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Roberto Machado: “A Câmara do Porto quer mandar em tudo, mas manda mal, explora as pessoas e faz obras que nada valem”

 

 

Autarca – dos mais antigos do Porto em atividade, e deputado decano na Assembleia de Freguesia do Bonfim. Artista plástico, compositor, músico, cantor, dirigente associativo, militante comunista, amante da família, dos amigos e das artes.

Roberto Machado. Setenta e quatro jovens anos. Natural do Porto, mas, de Avintes (VNGaia) por adoção. Amigo pessoal de Adriando Correia de Oliveira, e também de tantos outros, os tais que tanto o consideram.

Lutador. Progressista. Solidário. Humanista. Roberto Machado deixou-nos entrar no seu apaixonante, e muito próprio, mundo.

 

 

Quem é o Roberto Machado?

“Sou um cidadão português, ainda jovem como se vê. Estou reformado, mas continuo a trabalhar num escritório de importação de algodão em rama, aqui no Porto, onde me encontro há cerca de 54 anos. Foi lá o meu primeiro emprego. Nessa firma, já vou na quarta ou quinta geração.

Para além disso, fiz outras atividades de que gostava. Pratiquei desporto durante muitos anos. Fiz, por exemplo, atletismo no FC Porto…”

 

… desconhecia esse facto.

“E até era um atleta bastante razoável. Eu é que nunca treinei como devia de ser. Era muito bom nos 100 metros barreiras e no salto em altura. Tirava quase sempre primeiros ou segundos lugares. Era uma coisa da qual gostava muito.”

 

É natural do Porto?

“Sou, mas a minha terra de adoção é Avintes. E por quê? Porque a minha mãe tinha lá uma casa grande – o Palacete “Lima”- , que agora, felizmente , é a sede do Grupo Mérito Dramático Avintense, que é um grande grupo de teatro, muito antigo e premiado. Aliás, essa é uma terra interessantíssima, porque tem muitas associações culturais.

Portanto, nós íamos para Avintes passar férias, mas depois acabamos por lá ficar a viver. Foi nessa altura que conheci o Adriano Correia de Oliveira, de quem fui muitíssimo amigo durante muitos anos, e foi onde passei a minha juventude com gente muito interessante nos tempos da ditadura.

Quando se deu o 25 de abril, já estava casado e vivia no Porto – aliás, tenho uma filha que nasceu quatro dias antes do dia da Revolução.

Portanto, a minha terra de adoção é Avintes, embora goste imenso da cidade do Porto, que penso não ter tido ainda uma câmara à altura de a governar”.

 

Foi em Avintes que se ligou ao Partido Comunista Português?

“Não. Militante, propriamente dito, sou desde 1974. Mas, Avintes tinha uma célula muito ativa do PCP; de pessoas que conhecia, mas que não sabia a que partido pertenciam.

Sabia que estavam contra o “fascismo” – é bom utilizar a palavra, porque foi, na realidade, “fascismo”, ainda que a tentem branquear. Colaborei em muitas tarefas, sem saber para quem estava a trabalhar, mas sabendo que estava a lutar contra a ditadura. Depois, tornei-me muito amigo do Adriano Correia de Oliveira… “

 

…como é que surge essa amizade?

“Eu tinha cerca 20 anos, ele 16/17, e a amizade surge num clube que nós fizemos chamado União Académica de Avintes, que tinha um excelente grupo de voleibol., onde eu e o Adriano, e muita gente de Avintes, participou, entre os quais alguns – e ainda atualmente-, grandes amigos. Posso falar, por exemplo, do José Lourenço Castro. O Adriano, infelizmente, faleceu, mas está, permanentemente, na nossa memória.

Portanto, a minha formação política foi feita em Avintes, mas depois do 25 de abril já vivia no Porto…”

 

… e foi nessa altura que se filiou no PCP e até hoje mantém militância.

“Até hoje e até ao fim. Considero que o Partido não é perfeito como nós queríamos – nada há perfeito! -, mas, para mim, continua a ser um grande partido.”

 

 

“O 25 de abril foi uma surpresa!”

 

 

Como é que viveu o 25 de abril?

“Como a minha filha tinha nascido quatro dias antes da Revolução, tinha de estar com a minha primeira mulher na Ordem do Carmo para cuidar da menina. Como tal, e independentemente da enorme alegrai, não pude participar como queria no 25 de abril de 1974. Mas, depois, já andava aí!”

