sentir apenas que aconteceu… e como aconteceu…

    Cada momento foi único. Cada momento foi, também, eterno.

    L. Filipe

    * à semelhança da autora do artigo, este texto também foi escrito de acor-do com a antiga ortografia portuguesa

  7. Jorge Olindo da Silva Gonçalves dos Santos

    E sempre bom recordar um marco na cidade que tanto gostamos como o Liceu Alexandre Herculano pelo qual passei e que nunca esquecerei.
    Bem haja pelo artigo é parabéns.

  8. António Manuel Gonçalves Mendes de Magalhães Braz

    Infelizmente vivemos num país que não valoriza todo o seu contexto histórico e cultural . Triste é a Nação que vai lentamente perdendo a memória .
    Bem Haja

  9. Natalina Dolgner

    Os meus parabéns pelo excelente artigo, julgo que seria interessante também um artigo sobre o Liceu Rainha Santa Isabel.

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