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“Como se atrevem?”

António Pedro Dores

 

A frase de um cartaz empunhado, em Lisboa, por jovens em protesto contra a inoperância da comunidade internacional a respeito dos riscos ambientais ressoou ao discurso de Greta Thunberg na ONU, a convite de António Guterres. Decidiram pedir a demissão do ministro da Indústria por ter vindo da indústria petrolífera para a política, porventura no sentido errado do que esperavam que fosse a melhor política para evitar que o meio ambiente venha a infernizar ainda mais as suas vidas, nas próximas décadas.

Como Greta, também os manifestantes de 30 diferentes organizações que se têm juntado para chamar a atenção da necessidade de agir de forma proactiva para obter os resultados desejáveis, como lhes ensinam na escola que devem fazer numa sociedade tecnologicamente avançada e democrática, usaram espaços escolares, aqueles que conhecem, para se manifestarem.

A polícia foi chamada pela direcção da Faculdade de Letras, não noutras escolas. Foi chamada também à sede dos contabilistas, invadida por manifestantes. Como previsto pelos estes, isso deu-lhes a oportunidade de continuarem os protestos de forma legal, mais ponderada e articulada, através da resposta a processos-crime que contra alguns deles foram abertos. Iremos ouvir falar mais do assunto, portanto.

O governo, talvez inspirado por António Guterres, tentou ser simpático e condescendente para com a rapaziada com sangue na guelra. Veio o ministro da Educação dizer publicamente que a luta dos manifestantes era justa, mas (ele há sempre um mas, aquele pequeno detalhe que deita tudo a perder…) tinham-se enganado nos alvos: as escolas ocupadas, disse ele, são parte da solução e não do problema.

Não tenho essa opinião. Sou professor com vontade de me aposentar e, por isso, sei que as escolas são um gravíssimo problema, maior do que se imagina. Mas isso são contas de outro rosário e, nisso o ministro acertou: a esmagadora maioria da população admira os jovens em luta por motivos mais do que evidentes e com uma frescura que dá esperança aos mais cínicos, mas (aqui sou eu que usa o mas) a maioria não suspeita que as escolas e as universidades são grande parte do problema: os sistemas educativos anestesiam os professores e os estudantes, impedindo-os de estudar os problemas com que a sociedade se confronta fechando-os em salas de aula e na autoridade de programas escolásticos que se repetem como nas madraças, de que a relação com as realidades sociais, laborais e ambientais são abstraídas.

O alvo dos protestos, o ministro da Indústria fugiu da sede da associação dos contabilistas, onde estava quando apareceram os manifestantes. Foi obrigado a receber uma delegação dos jovens no ministério, para fingir que o governo está preocupado com o que pensam os jovens. Infelizmente para ele, nem sequer tinha um assessor – nem o primeiro-ministro lho forneceu – que soubesse com quem ia falar. Recebeu os jovens com urbanidade e pediu-lhes que o informassem ao que vinham. “Estamos nisto faz quatro anos e o ministro não conhece nenhuma das nossas reivindicações? Isso é uma falta de respeito!” denunciou uma jovem aos jornalistas à saída da reunião.

Como se atrevem? 

 

Foto: pesquisa web 

 

Obs: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc. e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01dez22

 

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