 

Muita gente, na altura – mesmo no dia 25 de abril – ficou assustada e receosa porque, no fundo, não sabia o que estava a acontecer?

“Sim. Mas, eu tive uma reunião dias antes do 25 de abril, com pessoas que conhecia vagamente, e onde já se falava na possibilidade de haver qualquer coisa que ia transformar tudo. Não se sabia o que era muito bem ainda, mas já havia uma coisinha metida em nós que dava a ideia que algo iria acontecer. De qualquer maneira, tudo foi uma surpresa.”

 

Fala-se muito do 25 de abril com a Revolução concentrada em Lisboa, e não se fala como a coisa aconteceu no Porto, ou em outras importantes e estratégicas cidades do país… porquê?

“O poder estava em Lisboa e, naturalmente, teve muito mais impacto na capital do que no Porto. Mas, o Porto teve a sua quota parte na Revolução, aliás, como todo o país. Só depois – como o Álvaro Cunhal dizia sempre – a reação também começou, nesse dia, a trabalhar para anular muita coisa.

O 25 de abril permanece na nossa memória, mas, na prática, desapareceram muitas das conquistas da Revolução, como a de transformar o país. Estou a falar, por exemplo, da Reforma Agrária, das nacionalizações – que talvez tenham sido exageradas na altura, mas que foram o resultado de uma reação natural das pessoas contra muitos anos de ditadura.

Se tudo tivesse continuado, no sentido do progresso do país, na igualdade das pessoas, tudo isso se tinha concertado e estávamos, com certeza, muitíssimo melhor do que o que estamos hoje. Hoje, estamos abaixo de cão, como toda a gente sabe!”

 

 

Aspeto do ateliê de Roberto Machado

 

Um “muro” no estômago

 

 

Como reagiu, e depois de anos de ligação ao PCP, ao derrube do muro de Berlim, e, consequentemente, ao desaparecimento da denominada “sociedade Sol”, que representava a União Soviética (URSS), assim como de todos os seus países satélites a leste da Europa?

“Como compreenderá, eu tenho a minha visão peremtória, portanto o que lhe vou dizer é, exclusivamente, a minha visão. Foi, no fundo, muito triste o desaparecimento da União Soviética. De facto, a URSS teve condições, e suplantou, na investigação espacial, os Estados Unidos., mas mais importante do que isso, toda a Europa teve que se ajustar às medidas sociais que havia na União Soviética.

Todo o progresso social que se viveu a partir do fim da última Grande Guerra – posso estar completamente enganado! -, deve-se a uma defesa de propagação de ideias, verdadeiramente, socialistas e comunistas.

Depois da queda do muro de Berlim, o que é que se verifica na Europa? Há um retrocesso enorme! Mesmo nos países que estavam sob a alçada da URSS, se veio a verificar que acabaram por ficar pior do que o que estavam antes. Havia a ilusão que se iam tornar em grandes países capitalistas… etc e etc, mas o que hoje se verifica em muitos desses países – a meu ver – é uma enorme corrupção: é o aparecimento de pessoas com fortunas astronómicas, como é o caso que acontece na Rússia.

Houve erros enormes que não foram vistos a tempo; que não foram acautelados, não se aproveitando, assim, as condições, que estavam criadas para ser formado um grande bloco.”

 

Em Portugal, o Partido Comunista sobrevive à queda do “muro”, mantém-se e, mais tarde, reforça-se, considerando-se, hoje, que o PCP tem um papel importante na democracia portuguesa…

…”contrariamente ao que muita gente diz, o PCP, independentemente de ter tido ligações com a União Soviética, foi sempre muito enraizado no povo português. E, às vezes, as pessoas perguntam: então se é tão enraizado, como é que tem uma votação tão pequena?

Isso são fenómenos difíceis de perceber, mas a propaganda anticomunista e, até mesmo, antissocialista –  feita por um partido que se diz socialista e que são os nossos grandes contraditores e os nossos principais adversários – originou que o PCP não fosse um partido maior do que o que é.”

 

 

 

“O povo do Porto não conseguiu perceber Rui Sá, se calhar, por ele ser comunista”

 

 

O entendimento entre o PS e o PCP ainda é muito difícil, até mesmo nas autarquias.

“Até mesmo nas autarquias! As políticas deles, quanto “centrão”, com o PSD e CDS, são idênticas quando estão no governo, já contrárias são quando se encontram na oposição.

No Porto, sempre foi muito difícil chegar a um acordo com o PS. Já, em Lisboa, houve uma coligação para a Câmara devido à compreensão do Jorge Sampaio.

