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João Torres (USP/CGTP): “O governo está a acertar contas com o 25 de abril”

 

 

João Torres, coordenador da União de Sindicatos do Porto (USP) da CGTP-Intersindical, está preocupado com o futuro do país, e ainda mais, com as realidades dramáticas que, atualmente, afetam os trabalhadores da região.

Em dia do Trabalhador, o nosso entrevistado aborda certos, determinados e alarmantes factos, lançando fortes ataques à política laboral do atual governo.

João Torres, que se encontra há cerca de 12 anos à frente da USP, confia, contudo na mobilização e consequente, luta dos trabalhadores contra os ataques que diz estarem a ser alvo, assim como em alternativas políticas que, pelos vistos, são mais importantes que as eleições, porque estas, em seu entender, são tudo menos democráticas.

Num distrito com os maiores índices de desemprego, precaridade no trabalho, salários em atraso, e beneficiários do Rendimento Social de Inserção do país, o coordenador da USP/CGTP teme o pior, caso o poder político não dê atenção às realidades do distrito e intervenha, urgentemente, na sua reanimação económica.

 

 

Como analisa a elevada, e crescente, taxa de desemprego no nosso país (15 por cento segundo estudos recentes) e, em concreto, no Porto, um dos distritos onde este flagelo regista números, verdadeiramente, alarmantes?

Não achamos estranho que o desemprego atinja estes valores. E não achamos estranho porque temos em consideração a política que tem vindo a ser desenvolvida pelo governo.

Tendo em conta todas as medidas da Troika e toda a política que antecede esse acordo, digamos que estas últimas medidas de austeridade, de reforço da exploração, do empobrecimento, de recessão económica, de dificuldade no crédito, e de limitações ao investimento produtivo, o que é poderíamos esperar?

Aliás, nem os próprios promotores e defensores destas políticas escondem essas dificuldades.

Os números são o que são e, apesar de tudo, muito abaixo daquilo que é a realidade…

 

há desempregados que não estão inscritos nos respetivos centros

…estamos a falar numa taxa de desemprego considerada oficial, porque o desemprego efetivo  ultrapassa o milhão e duzentos mil. Portanto, isto quer dizer que a taxa real de desemprego é superior aos vinte por cento.

Isto é um drama… uma chaga social. Isto prova que estas medidas não são solução, pois vão meter o país num atoleiro de que dificilmente se sairá.

Assim, a contestação que a gente promove é na perspetiva, não só, de salvar os trabalhadores e as vítimas destas políticas, mas de salvar, acima de tudo, o nosso país.

 

O Porto tem uma elevada taxa de desemprego, quando há anos era o motor económico do país. Mas, além dos desempregados há que salientar ainda o elevado número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI), o trabalho precário e toda uma série de lamentáveis e preocupantes situações sociais. Qual o quadro que traça no distrito do Porto?

O Porto contribui, negativamente e em força, para os números dramáticos que são divulgados. Neste distrito temos à volta de um quarto dos desempregados do país. Temos um terço dos beneficiários do RSI, o que mede, por si só, a pobreza e a exclusão social.

Há muitos anos atrás, o Porto era dos distritos mais industrializados do país e agora não é!

Não nos faltam esqueletos daquilo que foram enormes unidades de produção, ligadas a diversos setores de atividade, designadamente da metalurgia, do têxtil, do vestuário, do calçado, das indústrias elétricas, da indústria gráfica… enfim!

Hoje, o que se vive, é uma triste realidade.

Por isso, a nossa preocupação em denunciar toda uma política de desenvolvimento do país que vai no caminho contrário daquilo que é necessário para o distrito do Porto.

 

“Poderão ser destruídos, num ano,

cerca de 98 mil postos de trabalho

 

Defendem o quê em concreto?

Defendemos todo um esforço na reindustrialização e no aproveitamento de todas as capacidades do país. Porque, afinal, nós temos capacidades. Temos o mar; temos um clima propício à agricultura, apesar desta seca de que muita gente se queixa. E temos uma outra mais-valia a que muita gente não está atenta, que são os trabalhadores portugueses: dos melhores que há.

 

Há quem diga que não.

Pois há! São os tais que os mandam emigrar.

