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Salto para o Infinito

José Manuel Tavares Rebelo/Tribuna Livre

Estávamos na Plaza Mayor de Salamanca. Lembro com afecto aqueles momentos de conversa a três (também com o Rodrigo) em que, a propósito de já não sei o quê, falaste no “salto para o infinito” de Nelson Évora. Na noite cálida de Agosto, e no meio da agitação festiva da movida salamantina, fiquei um pouco surpreso e perguntei: Que salto é esse, Leonor? Foi então que, com um meio sorriso na tua cara bonita, leste estas linhas do livro que trazias entre mãos: “Deste Verão português surdamente incompatível, com conflitualidades, embaraços e pessimismo, resgato uma frase que seria pena ficar perdida entre a cinza. Foi proferida pelo atleta Nelson Évora, e não apenas representa, creio, a descrição de uma técnica ou de um método, mas é também uma espécie de razão onde a vida, a inteira vida, se pode decidir. “Sempre que salto, salto para o infinito”, disse ele. No triplo salto dos Jogos Olímpicos de Pequim esse infinito correspondeu a 17,67 metros, e valeu-lhe a medalha de ouro. Mas o infinito é esse aberto que não acaba… [1]

Logo Rodrigo, engenheiro aeronáutico desempregado, imbuído de cálculos e certezas espácio temporais, atalhou delicadamente: Eu não dou um passo sem ter a certeza que o chão que piso é sólido, quanto mais saltar para o infinito! Nem salto a curta distância, sem saber onde vou cair… E calou-se, como que envergonhado por ter exposto a sua opinião sincera. E logo Leonor: Nos tempos que correm, “a esperança pede de nós coragem e risco”[2], ao mesmo tempo que lhe apertava o braço amistosamente.

Fez-se silêncio na mesa dos três, silêncio produtor de ideias, de interrogações, de dúvidas, de busca de caminhos, enquanto o café fervilhava de ruído, de conversas e gargalhadas, do tilintar das chávenas e pratos de tapas, com os empregados num vai vem frenético de copos cheios cruzando-se com outros já vazios, ouvindo-se em fundo sons de jazz e a voz provável de Suzanne Abbuehl cantando blues nostálgicos.

conversa de cafe - 00

É preciso mais do que isso, a minha voz quebrou o silêncio (aquele silêncio restrito na mesa de três que cumplicemente ali se instalara). E ante o olhar interrogativo dos meus dois amigos, resolvi adiantar: coragem e risco são palavras necessárias e que traduzem um caminho a percorrer, mas não acham que, nos tempos que correm, resistência passiva e pacífica lhes fariam boa companhia? Olha Rodrigo, não te acanhes sempre que julgues necessário ser contra o sistema, mesmo que não gostes de saltar para o infinito quando todos saltam… o teu infinito pode ser outro… A democracia também se exerce fazendo silêncio, aqui, nas lojas Zara ou noutros ambientes e espaços intoleráveis de músicas e historietas imbecilizantes nas capas da moda e nas televisões castradoras de pensamentos críticos (e desculpem o aparente azedume).

Precisamos de esperança e risco e de coragem e resistência para lutar contra as nossas democracias europeias doentes. Já devem ter reparado como estamos a exercer uma espécie de contra corrente verdadeiramente democrática neste café espanhol sem prejudicar ninguém. E que nos está permitindo fazer silêncio no meio do ruído, conversando sobre assuntos sérios ao mesmo tempo que estamos a gozar este genuíno ambiente espanhol, comendo estas tapas deliciosas e bebendo estas cervejas? Que é isto senão resistência? Mas levaria mais longe esta atitude. Nos tempos que correm, nós vemos por esta Europa fora governantes corruptos, incompetentes e também traidores ao compromisso que assumiram face aos cidadãos, salvo raras e honrosas excepções.