Se reparar, e no que diz respeito ao Porto, a qualidade das pessoas que o PS tem tido, quer nas juntas quer na Câmara Municipal do Porto, não é das melhores.

Veja: o Fernando Gomes, que dizem ter sido um bom presidente da edilidade. Ele estragou a sua obra com a saída, a meio do mandato, para Lisboa, facto que acontece com muitas elites portuenses que estão sempre a defender o Porto nos jornais, mas que, depois – nas grandes ocasiões -, têm passado para a capital.

Posso falar em banqueiros que tinham sedes no Porto e passaram para Lisboa, assim como em companhias de seguros e outras firmas.

Estar perto do poder dá muito jeito – a gente percebe!? -, mas o amor apregoado à cidade é que não corresponde à cantilena deles.

Um verdadeiro amor ao Porto teve, por exemplo, o Rui Sá que não foi reconhecido – exceto, aqui e ali, por algumas pessoas. O povo do Porto acho que não percebeu quem era o Rui Sá…”

 

… Rui Sá que deu a sua última entrevista, antes de ter-se demitido, ao nosso jornal…

“…sim! Mas, o povo do Porto não chegou a percebê-lo, se calhar por ser comunista!”

 

Mas, é mesmo difícil criar-se, aqui no Porto, uma coligação de esquerda, com o PS, PCP e BE?

“O PS quer sempre impor-se! Seja mesmo numa conversa informal entre pessoas para fazer uma realização qualquer. “

 

O PS é o partido de esquerda mais votado?!

“Mas, qualquer trabalho conjunto, impõe sempre reuniões prévias e muito concertadas para se chegar a acordos antes de se fazer qualquer tipo de “união”. Isso tem sido muito difícil com o PS.”

 

 

“O PS, PSD e CDS estão a fazer uma Lei Autárquica que será um desastre!”

 

 

A propósito, e em contranatura política, a CDU fez uma coligação, pós-eleitoral, com o PSD na freguesia do Bonfim, onde chegou a formar executivo! Isto já foi há alguns anos, e que, para época, foi politicamente estranho.

“Fiz parte desse executivo! Foi um excelente acordo, porque foi um acordo na base da independência das duas forças políticas. Era tudo discutido no executivo antes de se fazer qualquer coisa.

O José Lachado, na altura o presidente, era, e é, uma pessoa muito honesta.

No fundo, tínhamos (CDU) um grupo excelente, liderado por uma mulher, a Isabel Cabral, que era, e é, uma pessoa de uma grande classe e de uma grande dedicação às causas em que se mete, de uma honestidade a cem por cento e muito trabalhadora. E depois, eu tinha a minha independência como secretário; ela era independente no pelouro da Cultura; o Alberto Costa, também independente e que tinha vindo da UDP, foi também um ótimo elemento no executivo. Há coisas que ele fez e que ainda se mantêm, entre as quais a “Feira da Saúde”.

Muitas coisas se fizeram na altura, mediante o trabalho de nós três, mas também dos outros elementos da Junta.”

 

 

E, agora, como vê a possibilidade da Junta de Freguesia do Bonfim ser extinta?

“Eu acho o que toda a gente acha! Toda a gente está contra, como pode verificar nas assembleias que fizemos aqui no Bonfim, incluindo um encontro promovido pelo vosso jornal. Aliás, a Assembleia de Freguesia do Bonfim votou por unanimidade a manutenção das atuais fronteiras da autarquia.

Eu tenho o vício de colecionar recortes de jornais – tal como o meu pai fazia – e, recentemente, o jornal “Público” trazia um parecer de António Cândido de Oliveira, professor na Universidade do Minho – região onde rara é a Junta a favor do desaparecimento ou junção das freguesias! –  dizendo que tudo isto é um disparate autêntico.

Ele diz – depois de fazer uma série de considerações sobre as asneiras que é a de fazer desaparecer freguesias -, que “a experiência de outros países mostram-nos que, para o bom governo das grandes cidades, se recorre à desconcentração territorial dos serviços, havendo diversas provas de o concretizar, algumas próximas da descentralização democrática. Nós, em Portugal, não precisamos de inventar nada nesse domínio: temos as freguesias”.

Portanto, nós já temos uma estrutura que, devidamente aperfeiçoada, deve-se ir tirando onde se deve tirar, e meter onde se deve meter, mas com muito cuidado, porque não se pode ir para uma aldeia, onde a população é de sessenta ou setenta pessoas, e que depois se vêm despojadas do único órgão que têm de ligação ao Estado.