Com a reindustrialização do país; um investimento na capacidade produtiva; com um investimento em áreas que foram abandonadas, designadamente, as atividades ligadas ao mar e à agricultura…

 

…e a massa cinzenta. É dramático o número de jovens licenciados que se encontram no desemprego.

Ora nem mais. Aí está o investimento no capital humano, que, normalmente, é desvalorizado e é o que mais valorizado deve ser.

Já agora, era bom que soubesse que a CGTP fez contas relativamente às medidas do pacote que por cá chamamos de exploração e empobrecimento. Assim sendo, concluímos que os tais sete dias a mais de trabalho forçado e à borla, que eles querem legislar, significam a destruição, em apenas um ano, de 98 mil postos de trabalho.

Para um país que tem uma taxa efetiva de desemprego superior a 20 por cento; que tem um milhão e duzentos mil desempregados efetivos e pessoas disponíveis para trabalhar, é um crime não se disponibilizar trabalho para esses 98 mil trabalhadores, como será também um crime fazer alterar a lei no sentido de oferecer, de mão beijada, este dinheiro aos patrões.

No fundamental, estas têm sido opções políticas erradas que o nosso povo está a pagar da forma que se sabe.

 

Depois sabe-se também, que 95 por cento das nossas empresas são de mico, pequena ou média dimensão, sendo estas as principais vítimas de insolvências que se vão registando trimestralmente.

E depois ainda há a dificuldade no acesso ao crédito.

Quanto à qualidade e formação dos empresários… estamos conversados.

Há a confirmação de estudos, que vão no sentido de que quem precisa de formação não são só os trabalhadores, talvez muito mais os próprios empresários.

Estamos num tecido produtivo que tem características muito próprias, e onde noventa e tal da economia assenta em micro, pequenas e médias empresas, as quais albergam a maior parte da mão-de-obra, e inda com toda uma filosofia assente na ideia de que todos podem ser patrões, em detrimento da valorização do emprego, achamos que isso é uma conceção errada para se ultrapassar os obstáculos estruturais da nossa economia.

 

 

 

 “O distrito do Porto é onde o desemprego

de longa duração é mais elevado

 

  

Falei, há pouco, dos jovens licenciados que se encontram no desemprego, mas dramática é também a situação de um vasto leque de pessoas, entre os 40 e os 50 e tal anos, que se encontram na mesma situação. São os tais velhos para trabalhar e novos para a reforma…

É verdade!

O distrito do Porto é onde o desemprego de longa duração é mais elevado. Esse é um problema complicadíssimo! Estamos receosos que as alterações que estão aí para vir, designadamente à volta da atribuição do subsídio de desemprego –  da proteção ao desemprego -, possam tornar ainda mais negro o presente e o futuro para um conjunto muito significativo de pessoas que se enquadram nesse escalão etário.

 

O governo prometeu criar, mensalmente, milhares de postos de trabalho – três mil por dia, até 2013…

…nós não vemos nisso mal absolutamente nenhum.

 

 Mas, isso é exequível atendendo ao estado em que se encontram as coisas em termos económicos?

Acho que é possível fazer um conjunto de coisas. Agora, também sei qual é a diferença entre a propaganda e a realidade.

Não nos podemos esquecer que o Partido Socialista, quando esteve no governo, prometeu criar 150 mil postos de trabalho e ainda não sabemos se, o então primeiro-ministro José Sócrates, terá confundido  “criação” com “destruição”.

A verdade é que o desemprego aumentou. Portanto, a gente, nesta matéria, e no atual quadro que aponta para uma recessão económica – tendo-se já provado, de alguma forma, que todo o crescimento da economia que seja inferior a 2,5 por cento não cria emprego-, pergunta: como vai ser possível criar emprego com um crescimento negativo?

Parece-nos que, neste quadro, esta afirmação de querer criar três mil postos de trabalho por mês não passa de mera propaganda.

Em doze meses criarem 36 mil postos de trabalho, para reduzir a um milhão e duzentos mil de desempregados, estamos a falar na mesma em um milhão e duzentos mil… menos qualquer coisinha. É nisto que estamos a falar!

Depois ainda há uma outra questão: que emprego é que se vai criar?

Nós não somos indiferentes ao emprego! Emprego? Sim senhor, mas vão criar empregos com direitos, ou empregos a trabalhar ao biscate ou não sei quê?

