A Câmara do Porto vai resgatar a Biblioteca Popular de Pedro Ivo para a cidade, adaptando o equipamento para fins culturais e recuperando este emblemático espaço público do Jardim do Marquês. As portas abriram no passado dia 29 de março. “Durante o primeiro ano de reativação, a programação estará dividida em quatro fases”, informou Nuno Faria, diretor artístico do Museu da Cidade, timoneiro ao leme desta primeira fase do projeto.
Neste arranque, de 29 de março a 15 de maio, será a Rádio Estação, projeto do Museu da Cidade, a instalar-se fisicamente na Biblioteca Popular de Pedro Ivo. Neste período de um mês e meio, a rádio emitirá também em FM “constituindo-se como uma pequena biblioteca sonora ao ar livre”, referiu Nuno Faria, na reunião de Executivo Municipal.
A Rádio Estação é um projeto artístico realizado por um amplo conjunto de pessoas com contributos diversos de diferentes áreas artísticas. Assim, para o contexto do Jardim do Marquês, estão equacionados novos programas, que envolvem leituras, em ritmo diário, de fábulas das mais diversas proveniências temporais e geográficas, para os filhos e para os pais (Confabulações); temas e episódios ligados à história e às estórias do mundo industrial do Porto (Trabalhar Cansa); um conjunto de leituras sobre diferentes partes da cidade (Inventário), e que conta com um episódio especial sobre a Praça do Marquês. Este episódio já estreou ontem, mas haverá lugar a mais duas repetições na Rádio Estação: a primeira acontece nesta quarta-feira, dia 24, às 10 horas; e a segunda retransmissão ocorre no próximo domingo, dia 28 de março, às 16 horas.
TEATRO MUNICIPAL DO PORTO COORDENA SEGUNDA FASE DO PROJETO
A segunda fase da “espécie de ano zero deste programa-piloto”, de 17 de maio a 10 de julho, ficará sob coordenação do Teatro Municipal do Porto, “para revelar o trabalho de estúdio de artistas em residência e o ponto de confluência de saberes e culturas do projeto europeu Moving Borders”, explicou Nuno Faria.
O Moving Borders é um projeto europeu, com financiamento por dois anos, que envolve sete cidades e instituições culturais europeias – Teatro Municipal do Porto, Hellerau European Centre of the Arts (Dresden), Le Maillon (Estrasburgo), Ringlokschuppen (Mülheim an der Ruhr), Spring Performing Arts Festival (Utrecht), Performing Arts Institute (Varsóvia) e Onassis Cultural Centre (Atenas) -, nas quais diferentes noções de fronteira são questionadas através da prática artística. O projeto resultará na construção de sete arcas nas sete cidades, enquanto espaços de experimentação e encontro.

EXTENSÃO DA FEIRA DO LIVRO
Já na terceira fase, de 16 de julho a 12 de setembro, a Biblioteca Popular de Pedro Ivo funcionará como extensão da Feira do Livro do Porto. Neste “aquecimento”, o equipamento cultural vai organizar o seu programa em torno da figura que lhe dá o nome, o escritor Pedro Ivo. A formação germânica do autor – com extensiva aproximação ao universo de autores ligados ao movimento romântico alemão – e a influência de Júlio Dinis, escritor homenageado da edição da feira do Livro de 2021, tornam particularmente oportuna a revisitação e a redescoberta de um escritor que em vida foi muito popular.
… POR CONTA DO “BATALHA”!
Por fim, a quarta fase da programação da antiga biblioteca do Marquês estará sob a responsabilidade do Batalha Centro de Cinema, durante os meses de outubro a dezembro. A proposta do departamento de Cinema e Imagem em Movimento consiste na apresentação de uma obra fílmica comissariada a um projeto cooperativo de cinema do Porto.
Esta obra, que se prevê instalar no espaço em diferentes canais, irá explorar narrativas contextuais e de memória sobre a praça e sua história, através de diversas linguagens visuais e formais. A obra vai ser escrita, produzida, filmada e editada ao longo do ano, prevendo-se a sua inauguração no último trimestre do ano.
A vereadora da CDU, Ilda Figueiredo, manifestou a sua satisfação com a reativação do equipamento. “Corresponde ao que sempre defendi para este local”, assinalou. Do mesmo modo, as vereadoras socialistas Fernanda Rodrigues e Odete Patrício congratularam-se com o arranque do projeto.
COMUNIDADE LOCAL DARÁ CONTINUIDADE AO PROJETO
Em 2022, o espaço continuará a operar no contexto cultural, mas já não será programado pelas equipas do universo da Câmara do Porto, esclareceu Nuno Faria. A intenção, adiantou o diretor artístico do Museu da Cidade, é que, nessa altura, seja feita “uma convocatória à comunidade local ou concurso de ideias, para a programação sazonal/anual da biblioteca, tendo em conta o seu carácter multidisciplinar mas, mais uma vez, não perdendo de vista a ligação à história do espaço”, assinalou.

Localizado em pleno jardim da praça do Marquês de Pombal, a Biblioteca Popular de Pedro Ivo foi inaugurada em 1948, mas nas últimas décadas tinha perdido a sua função original, tendo funcionado como cafetaria.
Em junho de 2020, o município realizou beneficiações no revestimento vegetal arbustivo e herbáceo do Jardim do Marquês , o que permitiu criar um espaço mais aberto ao olhar de quem o percorre, mantendo a sua simetria e colorindo-o através da plantação de camélias e flores de época nas bordaduras de acesso à estação do metro.
Em março de 2021, o edifício foi reabilitado pela empresa municipal Domus Social a partir do projeto arquitetónico original, com marcação na fachada a partir da tipografia desenhada pelo arquiteto Bernardino Basto Fabião, e com redesenho gráfico dos R2 Design.
Este pequeno espaço de 43m2 situa-se num lugar de cruzamento de passantes, mas também lugar de sociabilização, ponto de encontro e ancoragem e, a partir de agora, vai constituir-se como espaço de escuta e de transmissão oral.
Texto: Porto. / Etc e Tal jornal
Fotos: Miguel Nogueira (Porto.)
01abr21