Menu Fechar

Democracia verdadeira…

António Pedro Dores

Vasco Lourenço é presidente da Associação 25 de Abril. Pretende representar o espírito dos Capitães de Abril, aqueles que deram ao povo a oportunidade de viver em democracia, na verdade duas democracias: a popular, primeiro, e a burguesa, depois, segundo a terminologia da época. Com a sinceridade de quem pretende apenas dar (ao menos o seu testemunho) faz muitos meses que vem dizendo, a quem o quer ouvir, haver perigo da degradação, da corrupção da democracia vencedora da revolução criar uma situação de guerra civil. Ou pelo menos de alta probabilidade de violência generalizada.

Se fosse apenas a sua posição pessoal, seria ele ainda presidente da Associação? Que ele assuma as suas declarações como pessoais, é uma coisa. Que as tomemos como declarações sem eco, e mesmo sem apoio, é outra coisa. Sim, há quem pense haver riscos de eclosão de situações violentas. Estarão tais pessoas de acordo em juntar esforços para reverter a tendência de aumento de tensões sociais?

Vasco Lourenço
Vasco Lourenço

Escrevo a dias da realização de um evento, na sexta-feira 13 de Março, organizado pela associação citada, com vista a reunir quem possa fazer um diagnóstico semelhante – independentemente das preferências ideológicas. Como este texto será publicado depois do evento, o leitor poderá saber mais do que eu sobre se efectivamente as pessoas reunidas na Fundação Caloust Gulbenkian aceitaram dar prioridade ao bem-estar das populações relativamente às suas ambições (ideológicas ou de protagonismos) pessoais.

Já não sei quem escreveu, mas eu subscrevo aqui: Portugal, depois de 40 anos de experiência democrática, continua dominado por caciques. Há quem os veja nos partidos, nas jotas, nas sociedades secretas, nas autarquias, nas empresas estatais, nas grandes empresas multinacionais ou privatizadas, nos negócios público-privados. Estão, de facto, por todo o lado, inclusivamente no local de trabalho perto de cada um de nós.

caciques

José Baptista, Ilona Kovács e Conceição Lobo Antunes (1985) estudaram experiências cooperativas e descobriram como a sociedade portuguesa promovia o caciquismo, mesmo nos tempos revolucionários. Portugal era conhecido na União Europeia como um país desorganizado – ninguém chega a horas a uma reunião, diziam os guias para empresários. No dizer de um colega meu, trata-se de uma desorganização muito bem organizada. Redes de fidelidades pessoais, estigmatização de quem possa ter sentimentos ou opiniões próprios – por exemplo, usando as sempre presentes prateleiras, condenação automática dos mensageiros portadores de mensagens desagradáveis, censura, grande capacidade de relativizar as normas e de as neutralizar armando a maior das confusões, como acontece com grande frequência no sistema judicial, etc. Estas características sobrevivem aos anos e à modernização porque não são meramente usadas na política, nas empresas, nas profissões. Elas são usadas nas relações sociais em geral. E as instituições apenas as acolhem e utilizam: somos todos uma grande família, como tantas vezes se diz. Mas patriarcal, acrítica, em que o respeitinho é muito bonito e a intriga é a maneira de funcionar normal.

As guerras entre irmãos, atenção, são as piores. A capacidade que se tem tido para deixar governar esta gente provocatoriamente ao serviço de interesses estranhos ao eleitorado é proporcional ao risco de nada restar dessa cola que nos faz estarmos juntos, até este momento. Não posso estar mais de acordo. Para se partir para a violência, ensina Collins (2008), é preciso acumular energia suficiente para ultrapassar o medo que as situações violentas provocam.

Há quanto tempo Manuel Alegre falou do medo que sentia (e não sabia explicar) na sociedade portuguesa? Se andamos a acumular raiva desde então, Vasco Lourenço tem razão: não há muito mais tempo para despoletar o caldeirão em que tal energia se tem acumulado. A Espanha e a Grécia já o fizeram.

Referências:

Baptista, J., Kovács, I., & Antunes, C. L. (1985). Uma gestão alternativa: para uma sociologia da participação nas organizações, a partir de uma experiência portuguesa. Lisboa: Relógio d´Água.

Collins, R. (2008). Violence: A Micro-sociological Theory. Princeton: Princeton University Press.

Fotos:  Pesquisa Google

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta “peça” foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01abr15

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.