Menu Fechar

De Aurélio Paz dos Reis a Manoel de Oliveira: o Cinema no Porto

Maximina Girão Ribeiro

A cidade do Porto bem podia ser considerada como a capital do cinema em Portugal. Senão, vejamos…

Aquele que é considerado como “o pai do Cinema Português”, Aurélio Paz dos Reis, nasceu na cidade do Porto, a 28 de Julho de 1862. Este próspero comerciante e floricultor, que viveu no seu palacete na Rua de Nova Sintra, nº 125, era proprietário da loja, “A Flora Portuense“, situada na então Praça de D. Pedro (actual Praça da Liberdade), era também fotógrafo prestigiado e premiado, por diversas vezes, em Portugal e no estrangeiro. Destacou-se nesta arte por tirar retratos a pessoas ligadas ao teatro tendo registado, igualmente, algumas cenas ligadas à vida quotidiana, aos acontecimentos políticos portugueses, sobretudo os relacionados com a revolta do 31 de Janeiro de 1891.

Aurélio Paz dos Reis
Aurélio Paz dos Reis

A descoberta realizada pelos irmãos Lumière, cedo chegou a Portugal e despertou a curiosidade de Paz dos Reis, dado que a captação da imagem era para ele uma verdadeira paixão. Pensou mesmo em comprar um cinematógrafo aos irmãos Lumière, que não anuíram a essa proposta, acabando por adquirir aos irmãos Werner uma variante do cinematógrafo, constituído por uma máquina de filmar e projectar.

Foi com este equipamento que o pioneiro do cinema português exibiu, no dia 12 de Novembro de 1896, “[…] no kinematógrapho vários quadros, alguns dos quais muito engraçados e que tiveram intensos aplausos”, como relatava o Comércio do Porto (13 de Nov.).

Saída da Fábrica "Confiança"
Saída da Fábrica “Confiança”

Esta projecção aconteceu durante um dos intervalos de uma zarzuela que estava em cena, no Teatro do Príncipe Real, (hoje Teatro Sá da Bandeira). Eram “[…] 12 perfeitíssimos quadros, sete nacionais e cinco estrangeiros”, tal como noticiava o Jornal de Notícias (12 de Nov.). Tratava-se de pequenos filmes (cada um com cerca de um minuto). Um dos exibidos foi o primeiro que foi filmado por Paz dos Reis, a “Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança”, feito à hora do almoço, quando os operários (homens e mulheres) saíam pela porta principal do edifício da Camisaria Confiança, na Rua de Santa Catarina.

kinetografo

O “Kinetographo Portuguez” de Aurélio Paz dos Reis exibia, assim, a primeira sessão portuguesa de cinema, com filmes portugueses, filmados por um português e, este facto extraordinário, levado a efeito por um portuense, marca o nascimento do cinema em Portugal, cujo início mundial, tinha tido lugar, apenas, alguns meses antes, com os irmãos Lumíère, em Paris.

Destacamos, ainda no Porto, a existência da Invicta Film, nascida a 22 de Novembro de 1917, empresa cujos principais objectivos eram o fabrico, o aluguer e a venda de películas cinematográficas. Esta produtora teve uma importância significativa, não só pela inovação que representou, como pelo número de filmes de relevância para a história do cinema, em Portugal. A empresa tinha as suas instalações na Quinta da Prelada, na zona do Carvalhido, onde se produziram filmes de cariz genuinamente português.

invicta film

No entanto, a partir de meados de 1922, a Invicta Film começou a sentir dificuldades financeiras, devido sobretudo à crise económica que se vivia. Em 1924, fez a sua última produção. Entrou em declínio e acabou por fechar as portas, definitivamente, em 1931, curiosamente, no mesmo ano em que morreu Aurélio Paz dos Reis e em que Manoel de Oliveira estreava o seu primeiro documentário, considerado de grande qualidade, “Douro, Faina Fluvial”, sobre a vida nas margens do rio Douro.

Por essa altura, já os grandes filmes internacionais eram exibidos nas salas de cinema do Porto e existiam revistas como O Porto Cinematográfico ou a Invicta Cine, especializadas na arte cinematográfica e na apreciação crítica dos filmes. De igual modo, o movimento cineclubista ganhou seguidores no Porto, sendo o Cineclube do Porto, fundado em 1945, o mais antigo do país.

Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira

E, como se tudo isto não bastasse, eis que o Porto gerou um dos maiores vultos da cinematografia portuguesa e mundial pois, em 1908, quando ainda o cinema era mudo e dava os primeiros passos como nova forma de expressão artística, nascia Manoel de Oliveira!

Esta personalidade assistiu à passagem do cinema mudo a sonoro, do cinema a preto e branco para colorido e ao aparecimento do cinema digital.

Desde o “Douro, Faina Fluvial“, até ao seu último filme “O Velho do Restelo“, que se estreou no dia em que o realizador completava 106 anos, Oliveira foi alvo, inicialmente, da incompreensão ou até da rejeição, por parte dos seus compatriotas em relação aos seus filmes mas, progressivamente, o reconhecimento internacional fez acordar a opinião pública portuguesa que o aceitou e enalteceu, já que eram inúmeros os prémios, atribuídos internacionalmente!…

Deixou-nos há um mês, este Homem que não teve tempo para concretizar todos os seus projectos cinematográficos e que, mesmo com 106, continuava a sonhar e a “construir” futuros. Fica-nos a glória de ter sido o Porto o berço do cinema português, a cidade com os primeiros estúdios, onde se rodaram a maior parte dos filmes mudos portugueses, onde viveu e trabalhou o mais velho realizador do mundo, aquele que enriqueceu a cultura, deixando para a posteridade um acervo fílmico de elevado valor patrimonial e inestimável interesse histórico.

Fotos: Pesquisa Google

Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01mai15

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.