Ana Costa
Setembro significa, para mim, renovação. Novo ano letivo, nova sala de aula, novos alunos, tudo novo… (Ou não!) No meu caso, significa começar de novo, começar tudo de novo, voltando ao 1.º ano, voltando ao início de todo o processo de aprendizagens, ensinando mais uma vez, a ler escrever e contar… Como se fosse só isso que faz na escola!
Ao deixar um 4.º ano, volto então para um 1.º ano e volto a acreditar naquele sonho de criança de querer ser professora. E volto a acreditar que se consegue mudar o Mundo e modificar mentalidades e formas de agir, através destes pequeninos/as com quem estou agora.
Certa vez deram-me uma agenda (que ainda hoje guardo) que dizia “Professores mudam o Mundo, uma criança de cada vez!”, e eu acredito mesmo nisso. Através de cada criança, existe todo um trabalho a fazer que vai muito mais além do que ‘ensinar’. Saber ser exige obrigatoriamente saber estar e, consequentemente, estar consciente das capacidades de cada criança e é aqui que julgo que há um longo caminho a percorrer por parte dos adultos. As crianças conseguem ter responsabilidades e cumprir tarefas e, na maior parte das vezes, essa capacidade de desempenho de tarefas é menosprezada pelos mais velhos, o que é uma pena, porque na verdade, eles/as conseguem divertir-se a fazer quase tudo nas suas vidas.
Todos os dias vejo Pais e Avós que levam as mochilas dos meninos para eles não irem carregados, o que entenderia perfeitamente se as mochilas estivessem pesadas, o que no caso do 1.º ciclo raramente acontece. Muitas vezes vejo crianças que não sabem abrir embalagens de bolachas ou biscoitos que trazem para o seu lanche, simplesmente porque ninguém se dedicou a explicar e mostrar como é que isso se faz.
Sim, chama-se mais ou menos educar… E isso exige perder tempo, portanto na maior parte das vezes fazem os adultos, porque é mais rápido ou então aguarda-se que alguém na escola o faça. É preciso que sejam eles a experimentar, é preciso que sejam eles a passar pela experiência para verem que são capazes, ou até falhar até conseguirem.
Lembro-me que há uns anos, um aluno meu, me pediu para eu abrir uma embalagem de bolachas. Aliás, não pediu, chegou ao pé de mim e esticou-me o braço, com as bolachas na mão, sem falar. “Sim, precisas de alguma coisa?” – disse eu, “Abre!” – foi a resposta. Respirei durante três segundos e disse “Não, a professora explica como se faz!” e assim fiz. Ele foi para a cadeira dele e como não conseguiu abrir logo à primeira vez, desistiu e guardou as bolachas na mochila. Até aqui, tudo mais ou menos normal…
A grande questão é que o Encarregado de Educação veio falar comigo no dia seguinte, questionando-me porque motivo eu me tinha recusado a abrir o lanche do filho. Ora… respirei fundo mais uma vez e tentei explicar qual o objetivo daquele meu ato tão reprovável. Julgo que na altura terá entendido, mas não terá aceitado… Só talvez uns meses mais tarde, quando viu o desenvolvimento e a autonomia que o filho foi adquirindo ao longo do tempo, é que terá realmente alcançado qual era o meu objetivo.
Os professores não querem mudar ninguém e, muito menos impor os seus próprios hábitos, mas querem muito que as crianças sejam autónomas e independentes, dentro daquilo que elas conseguem fazer e de acordo com as características da faixa etária em que se encontram.
Esta questão da autonomia infantil é muitas vezes abordada, mas também é tantas vezes confundida. Por vezes invertem-se os papéis que cada um de nós desempenha na sociedade e, quem lidera a vida são as crianças…
Ninguém quer organizar uma revolução infantil, emancipando crianças e antecipando etapas que obrigatoriamente vão ter de vive e experimentar. Mas era importante, muito importante, diria eu, que os adultos, muitas vezes os familiares e alguns profissionais de educação, ‘deixassem’ as crianças serem ‘capazes de’! Isso garante-lhes confiança e vontade de progredir, acreditando que há que tentar até alcançar o sucesso.
Por isso continuo a acreditar nas capacidades das crianças e naquilo que elas conseguem fazer. Esta mudança de mentalidades é possível, faz-nos mais fortes e desenvolve-nos enquanto seres humanos, enquanto cidadãos. Fala-se tanto em cidadania e depois temos meninos e meninas sem responsabilidades… É possível mudar isso, uma criança de cada vez, dois pais de cada vez, uma família de cada vez…
Eu acredito nestes seres pequeninos e acredito, que um dia, eu vou conseguir mudar o mundo!
01out22

Ana Prossora de Meninos e Educadora de Pais. Excente. Melhor não seria possível.
Conheci a Professora Ana há cerca de 26 anos atrás.
Continua como sempre, fiel aos seus valores e princípios.
Muito grata
Mãe de 2 Meninas de tantos Meninos que já passaram sala de aula dela.