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CASA DA HORTA: Uma associação cultural pró-vegetariana no CORAÇÃO do PORTO ANTIGO…

Associação cultural por excelência, mas com um cunho muito peculiar – os seus membros são vegetarianos -, a Casa da Horta, sediada no centro histórico do Porto, à rua de S. Francisco, 12, na freguesia de S. Nicolau, bem perto da Alfândega, oferece algo de inovador…

Não foi fácil a criação desta associação. A verdade, contudo, é que ela aí está de portas abertas e pronta a receber não só turistas, mas também artistas, estudantes universitários e a população da comunidade local, do Porto e do País. Numa reportagem algo atribulada (por problemas técnicos que foram, entretanto resolvidos, mas pelos quais pedimos as nossas desculpas, uma vez que resultou no atraso da edição deste trabalho) o nosso jornal foi recebido com simpatia pela Elina, pelo Mathieu e pelo Pedro Pereira, três dos seis dirigentes da associação.

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“Não somos radicais!”

“A Casa da Horta é uma associação cultural, criada em 2008, num espaço muito bonito, com restaurante de comida vegetariana. As pessoas que chegam aqui veem isto como um restaurante, mas não é só um restaurante, isto é também um espaço cultural, e é isso que nós também tentamos divulgar. Aqui, há um espaço para a transmissão de filmes… para música. É um ponto de encontro para outras alternativas à corrente do consumismo”. Palavras do francês Mathieu, que fala, diga-se de passagem, um escorreito português.

Mas, é a comida vegetariana o principal “ponto de contacto” com potenciais associados da Casa da Horta, relevando-se neste aspeto, e em forma de cartaz, a francesinha vegetariana, assim como a mercearia de produtos… vegetarianos.

“A Quinta Raízes em Gaia fornece alguns dos produtos para a confeção das refeições”, salientou Mathieu. A verdade, contudo, é que o primeiro contacto com a associação não é tão fácil quanto, isso, pelo menos não tem sido até há bem pouco tempo: “As pessoas pensam que nós somos muito radicais. Mas não! Quem quiser vir cá pode vir, mesmo não sendo vegetariano. A maioria daqueles que não comem carne e são cem por cento vegetarianos, na sua maioria, são estrangeiros” revela a jovem Elina.

Projeto GAIA

Interessante é saber que antes de surgir a “Casa da Horta” havia já um outro projeto; projeto que (o português) Pedro Pereira abraçou há anos. “Eu, juntamente com algumas pessoas que vieram a estar na fundação da Casa da Horta, criámos no Porto um grupo ecológico de nome GAIA (Grupo de Ação e Intervenção Ambiental) que ainda existe, mas em Lisboa, e tem um núcleo no Alentejo, mas mais ligado ao desenvolvimento rural e de sustentabilidade, que se encontra sediado em Odemira.”

“Depois de, em 2002, formamos esse grupo ecológico no Porto”, continua Pedro Pereira, “e, com o desenvolvimento do mesmo, começamos a pensar em ter uma atividade profissional, não somente relacionada com o voluntariado, que foi a base do coletivo, isto para podermos trabalhar naquilo em que acreditávamos. Então começou a surgiu – em pessoas que estavam ligados ao GAIA, nomeadamente o Pedro Gonçalves e a Diana -, a ideia de se criar uma cooperativa. Esse foi, por assim dizer, o embrião da Casa da Horta, como associação cultural.”

Vieram, gostaram e ficaram por cá…

Criar uma associação pró-ambientalista e vegetariana no Porto, não foi fácil, até tendo em conta as tradições alimentares da cidade e da região, mas a verdade é que o projeto vingou, muito à custa de uma rede de associações culturais europeias.

“A Casa da Horta participou no “Juventude em Ação” que é um programa da União Europeia que ajuda associações culturais a receberem voluntários não só da Europa, mas também do mundo inteiro, desenvolvendo esses voluntários diversas atividades dentro da filosofia da nossa associação: a ambientalista e a ecológica”, referiu Mathieu.

