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Daehan Minguk – Viagem ao País do Sul

 Luís Reina

 

Capítulo VII 

 Os três garfos… 

 

16 de Setembro

Boseong/Suncheon/Hwaeomsa

Uma hora da manhã.

O meu corpo nu continua a dar voltas e voltas por baixo dos alvos lençóis de algodão, como que possuído por um demónio temendo um exorcismo. Contraio-me em espasmos sucessivos. A transpiração sufoca-me de amargura. Sinto que todas as formas anatómicas do meu corpo, colado ao tecido dos lençóis, são perfeitamente visíveis mesmo na escuridão do quarto.

Ligo a luz para ir refrescar-me à casa de banho.

Este quarto é a antítese do primeiro. Trata-se de um quarto interior, sem ar condicionado nem janela.

Um pequeno cubículo onde mal consigo respirar. O pior de tudo é que fica contíguo à caixa do elevador. O barulho ensurdecedor proveniente dessa caixa, que nos transporta diária e continuamente numa viagem de ida e volta, e que quase me fura os tímpanos, é a causa principal de não conseguir adormecer (Vem-me à memória a viagem que fiz à India em 1997. Em Jaipur fiquei instalado num quarto que posso dizer ser cópia deste. De madrugada tive que me dirigir em pijama à recepção já que o barulho era horrível e não me deixava descansar. Fizeram a muda depois de muito gritar com o staff de serviço que repetitivamente me dizia não terem quartos disponíveis para a troca. Fiz chantagem ao dizer que ficaria então a dormir no hall do hotel. Nunca vi tanto pânico estampado nos rostos).

Decido não usar a mesma táctica. Sinto-me demasiado cansado para me vestir novamente. Aparecer todo nu na recepção do hotel decerto que daria direito a prisão.

São já duas horas da manhã, quando o corpo extenuado de cansaço acaba por cair num sono profundo. Sono que termina passados minutos, pois dá-se um estrondo gigante dentro do quarto, que me faz cair da pequena cama onde me encontro deitado. O meu coração bate à velocidade de um TGV, tal é o susto. Parece que uma bomba estourou ao pé de mim. Ainda não refeito, sento-me na beira da cama e coloco as mãos na cabeça pensando no que fazer. Estou decidido a fazer uma reclamação via telefone. Começo por digitar o número para o serviço de quartos, quando percepciono que o barulho é proveniente do frigorífico Samsung que se encontra no canto do quarto.

Fico fora de mim.

Digo mal da Samsung, do presidente da Samsung, do guia que só fala da Samsung, do hotel e sei lá do que mais. Desligo furiosamente o frigorífico pouco me importando se o seu recheio é passível de se estragar ou não.

Volto para a cama, conseguindo finalmente adormecer.

Como sempre, o alarme do telemóvel toca efusivamente às sete da manhã. Acordo cheio de dores de cabeça e mal disposto pela falta de descanso e de uma noite quase toda passada em branco.

Desço para o pequeno-almoço.

Mal saio do elevador, fico cara a cara com o guia geral do circuito e acompanhante do segundo grupo. Tenta encaminhar-me para a sala onde está a decorrer a primeira refeição matinal, sem sucesso. Nem lhe dou tempo a abrir a boca. Berro e grito logo de seguida pela noite que me foi “proporcionada” neste hotel de luxo aparente. Simplesmente sorri para mim, desculpem-me a expressão, com cara de parvo, fazendo de conta que não percebe o teor da minha revolta. Fico perplexo com a falta de profissionalismo.

Furioso, dirijo-me para a sala de jantar onde encontro somente pessoas do outro grupo. Algumas com o pequeno-almoço já tomado, outras a fazê-lo serenamente. Tranquilidade geral, o que me irrita ainda mais.

Ao contrário do que esperava, não existe buffet, tão comum nos dias de hoje, seja qual for o número de estrelas que classificam este tipo de estabelecimentos em qualquer parte do mundo. Um empregado com expressão de quem acabou de sair da cama, coloca à minha frente um pequeno tabuleiro com um copo de sumo de laranja (concentrado), um ovo mexido com umas rodelas de salsichas e duas tostas com uma pequena embalagem de compota de amora. Peço chá verde para acompanhar esta frugal refeição. Só me chega depois de já ter deglutido quase tudo. Reclamo.