Dizem que nós temos “interior”. Não temos “interior” nenhum(!), nós temos 200 quilómetros de Vilar Formoso ao Porto. Qualquer pessoa, em hora e meia de carro, está à beira-mar!

Por exemplo, a retirada do caminho-de-ferro foi uma estupidez! Em vez de se ter criado autoestradas, devia ter-se criado, isso sim, duas linhas férreas paralelas e depois linhas transversais que permitissem a chegada às grandes cidades do litoral. Esqueceram-se que há muitas que pessoas não têm carro; que a população está a envelhecer…

 

…nesse aspeto, a ação social, que as juntas têm desenvolvido é, sem dúvida, importante!

“Evidente! O grande objetivo desta gente que nos está a governar, quer do PS, do PSD, ou do CDS, não é só isso! Eles estão a fazer uma Lei Autárquica que será um desastre! Se houve alguns – não são todos – casos graves de corrupção, devido a maiorias absolutas mal-entendidas pelos detentores do poder, eles, estão, agora a perspetivar, à causa desses factos, que deixe de haver eleições para a presidência das câmaras.”

 

Qual é a sua opinião sobre o assunto?

“Péssima! Então, o povo não tem o direito de se pronunciar sobre quem vai ser o seu presidente de câmara? Acho que o povo devia ter essa capacidade! E ainda querem as vereações de um só partido, possibilitando a chamada de técnicos para esses órgãos… tal como aquele que dirige cento e tal empresas. São técnicos fabulosos. No estrangeiro nada deve haver que se compare com isto!”

 

 

“As pessoas não podem desarmar!”

 

 

Essa lei ainda não foi aprovada.

“Mas está a discutir-se em certos pontos, e até nos pontos mais gravosos há já um entendimento entre o PS e o PSD.”

 

Há já autarquias que se recusam a aplicar as medidas governamentais.

“Sim. Tudo depende da resistência que tudo isto vai ter. É bom que as pessoas percebam que não podem desarmar. Acabando as férias, têm de começar a manifestar-se e a lutar”.

 

Como autarca, e com tantos anos na Assembleia de Freguesia do Bonfim, foi um choque ter-se colocado a possibilidade da extinção da freguesia, ainda que a mesma obedeça aos requisitos impostos pela Troika?

“Embora continue com a minha capacidade de resistência às arbitrariedades, às prepotências, aos cambalachos e às corrupções, acabo já por não sentir choque algum. Eu nasci no princípio da segunda Grande Guerra (1938). Passei dez anos a sentir que havia necessidades. Feliz, ou infelizmente, sou de uma família que tinha alguns bens; que se aguentou; tínhamos uma quinta em Avintes, onde cultivávamos o necessário para sobrevivermos, mas via uma miséria terrível à minha beira.

Depois do 25 de abril abriram-se enormes perspetivas da possibilidade de um progresso, e até a possibilidade de isso se estender a outros países da Europa. Estou convencido que a União Europeia fez-se para evitar que houvesse mais aventuras como houve em Portugal.

Voltando à pergunta. Não foi um choque! Estes senhores que nos governam atualmente, e até o PS que nos governou, dizem sempre que a culpa não é deles: é da Troika. Dá a ideia que nós já não mandamos neste País. Aliás, a democracia tende a cair estrondosamente.”

 

 

“O Bonfim tem dinheiro para fazer mais e melhor trabalho!”

 

 

Voltando mesmo à pergunta.

“Pois. É claro que a possibilidade da extinção da autarquia do Bonfim me revolta e entristece-me, independentemente de ser uma pessoa muito alegre, muito otimista. Basta olhar para a minha pintura que se vê que sou uma pessoa muito otimista. É raríssimo pintar alguma coisa dramática, o que não quer dizer que o “drama” não seja arte e bonito, mas eu sou otimista!

No caso do Bonfim, o presidente da Junta, Armindo Teixeira, parece que já adotou o problema da Troika. Agora, quem manda é a Câmara! Vê-se isso pelo fecho do jardim-de-infância, e mesmo com a transformação da freguesia, onde ele diz que eu menti no boletim do PCP-Bonfim, ao referir que ele nunca defendeu publicamente as atuais fronteiras da freguesia.

 

Menti? Não! Nas diversas assembleias que se fizeram no Bonfim, e foram bastantes, ele nunca usou da palavra para dizer que defendia a freguesia e que ela não fosse modificada.