Mathieu chegou ao Porto, vindo de Paris, em 2010. “Sou formado em economia e trabalhei num banco. Como não gostava daquilo que fazia, quis mudar! Encontrei, então, através do trabalho de voluntariado da Casa da Horta. Já há muito tempo que gostava de por as mãos na terra e aqui tive muita sorte. Os voluntários foram mandando candidaturas, e depois de fazerem a seleção, fui um dos escolhidos”. Objetivo pleno o conquistado por Mathieu que também estava “com muita vontade de aprender português”, acabando por ficar no Porto.

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Cultura vegetariana

De portas abertas para cultura, a “Casa da Horta” tem “cada vez mais pessoas a aqui exporem. Há pouco tempo, encontramos uma professora da Colômbia, que era pintora, não pensava ficar na cidade, mas ficou apaixonada pelo Porto, e aqui ficou com o objetivo de pintar a cidade. Conseguiu os seus objetivos; expôs na Casa da Horta os seus trabalhos, e, agora, está em Paris a fazer essa mesma exposição (“Pintar o Porto”), revela-nos Mathieu.

E nada melhor que unir a cultura à… comida saudável. “À Casa da Horta vêm mais vegetarianos, porque, neste aspeto, não há, no Porto, muitas opções em termos de restauração. Não são muitos, porque a tradição no Porto é a de comer carne e peixe, pratos que são, normalmente, acompanhados com arroz e batata. Mas, o que nós queremos”, diz Elina “ é dar uma comida saudável para todas as pessoas, e não só para uma pessoa em especial, a tal que goste de comida vegetariana. Aqui (Casa da Horta) só se serve comida vegetariana, mas serve a todos, como aos que a queiram experimentar”.

E os jovens parecem começar a aderir a este tipo de gastronomia. “Em 2011 tivemos aqui um grupo de jovens que estiveram presentes num ciclo de cinema latino-americano e esteve cá muita gente! Muitos jovens. A adesão de jovens à Casa da Horta depende muito do jovem e da altura do ano em que se realização as coisas”, revela Mathieu.

A projeção da “Casa” é feita, naturalmente, através das redes sociais, mas não só… “Temos um site para divulgar a comida vegetariana através do Trip Advisor, a maior plataforma a nível de informação sobre turismo, como também pela Happy Cow, que é outra plataforma de divulgação da Casa da Horta a ter em conta. Desta forma começamos a ser mais conhecidos e contactados um pouco pelo mundo inteiro”, disse Elina

“Pensam que somos friques!”

Já no que concerne à comunidade local – jovens ou não – “o objetivo da Casada Horta é o de trazer mais pessoas para cá. Na verdade, não temos, até agora, tido muito sucesso porque eles pensam que nós somos friques, e não entram cá. Isso acontece, concretamente, com vizinhos. Mas em 2010 ou 2011, houve uma relação muito positiva com os idosos do Centro Social da então freguesia de São Nicolau, realizando-se aqui, na Casa da Horta, ações com comida vegetariana, e, a verdade, é que eles gostaram muito! Tanto gostaram que, no fim, quiseram oferecer-nos um presunto”. Uma boa oferta (?!)

A realidade, porém, e de acordo com Mathieu, é que “o Porto está a mudar em questões de vegetarianismo. Já não é tão conservador como era. Um prato de legumes é barato! É claro que temos de ter sempre em conta os preços que se praticam em Portugal.”

Contando com cerca de oito centenas de associados, a “Casa da Horta” tem, para os seus (potenciais) aderentes, quotas interessantes em termos de preço, e também nas caraterísticas específicas das mesmas. Os sócios “Hortelão” pagam 20 euros anuais e têm descontos na comida, produtos da loja e workshops. O “simbólico” é um euro por ano, mas só têm direito a fazer parte da associação”.

“Qualquer pessoa que venha cá tem de ser associada, mas entra quem quiser, de modo a que possamos transmitir os nossos valores. Contudo, é sempre importante que seja ou se torne associado, até porque os produtos custam dinheiro e são todos biológicos”, refere Pedro Pereira.

Associação sem apoios autárquicos

Saiba, entretanto, que os produtos biológicos que são confecionados e vendidos na “Casa da Horta” não vêm só da Quinta Raízes em Gaia, “uma vez que temos também um espaço na Quinta do Musas, na Fontinha. Começámos em 2011, altura que o Musas limpou o terreno, e nos atribuiu um pequeno lote; pequeno lote que dá, mesmo assim, para desenvolvermos a nossa atividade”, palavras de Mathieu, que, sobre os objetivos a atingir pela associação, a curto ou médio prazo, enfatiza a meta de “manter o coletivo com conhecimento crítico. Não podemos parar de fazer isso!”