Chega Étienne com cara sorridente. Bombardeio-o de imediato com uma chuva de reclamações. Assim sendo passo a enumerar: o quarto de hotel, do colega, do pequeno-almoço e de mais um pequeno número de situações, algumas delas da minha pura invenção, tal era a minha raiva. Conseguiu acalmar-me a muito custo e dizer-me como proceder de futuro. Informei-o que este hotel iria ser alvo de uma apreciação desfavorável perante a agência de viagens. Pediu-me desculpas.

Como sempre a ordem de partida faz-se às nove da manhã.

Partida para uma caminhada em plena natureza, que por acaso deveria ter sido feita ontem, num outro local. Uma visita com aroma e mosto a chá – os campos de chá de Boseong, segundo os guias bem mais atractivos do que os mencionados no programa.

As colinas encontram-se cobertas pelos buxos verdes desta planta. São rodeadas de uma floresta tropical que se funde com um mar azul que tem o nome do país vizinho – Mar do Japão.

A subida é íngreme mas não intimida ninguém. Sinto a roupa colar-se ao corpo transpirado pelo esforço. Chego ao topo do mundo. A paisagem é deslumbrante. Verdadeiramente “magnifique” segundo palavras do guia a quem me apetece fornecer um dicionário de língua francesa, pois talvez aprenda alguns sinónimos desta palavra irritante aos nossos ouvidos. Recordo-me da viagem que fiz ao Sri Lanka em 2010 e dos seus campos de chá, por sinal muito semelhantes.

Quando já todos nos encontramos em pleno descanso no alto do miradouro, é tirada uma primeira fotografia de grupo. Segundo Étienne, vamos ter uma surpresa no final do circuito.

Descemos calmamente pela zona florestal repleta de cascatas e pontes que refrescam o ar quente que já se faz sentir a esta hora da manhã. Terminamos na loja de prova e venda dos diferentes tipos de chá. Decidi optar pelo clássico chá verde de mosto acre e bem diferente do que alguma vez provei. Devido ao preço extremamente elevado não fiz qualquer compra para presentear em Portugal.

Os aborrecimentos nocturnos e matinais começam a dissipar-se.

Já no mini-bus somos informados de mais uma alteração ao programa. Parece que é o que nos espera aqui na Coreia do Sul. Contudo, desta vez parece que ficamos a ganhar. O autocarro dirige-se para Suncheon onde vamos comer e visitar durante a tarde – a Aldeia Histórica de Nagan e a sua fortaleza, considerada a mais bem preservada do país. Um prodígio da arquitectura militar da dinastia Joseon. Esta aldeia histórica tem a particularidade de ser habitada na sua quase totalidade por sul coreanos, que preservam assim as suas casas de madeira – Hanok.

Tudo começa com o almoço no restaurante da aldeia gerido por uma família que nos acolhe simpaticamente.

O edifício é construído segundo as normas ancestrais, assente sobre pilares de madeira castanha escura e com telhado de colmo igual ao das habitações. O chão encontra-se alteado meio metro, para que fique a salvo da água das chuvas das monções. Cada mesa tem capacidade para quatro pessoas. São baixas e em vez das ocidentais cadeiras temos uns almofadões para nos sentarmos que faz a alegria de uns e o descontentamento de outros, pois o grau de mobilidade de algumas pessoas, é pequena devido à sua grande obesidade.

Esta refeição teve a particularidade de ter gerado uma guerra – a guerra dos três garfos.

Uma das barreiras deste país, pelo menos para alguns, resume-se ao facto de todas as refeições serem feitas com pauzinhos de inox, bem pesados por sinal e que dificultam muito o manuseamento dos elementos.

Ora neste restaurante a novidade é que têm três garfos à disposição das pessoas. Quando nos é informado esta boa nova a guerra instala-se. Todos lutam pela custódia de um exemplar. Guerra, que só não fez feridos, pela rápida intervenção dos guias. Decidiram entregar os três objectos às pessoas mais velhas. Foi interessante verificar o comportamento destes franceses, dado que o mesmo garfo serviu para diversas bocas ao mesmo tempo. Uma autêntica falta de higiene que não parece afectá-los. Provavelmente é o procedimento habitual nas suas casas. Depois do manjar, tempo para digerir a parca comida ingerida. Aqui os médicos nutricionistas não têm grande trabalho.