Ele sempre argumentou que a Junta não tinha competências para fazer isto e aquilo. Então, a Junta do Bonfim se não tem competências ainda quer fazer mais competências? Quer ficar diluída numa freguesia – microconcelho- com cerca de 60 mil habitantes? Isso é um disparate! Trata-se de uma mega-freguesia que é capaz de ficar muito mais por debaixo da pata da Câmara, uma vez que o território é grande e muito difícil de ser bem gerido.

O Bonfim, como já deve ter reparado – sobretudo nas informações que eles fazem –, tem dinheiro suficiente para fazer mais e melhor trabalho, sobretudo numa altura destas.

Não é andar a dar dinheiro às pessoas. Não! É criar condições para as pessoas terem uma ocupação. Fazer pequenos arranjos aqui e acolá.

 

Assisti, recentemente, a uma coisa, verdadeiramente, caricata, mesmo à porta da minha casa.

Estavam cinco camionetas das “Águas”, com oito ou nove homens. Foram lá arranjar um bocadinho de paralelepípedos que estavam soltos. E eu reparei que, a cinco metros desses paralelepípedos, que estavam outros, exatamente, nas mesmas condições. Pedi-lhes, então, que arranjassem o outro “bocado”. O trabalhador das “Águas” disse que não, porque se o fizesse ainda o “mandavam prender! (risos).

Quer dizer, eles (“Águas do Porto”) gastam uma fortuna para arranjar um buraco e esquecem-se de uma rua que está um desastre, como é o caso da de Santos Pousada”.

 

Mas, na rua do Barão de Nova Sintra, junto às “Águas”, colocaram lá um excelente tapete.

“Pois!”

 

 

“No Bonfim: As pessoas do PSD foram sempre mais competentes que as do PS!”

 

 

Durante a sua vida autárquica trabalhou com pessoas muito competentes. Já referiu alguns nomes, mas será que há mais?

“O nosso primeiro grupo na Assembleia de Freguesia do Bonfim. Era eu, o engenheiro Seca e o advogado Teixeira Portela. Depois, apareceram outras pessoas competentes, como é evidente.

Mas, vou dizer aqui uma coisa que pode ser um contrassenso. Já que estamos a falar a verdade é a verdade que eu digo:

Na minha opinião, as pessoas do PSD foram sempre mais competentes que as do PS, quer os presidentes de Junta, quer os membros do executivo. Eles foram sempre mais competentes e mais abertos ao diálogo que o Partido Socialista, a não ser este último mandato do senhor Armindo Teixeira, Essa é a minha opinião, a qual pode não corresponder, inteiramente, à verdade”.

 

E o nosso Porto? Como está o nosso Porto?

“O nosso Porto, embora em certos aspetos tenha coisas interessantes, como o turismo – que se deve não tanto à Câmara mas mais ao aeroporto de Pedras Rubras e ao Porto de Leixões, e, igualmente, a certas estruturas hoteleiras que se fizeram-, penso que o dr. Rui Rio, ou a Câmara do Porto melhor dizendo – é que ele pode mover-me um processo! – olha, muito mais, para a alta e média burguesia do que para a pequena burguesia, a qual se encontra em riscos de desaparecimento, e para os trabalhadores, assim como para as pessoas que têm muito pouco.

O dr. Rui Rio esqueceu-se da parte oriental da cidade…

 

… ele assumiu, recente e publicamente, esse erro!

“Já apresentei, em sede da Assembleia de Freguesia do Bonfim, um leque de propostas sobre questões que nós consideramos críticas no Bonfim. Todo o Bonfim é uma zona muito crítica. Vou começar pela belíssima zona baixa – as ruas dos condes e do jardim de S. Lázaro- que, sempre que por lá passo, sinto-me em Paris.

É uma zona lindíssima, mas está votada completamente ao abandono! A culpa não é só da Câmara, mas muito de quem deixa uma casa abandonada durante anos e anos, sem que ninguém chame atenção para esse problema; sem haver uma lei que proíba uma casa ficar vazia; como a adulteração de muitos prédios antigos isto com a adição de outros prédios que nada têm a ver com aquilo que estava antigamente.

É bom que se saiba que, no Bonfim, encontram-se as “Belas-Artes”, no palacete dos Braguinhas, está o cemitério do Prado do Repouso, está a Biblioteca Municipal, está o colégio em frente ao Jardim de S. Lázaro com a capela e o seu belíssimo edifício; as Fontainhas… o Bonfim tem muita coisa!”