Quanto a contactos com as autarquias da cidade e possíveis apoios, saiba-se que “na fase inicial do projeto – processo bastante longo – foi contactada a junta local, a Câmara Municipal e a Sociedade de Reabilitação Urbana com o intuito de termos apoios para criarmos a associação e encontrarmos um espaço. Mas as coisas acabaram por não resultar. Não houve nenhum apoio concreto”.

A “Casa da Horta” esteve também ligada ao projeto comunitário da Escola da Fontinha que “todos sabemos como ele terminou”. No fundo, “defrontamo-nos com muita burocracia! Em termos de apoios, só tivemos o do “ERASMUS Plus”, que engloba todo o projeto de voluntários que estamos a receber”.

Abertos de terça a sábado, do meio-dia à meia-noite, excetuando a altura em que há workshops, a “Casa da Horta” é um espaço de referência… acolhedor. E tão acolhedor é que muitos dos seus dirigentes são imigrantes e por cá ficaram.

Elina veio do norte da Europa, para viver num país do Sul?!

“Aqui as casas são muito frias. Lá passamos o tempo em tascas, porque as tascas são boas. Eu também vivo em Gaia, é uma cidade com algumas indústrias, mas também tem espaço rural o que é importante, pelo que se pode viver de uma maneira rural dentro de uma cidade”.

Preocupações sociais

“Sediados no centro histórico do Porto, que regista muitos problemas a nível social, estamos, de certa forma, a tentar dinamizar uma zona que, apesar de ser muito turística, está afastada das suas raízes. Em dez anos, cerca de trinta por cento da população saiu daqui. Portanto, nós, por cá, tentamos criar laços com a comunidade local e não só com o foco do turismo. É importante que as pessoas do Porto não venham à Ribeira só para beber copos, mas também para participarem em atividades culturais, educacionais e ambientais”, palavras de Pedro Pereira.

Mathieu salienta o trabalho de “um senhor que vive na Ribeira, o António da Silva, organizador de visitas eco-sociais no Porto, que faz os “Percursos da Memória”. Esses percursos não se tratam, única e exclusivamente, para falar de história e atrair as pessoas para os pontos turísticos, mas também para alertar as pessoas para aquilo que é a realidade aos mais diversos níveis: a realidade sociológica, a realidade ambiental…sobretudo no Porto e no centro histórico em particular. É importante esta iniciativa”.

 

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Desafios

E, para finalizar, esta nossa (agradável) visita à “Casa da Horta”, fica um convite da direção, e mais alguns “recados”: “Venham cá para partilhar ideias diferentes. Juntar pessoas é sempre o mais difícil. É por isso que o capitalismo ainda funciona bem, porque as empresas estão todas ligadas” (Mathieu).

“Há uma diferença entre ser associado” (Pedro Pereira) “e participar ativamente na vida coletiva quotidiana de uma associação. Em todas as associações há esse défice de participação. Outra particularidade que temos, é que uma pessoa que chegue com uma proposta e que, desde que se enquadre com a filosofia da associação, nós estamos recetivos a aceitá-la, facto que é difícil de encontrar em outra instituição ou coletividade, onde os processos são mais burocráticos”. Mas há mais desafios…

“Temos vantagens e desvantagens em nos encontrarmos no centro histórico do Porto. A desvantagem é que o grosso da população do Porto está dividida. Os jovens, por exemplo, vão para a baixa, mas para zonas específicas da mesma, ou seja para os bares e as discotecas, e já não se deslocam muito para esta área, e muito menos para participarem numa atividade cultural, que é aquilo que oferecemos. De certa forma, isto, para nós, é um desafio muito grande! Que é com quem diz, o desafio é saber o que temos que fazer para que as pessoas participem no nosso projeto, nas nossas iniciativas. Nós não podemos ficar a dormir à sombra da bananeira, temos de trabalhar constantemente para que a associação cumpra os seus objetivos”, palavras de Pedro Pereira.

 

Texto: EeT

Fotos: Bozhidar Asenov

 

 

08jul14

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