José Lopes / Tribuna Livre
Para quem não sendo residente na cidade do Porto e só se lembra da Rua das Flores como uma deprimente rua votada ao abandono, com umas poucas casas comerciais a resistirem à decadência de alguns dos tradicionais negócios. A intervenção urbanística a que esta artéria foi sujeita, assim como os largos dos Loios e de S. Domingos, tornando-a pedonal, representa não só uma saudável lufada de ar fresco nesta parte da cidade, mas alvo de curiosidade e esperança num certo renascer de nova vida, do ponto de vista social, cultural e económico.
Já para quem conheceu a Rua das Flores num tempo em que era calcorreada também por muitos comerciantes das terras vizinhas, que ali, numa azáfama diária davam vida a esta característica rua em pleno centro histórico da cidade do Porto, esta nova vida urbana que começa a ganhar forma numa rua recheada de memórias, ainda que muito em função da realidade do turismo que a cidade do Porto está a viver no presente, não deixará de reavivar memórias deste ponto de referência, particularmente de milhares de pequenos e médios comerciantes que se vinham abastecer nos grandes armazéns que foram a alma desta rua em que predominavam os têxteis para o lar, a retrosaria, cutelarias e ferragens ou as sementes, para os campos, entretanto abandonados, para dar lugar ao crescimento das vilas e das cidades de gente que tinha o comboio como meio de transporte mais prático, para chegar mesmo às portas da Rua das Flores ali ao lado da Estação de S. Bento.
Contrastando com uma imagem de pouca luz, dominada por antigos espaços comerciais há muitas décadas encerrados e sem vida, vive-se agora uma fase de recuperação e reconstrução de alguns dos edifícios que integram o património arquitetónico da Rua das Flores, para habitação e comércio ou para um futuro hotel, ao mesmo tempo que novos estabelecimentos já vão surgindo, partilhando harmoniosamente este espaço urbano bem perto das também reconstruídas “Cardosas”, com diferentes setores de atividades económicas (alfarrabistas, antigas ourivesarias, mercearia-garrafeira, cutelarias, ferragens, casa de sementes, farmácia, cafés e restaurantes, atoalhados e roupa de cama ou artesanato de cortiça e latão), que teimosamente não abandonaram a rua, aberta entre 1521-1525, no final do reinado de D. Manuel, em terrenos ocupados pelas hortas do bispo, daí a sua denominação na época “Rua de Santa catarina das Flores”.
Sem nunca ter perdido o seu encanto, tal é a história que há séculos lá mora, a Rua das Flores, mesmo com grande parte do comércio que lhe deu muita vida até começarem a surgir como cogumelos as grandes superfícies comerciais que colocaram em risco o pequeno comércio, foi sempre um percurso obrigatório no roteiro do património da cidade, em que se encontram pontos de interesse, como a Igreja da Misericórdia do Porto, cuja construção se iniciou em 1559 ou ainda, o Museu de Marionetas do Porto.
São também pontos de referência na história desta rua (segundo informação da Wikipédia), o Antigo Hospital de D. Lopo. A Casa dos Maias (n.º 29), “edifício de grande valor histórico cuja construção remonta ao século XVI”. Casa da Companhia (n.º 69), “onde funcionou a Companhia geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, criada pelo Marquês de Pombal”. Casa dos Sousa e Silva (n.º 79-83), “cujo brasão ostenta a data de 1703”. Casa dos Constantinos (n.º 139), “do século XVII”. E ainda a Casa dos Cunhas Pimentéis (na esquina com o Largo de São Domingos), “edifício de grande valor histórico cuja construção remonta ao século XVI”.
Nesta nova fase da longa história arquitetónica da Rua das Flores e da mais recente intervenção urbanística, não deixa de ser curioso saber que a sua construção, “…foi feita segundo moldes inéditos pois, pela primeira vez na história urbana da cidade, surgiu uma regulamentação precisa sobre o tipo de habitação a construir, obrigando a uma regularização das duas margens da rua, possibilitando a boa visibilidade das fachadas”.
Apesar de conotada à época com um forte caráter elitista, “que o espaço edificado procurava confirmar” dado, o núcleo mais representativo dos habitantes da rua ter sido “constituído pela designada aristocracia urbana – cidadãos ligados à administração municipal e da Coroa, mercadores…” a Rua das Flores foi ainda habitada na sua zona alta por “homens ligados, sobretudo, aos ofícios: mecânicos, sapateiros, caldeireiros, serralheiros, pedreiros, ferreiros, etc.”. Ainda vieram a fixar residência nesta rua “comerciantes e industriais, barbeiros sangradores, cirurgiões, bem como alguns clérigos e juízes-de-fora” (lê-se na Wikipédia).
Fotos: José Lopes
(Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar, neste caso, de visita à vizinha Invicta Cidade)
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