 

Pois tem, mas está no estado em que está!

“Nós temos feito chegar à Junta, para ser encaminhado para a Câmara, uma série de reclamações sobre o estado em que se encontram as zonas mais críticas da freguesia: S. Vítor, com uma quantidade de “ilhas” em condições insalubres, e de manipulação de rendas, que a gente, às tantas, não sabe quem é o senhorio daquilo; as Fontainhas e a sua escarpa. Tudo aquilo já deveria ter sido recuperado há anos.

O engenheiro Oliveira Dias – antigo vereador da CDU na Câmara Municipal do Porto – queria recuperar aquilo e fazer um grande miradouro sobre o rio e sobre a cidade, no sítio onde está o tanque das Fontainhas, mas nada foi feito!

Depois temos a “Póvoa”, que é uma aldeia das piores do interior. Sem os cuidados que as pessoas das aldeias têm. Está um desastre absoluto.

Temos a zona das Eirinhas, onde os terrenos são, na sua maioria, pertença da Câmara. Porque é que não se aproveitam esses terrenos para serem vendidos e darem dinheiro à autarquia? Pena. È que, agora, já passou a melhor época para vendas. Mas, pelo menos, arranjar aquela zona que fica a metros do Hospital Joaquim Urbano: uma permanente lixeira!

A Lomba, apesar de todas as dificuldades, tem um fenómeno curioso: as pessoas têm um certo cuidado pelo sítio onde vivem, e isso deve-se também à permanente ação da Associação de Moradores. Aliás, associações que, infelizmente, desapareceram nas outras zonas.

Até nos bairros camarários deveria haver uma associação de moradores, coisa que a Câmara nunca percebeu. Poderia chamar-se de “condomínio”. O importante era ter um grupo de moradores que se interessasse pelo bairro… e, assim, tudo estaria melhor e muito mais bonito e… mais democrático.

Mas, a Câmara só quer mandar em tudo. Manda mal, explora as pessoas, e faz obras que de nada valem, pois não passam de um lavar de cara e nada mais do que isso.”

 

Campanhã também vive esse tipo de problemas…

“… Campanhã até é das piores freguesias da cidade, porque quanto mais oriental, mais cheira a bloco soviético!” (risos)

 

 

“Gosto de cantar, tocar viola e faço muita música!”

 

 

Quando surge a sua paixão pela pintura?

“A minha primeira paixão é a minha mulher! Mas, a pintura é uma segunda paixão, e muito forte! Espere! Não é a segunda; eu tenho duas paixões a seguir à da minha mulher: uma é a música e outra a pintura.”

 

Música?

“Tenho muitas músicas. Eu faço música e canto. Tenho, inclusive, uma música gravada num disco do Adriano Correia de Oliveira. Uma música chamada “Saudade, Pedra e Espada”. Foi uma música que o Adriano gostou, e disse-me: vou gravar-te isto!

Foi ainda no tempo do fascismo. E ele remata: “eu vou gravar-te isto, mas vais ver-te à rasca com a PIDE!”. Fiquei um bocado aflito, mas, pronto, lá se gravou a música e mandamos lixar a PIDE! Na verdade, eu gosto muito de cantar, tocar viola, e faço muita música!”

 

Desconhecia essa sua faceta.

“Qualquer dia vai conhecer, porque sou capaz de gravar um disco num estúdio privado. Depois darei o CD aos amigos.

Mas, a pintura?! Desde miúdo que gosto de pintura. Gosto de artes! Sou sobrinho-neto de um grande escultor português: António Fernandes Sá, que era tio da minha mãe, e que vivia em Avintes. Ganhou um prémio em Paris, da Academia. O “Rapto de Ganimedes”, que se encontra no Jardim da Cordoaria, no Porto… é  dele e é uma estátua belíssima!

Íamos muito a casa dele. O nosso passeio noturno era ir à casa do tio Sá. Era um homem muito bonito, de barbas, já com muita idade, e era muito divertido. Tinha uma casa cheia de obras de arte… era uma coisa fantástica! Eu ficava sempre com os olhos virados, quando via aquelas coisas tão bonitas.