Decidi visitar o Museu Histórico de Nagan situado num dos edifícios mais antigos da aldeia. Pequeno mas muito bem concebido. Apesar de toda a informação se encontrar em coreano, o acervo constituído por objectos arqueológicos, artísticos e etnográficos está muito bem apresentado. Era preciso uma tarde inteira para ver esta aldeia ao máximo pormenor. Tive ainda tempo para entrar no edifício do tribunal, o edifício dos arquivos imperiais e de subir a uma das torres de observação da fortaleza. Depois, foi só deambular pela aldeia e cruzar-me com os seus habitantes. Aldeia de casa pequenas, rodeadas de jardins coloridos. Uma particularidade, nos portões de entrada, feitos em bamboo, além do número de polícia consta também o número de telefone do proprietário. Também deu para apreciar os veículos de duas e quatro rodas estacionados nos jardins…fizeram-me lembrar um país do Golfo Pérsico, onde tudo que brilha é ouro.

O tempo passa e a tarde continua rumo ao fim.

O nome deste circuito é “Coreia: Entre Templos e Montanhas”. Chegamos ao dia D. O primeiro, dos inúmeros parques nacionais coreanos a ser visitado, é o Parque Nacional de Jirisan, onde no meio do verde florestal visitamos o templo – Hwaeom-sa (o Templo Hwaeom).

Este é um templo budista bem diferente de todos os que já visitei por esse mundo fora. Não tem a imponência e o luxo dos templos e mosteiros da Tailândia, não se sente a vivência espiritual dos templos do Sri Lanka e do Vietname, nem tão pouco tem a exuberância dos templos da China. No entanto, os templos na Coreia transmitem uma harmonia e uma paz única, como nunca antes senti. Posso dizer que deste templo emana uma energia e uma luminosidade que nos envolve numa carícia como se fossemos bebés afagados pelas mãos macias da maternidade eterna.

Este é um dos templos mais antigos do país. Foi reconstruído por diversas vezes, sem nunca deixar o traçado original. Muitos são os pavilhões construídos em madeiras exóticas e que servem como salas de meditação e de oração. Encontram-se decorados com esculturas de guardiães da luz e de demónios, porque também os há. Pinturas murais coloridas, algumas são consideradas tesouros nacionais e representações de estatuária folheada a ouro da representação do profeta iluminado – Buda.

Na praça principal – Gakgwang-jeon um bonito edifício chama-me a atenção. Trata-se da biblioteca do templo onde se escreveram as tábuas do Tripitaka (de que irei falar no próximo capitulo). Neste local também se ensinavam os fundamentos religiosos budistas. Acabamos a visita no pequeno museu do templo que conserva e preserva alguns dos tesouros que felizmente não foram destruídos.

Já o sol se deitou e a lua apareceu mais brilhante do que nunca.

Seguimos directamente para o restaurante onde nos aguardava um autêntico banquete, já que esta era a penúltima refeição antes do jejum aguardado.

Pela primeira vez comeu-se em quantidade e qualidade. Pela primeira e única vez durante o circuito tivemos direito a uma sobremesa. Para minha grande surpresa nada mais, nada menos do que um arroz doce bem português e que a todos soube a pouco. Ficamos a saber que esta iguaria foi trazida para a Coreia pelas mãos dos japoneses que a aprenderam a fazer através dos missionários portugueses. Pela primeira vez ouço falar em Portugal.

À nossa espera estava uma noite muito especial.

Um dos motivos da minha escolha nesta viagem foi sem dúvida a experiência de dormir uma noite num sajan, um quarto tipicamente coreano.

Este é um quarto onde não existe nenhuma espécie de mobiliário. O chão de madeira envernizada é aquecido. Para não o riscarmos calçamos à entrada uns chinelos de pano, que não sabemos ao certo o número de pés que os usaram. A cama é um simples colchão de penas, tipo campismo, bem fofo, sobre o qual colocamos uns edredons.

No tipo de alojamento onde ficamos, um hotel/residencial, os quartos são partilhados (neste caso duas pessoas por compartimento), tendo eu ficado com o benjamim do grupo – Anthony. São os hóspedes que têm que fazer as suas camas e deixar o quarto devidamente arrumado e limpo para os hóspedes seguintes. Apesar de todo o cansaço, ainda tive tempo para abordar o meu companheiro de quarto e tentar saber algo mais sobre ele, apesar de ser uma pessoa demasiado reservada lá consegui tirar alguns “nabos da púcara”.

Só restava apagarmos a luz, praticamente de presença, que nos iluminava e sonharmos com o tão esperado dia.

O dia em que todos somos Budas. O dia em que fomos iluminados.

 

Para verem as fotografias relativas a este capitulo por favor consultarem o meu blog http://photoluisreina.blogspot.pt/

Obs: A pedido do autor, e ao abrigo do 5.º ponto do Estatuto Editorial do “Etc e Tal Jornal”, este artigo foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

 

 

 01-out-14

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