Líderes que colocam em primeiro lugar os seus próprios interesses pessoais ou partidários (desculpem, sei que estou a ser chato) e que governam geralmente a reboque do capitalismo financeiro e dos grandes grupos económicos, estando-se nas tintas para os valores humanos que deveriam estar no cerne das suas preocupações (a voz de Zeca continua sempre actual, diz Leonor, “eles comem tudo e não deixam nada”). Homens e mulheres (mais eles do que elas, falou Rodrigo) que não são solidários com aqueles que não têm casa, não têm pão, nem emprego, nem escola para os filhos. Essa gente é apoiada por uma comunicação social orwelliana, que tenta controlar a vida dos cidadãos e invade os direitos do indivíduo sob pretexto de facilitar a tarefa aos agentes económicos dos estados. Uma comunicação social que renega a raiz cristã europeia, que cultiva a ausência de valores culturais, espirituais e de fraternidade humana (sei que estou a ser politicamente incorrecto, quero lá saber…) , que inculca o acriticismo, a resignação estúpida (que a há inteligente, quando existe um destinatário, uma finalidade), que privilegia a mediocridade, a contracultura.

É por isso que é necessária uma reviravolta social para transformar as sociedades em democracias musculadas!, diz Leonor pausadamente, martelando cada palavra e conhecendo o efeito das mesmas. Quê?, quase gritámos, estás a preconizar ditaduras lideradas por visionários com poderes reforçados? E ela: De modo nenhum! É exactamente o oposto! O que defendo são pequenos grupos como este aqui no café, cujos membros, não se considerando uns iluminados, podem constituir pequenos focos de resistência passiva e pacífica, como falávamos há pouco. Cidadãos conscientes dos valores universais (seres humanos iguais num UNIverso fraterno) e que, inseridos nestes pequenos grupos, se multiplicassem aos milhares, chegando a todas as estruturas dos estados, de modo a definir novas leis orgânicas fundamentais que permitissem um regresso aos ideais da democracia da Grécia antiga. Assim, os cidadãos poderiam derrubar com mais facilidade os políticos desonestos e eleger os honestos. Não me perguntem como, não sou jurista nem constitucionalista, estou só a lançar ideias para melhorar o mundo. Ou não posso?

Para tal é preciso esperança e risco (para construir um futuro), coragem e resistência (para alterar o presente) e assim saltar para o infinito.

Tudo isso está bem, mas ainda não nos explicaste a questão da democracia musculada, reclamou Rodrigo. Então observem a minha ideia: a existência de pequenos, mas cada vez mais numerosos grupos de resistência passiva e pacífica que lutem nos seus locais de residência (não falo em locais de trabalho para não confundir com sindicatos), criando mecanismos intermédios nas vilas, cidades, aldeias e regiões, permitiria construir centros de decisão mais próximos. Assim teríamos democracias musculadas, em que o músculo não estaria no topo, mas sim na base, no homem, no velho, na mulher, no jovem. Não nas lisboas, não nas madrids, não nas berlins, não nas bruxelas e não nas londres, mas na casa, na rua, na escola, na igreja e na freguesia de cada um(a).

Para isso é preciso resistir ao actual status quo e saltar com esperança e risco para o infinito, tal como Nelson Évora.

Obrigado, Rodrigo e Leonor, bons companheiros nesta viagem de férias.

A continuar a conversa noutro café, noutra cidade, talvez noutro país. Ou então no Machico, Região Autónoma da Madeira. Quando vier o “tempo das amizades visionárias” de que falava Sophia[3]. Quem sabe?

VAI NASCER UM NOVO MAIO

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

Fernando Pessoa

Vamos enterrar Abril

no panteão nacional

(eles mataram-no)

e  fazer nascer um novo Maio

livre fraterno

solidário

Vamos cerrar mãos

nas mãos dos outros

Vamos secar lágrimas

de tantos e tantas

que se tornaram algarismos

de deve-e-haver

beijar a tua face de dor contida

ouvir a tua voz ciciada

transformá-la em trovão

de certeza e esperança

construir um Maio

em dia e hora marcados

pela força do espírito da paz

com flores e dignidade

Mãos erguidas e abertas

sentindo a luz que estilhaça

muros  arrogância e números

O cravo desfez-se? O vento traz outro!

Este Maio ilumina

levanta os pobres os fracos

os excluídos

sobre as ruínas

dum Portugal morto

renascido em alegria.

É a Hora!

A transformação de Abril em Maio não é um poema político. É um grito de resistência e de certezas. Existem energias aptas a reerguer a pátria feita em escombros. Basta despertá-las. E fazer a Revolução. Sem armas, com alma…

Foto: Pesquisa Google

 

Por vontade da autora, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

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[1] José Tolentino de Mendonça, “O Hipopótamo de Deus e Outros Textos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 83

[2] Idem, p. 84

[3] Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós e Outros Poemas, Lx, Caminho, 1997, p. 13

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