 

Portanto, desde muito miúdo que comecei a olhar muito para as artes. Depois, tive a sorte de, vivendo em Avintes, e não gostando nada de ir à Escola – na minha vida de estudante, do primeiro ao sétimo ano, fui cinquenta por cento das vezes às aulas -, porque, para mim, ela era uma prisão muito grande. Quando não ia às aulas, ia para a oficina de uns entalhadores de madeira, que faziam coisas belíssimas. E ia para a casa do senhor Jerónimo Martins – não o do “Pingo Doce”! –; senhor que já tem muita idade, mas que, felizmente, ainda é vivo, e na minha adolescência, lá estava duas a três vezes por semana, a trabalhar, sem ganhar, mas a aprender! Eu aprendi muito a desenhar com ele.

Depois, quando vim para o Porto, essa coisa da pintura ficou ainda a germinar. Desenhar, sempre desenhei! Tenho milhares de desenhos.”

 

Tem algum livro com as suas obras? Já fez exposições…

“…já fiz várias exposições!”

 

E como chega a este local… aqui ao seu ateliê?

“Pintar em casa era complicado, até que apareceu este espaço na rua de Aires Ornelas, isto há cerca de vinte anos.

Vim para aqui e comecei, então, a pintar aquela arte muito ingénua – naïf -, mas que já era mais do que isso. Eu aprendi tudo por mim…

 

Nunca deu uma “saltada” às Belas Artes?

“Não. “Saltada” só para ver as belíssimas exposições que lá se faziam antigamente. Portanto, comecei a pintar aqui, até que um dia, da Cooperativa Árvore – da qual já era diretor – veio aqui um colega da direção, gostou dos trabalhos e aconselhou-me a fazer uma exposição, o que, na realidade veio a acontecer. Fiz uma exposição com trinta quadros.”

 

 

Essa exposição entusiasmou-o?

“Sim, porque  eu – essa é uma dádiva da natureza – tenho muitos amigos! Para além da minha mulher e dos meus cinco filhos (duas filhas minhas e três da minha mulher)… considero-os todos meus filhos  – um é pintor e está aqui no andar de cima do meu ateliê. Chama-se Nuno Gandra. Ele andou nas Belas Artes. Não é melhor nem pior que eu!”.

Bem. Tive, então, a sorte de todos os amigos aparecerem a essa minha primeira exposição e comprarem os trabalhos quase todos.  De maneira que eu fiquei estupefacto. Aquilo, na verdade, dava uma fonte de rendimento bestial. (risos), além de me dar um gozo esplêndido estar a pintar horas e horas – antigamente pintava, sobretudo, à noite; agora deito-me muito cedo!

Já vou, para aí, na quinta ou sexta exposição individual. A última que fiz foi no Parque Biológico, em Avintes…

 

…sempre a sua ligação a Avintes.

“Sim. E, brevemente, vou fazer uma outra no Clube Recreativo Avintense, porque eles pediram-me para repetir uma exposição, mas já com alguns trabalhos novos.

E, agora, estou a preparar uma nova exposição, que terá de ser, forçosamente, na Cooperativa Árvore, porque já estou a ficar menos novo; tenho este ateliê cheio de tralha, e tenho de começar a pensar em esvaziar isto para quando tiver deixar de pintar, por já ter muita idade ou por outro motivo menos agradável – que é inevitável, mas não custa nada porque é a coisa mais natural do mundo…

 

…gostaria de ter um espaço próprio para as pessoas contemplarem as suas obras?

Não! Gosto da “Árvore” que é uma grande referência da cidade do Porto.”

 

Há quantos se encontra na Cooperativa Árvore como diretor?

“Há cerca de vinte anos”.

 

E a “Árvore”, como disse, continua a ser uma grande referência na vida cultura da Invicta. Pode dizer-se que mantém a sua grande dinâmica?

“Grande dinâmica… não! E não, porque nós, durante anos, tivemos sempre subsídios e agora isso já não acontece. Aquilo era uma cooperativa que se destinava, sobretudo, para lançar artistas novos e novas formas de arte, mas, agora, parece que a Câmara não gosta de cultura…”

 

…e os privados ajudavam?

“Sim. E havia o Governo Civil… que já acabou. A Câmara também dava um subsídio. O Ministério da Cultura sempre nos deu algum apoio, e, ainda assim, nós íamos governando a casa com o que vendíamos para colmatar algumas despesas. Mas, atualmente, pouco se vende, e nem há subsídios!

Nós estamos com grandes dificuldades, até porque resolvemos aumentar as instalações para se criar um espaço multimédia, que era algo que estava a fazer falta na “Árvore”, uma vez que a juventude está muito ligada às novas tecnologias, e, assim, a criação dessas oficinas para dar resposta a uma série de anseios e desejos de muita malta.”

 

 

“Se fosse presidente de Câmara conhecia, dedo a dedo, os funcionários”

 

 

Mesmo assim, a “Árvore” está numa fase de crescimento?

Sim, mas estamos com grandes preocupações, isto pelo facto de termos uma estrutura muito pesada – temos vinte e tal funcionário e para pagar a essa gente toda, a coisa não é fácil -, as vendas decaíram imenso. De salientar, entretanto, o facto que, para o ano que vem, a Árvore vai fazer cinquenta anos de existência. Vai ser uma data importante para uma chamada de atenção para as dificuldades da instituição, e para a solução dos seus mais graves problemas.

A “Árvore”, apesar de todas as coias, é proprietária do edifício – muito valioso! -; temos ainda um espólio muito grande de obras de arte…”

 

… qual é o seu cargo na direção da “Árvore”?

“Sou tesoureiro. É um cargo estúpido, porque o crescimento que a “Árvore” teve, não permite que o tesoureiro acompanhe a vida financeira da instituição. É um economista que está lá, e com o qual me reúno todas as semanas, para saber como está a situação e transmiti-la à direção”.

 

Pintura, autarquia, “Arvore”, arte… música. Uma vida multifacetada esta a de Roberto Machado?!

“É a vida de muita gente. É a sua, por exemplo, com a paixão que tem pelo jornalismo. E há muita outra gente que, de vez em quando, se conhece e ficámos admirados com as artes que nos apresentam.  Aqui, há tempos, uma sobrinha minha, arranjou um novo namorado, e ela disse: “Olha que o António toca muito bem viola!” E eu: “E então, toca?! Trá-lo cá a casa “. E ele foi, e eu fiquei, verdadeiramente, banzado porque o rapaz toca viola esplendidamente bem!

 

Sim?

Sim. Ele é um funcionário público na Câmara Municipal de Gaia, mas a Câmara de Gaia nunca descobriu, certamente, esse rapaz que é genial a tocar guitarra.

Se fosse presidente de Câmara conhecia, dedo a dedo, os funcionários, pode ter a certeza! E dava-lhes um incentivo para continuarem as suas atividades extralaborais.

A cultura, para muita gente, é ter muitos livros e meter na cabeça o que os outros já disseram. A cultura não é isso! A cultura é a transformação de um homem. Só isso, mais nada! Infelizmente o Homem não se tem transformado!”

 

 

“Portugal não é um país qualquer! Portugal é um grande país!”

 

 

Pois…

“Ando, agora, a ler uma séria de coisas do tempo dos gregos, e eu fico admirado com as semelhanças que há entre o fim da Grécia e o fim da Europa. Agora!

E andamos a discutir merdas que não interessam para nada, deixando tudo o que é importante para trás.

Portugal não é um país qualquer! Portugal é um grande país! O artesanato que tem; as artes que tem; na música que tem; na fruta que produz – porque mais ninguém produz fruta como nós -; a nossa água …”

 

Sente-se realizado?

“Não! Quando uma pessoa se sente realizada é porque mais nada pode fazer! Tudo o que fiz e farei, será feito com, amor pelos outros e pelas coisas que faço. Nunca vendo um quadro que não gosto. Só exponho coisas de que gosto. Às vezes engano-me, porque, vou por este, mas não gosto muito… e vou expor, e acaba por ser o primeiro a ser vendido. Se calhar sou eu que avalio mal os meus trabalhos!” (risos)

 

Está aí para as curvas?

“Espero ainda lutar por muitos anos e, sobretudo, conviver com as pessoas da família, e da grande família dos amigos, que é uma família paralela, fundamental para o nosso equilíbrio e para o nosso apoio na vida, e mesmo apara alguns inimigos de estimação, que a gente vai arranjando, aos quais achamos graça pelas malandrices que eles fazem.

Porque isto da corrupção é uma coisa muito antiga em Portugal. É algo que vem desde os fins do século XIX. Basta ler o Eça e ele já fala nas corrupções e nos amigos. Mas isto já vem há muito tempo.”

 

Está-nos no sangue…

“…está! Mas, era altura de percebermos isso e encaramos este país como uma coisa muito importante na Europa, e que os outros olhassem para nós com um certo respeito. Nós só não sabermos vender o que é nosso!”

 

Este é um “Viva Portugal”?!

“Não digo que seja um Viva a Portugal, é, essencialmente, um Viva ao Mundo.”

 

 

 

 

Texto: José Gonçalves

Fotos: António Amen

 

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