 

 

“A Concertação Social

para poucos serve!”

 

A CGTP não abandonou muito cedo as reuniões da Concertação Social?

Não. Abandonamos a partir do momento em que achamos que nada havia mais a discutir.

 

Ficou a ideia de “abandono”…

Ficou, mas não foi isso que se passou! O que acontece é que as agências oficiais de informação passam sempre a ideia que a CGTP está ali para nada negociar… que não faz qualquer acordo. Isso é uma falsidade das maiores! Isso é uma manipulação de consciências que não corresponde, nem de perto, nem de longe, à realidade.

De que tem servido a Concertação Social de há 30 anos a esta parte?

Tem servido para melhorar a vida dos portugueses? Tem servido para os trabalhadores melhorarem as suas condições laborais?

Não!

A Concertação Social para poucos serve!

Depois, a CGTP não assina a qualquer preço. Então, qual é o preço que os outros recebem para assinar tudo?

E outra questão ainda: é preciso que se soubesse que a CGTP, não sendo obrigada a assinar todos os acordos de Concertação Social, que me lembre, já assinou, mesmo assim, quatro, e qual deles foi cumprido?

Nenhum!

Designadamente, o roubo no salário mínimo nacional, depois de ter sido acordado que, em janeiro de 2011, nenhum trabalhador português ganharia menos de 500 euros! Ainda estamos nos 485.

Em volta disto está montada uma grande farsa.

Nós, porém, estamos de consciência tranquila.

Abandonamos a Concertação Social quando vimos, uma vez mais, que aquilo que não serve outra coisa que não seja caucionar as políticas do governo.

 

A última Greve Geral não teve o apoio da UGT, ao contrário do que aconteceu em novembro de 2011. A greve convocada isoladamente pela CGTP foi um tanto ou quanto autista?

Uma greve geral faz-se com os trabalhadores. É evidente que uma greve geral pode ter mais participação se houver em torno da sua convocação, e sua realização, argumentos bastantes que convoquem o sentimento dos trabalhadores.

Entretanto, nós não temos conhecimento de alguma greve, de alguma manifestação ou de ação de luta promovida pela UGT. Temos conhecimento, isso sim, de participação envergonhada em muitas coisas.

Nas greves gerais em que eles participaram com a gente, nós soubemos qual a mobilização que eles fizeram. Quando eles estão nas greves gerais, pelo menos não fazem contra vapor!

Quando não estão na greve geral, podemos ter piquetes anti-greve.

Na última greve geral falamos com os trabalhadores, independentemente, da sua filiação sindical, no sentido de fazerem um sacrifício de modo a derrotarmos as propostas de retrocesso social.

Vivemos uma ofensiva sem precedentes depois do 25 de abril, e que nos pode levar a passar pelos tempos do Marcelo Caetano.

Isto, a passar, seria uma razia nos direitos laborais dos trabalhadores; a liberdade para despedir com grande facilidade … quase que à borla; fim do trabalho extraordinário;da regulamentação completa dos horários de trabalho, de desresponsabilização total da inspeção do trabalho… deixarem os trabalhadores, perfeitamente, dependentes da vontade do patrão para tudo e mais alguma coisa.

 

“Quer o setor público, quer o privado

estão a contribuir para o drama social que se vive”

 

A nível do distrito do Porto, quais são os setores económicos que estão a passar por maiores dificuldades?

Neste momento, temos muitas dificuldades em dizer onde não há problemas. Por exemplo, é crescente o número de trabalhadores da administração pública – seja central ou local -, que passa por graves problemas.

Este é o resultado da vontade deste governo de aplicar certas e conhecidas alterações à legislação laboral para os trabalhadores da administração pública.

Ouvimos por aí, os trabalhadores da administração pública a dizer que estão mortinhos para atingir o limite necessário para poderem ir embora, para garantir o mínimo… nem que seja penalizado.

Isto significa também desemprego. Isto significa desperdício de mão-de-obra disponível. Isto significa prejuízo para o país.

Depois, são os setores tradicionais.

Não há um setor, seja ele da construção, seja ele do pequeno e grande comércio…

 

…temos, por exemplo,  o problema da suspensão da construção do túnel de Amarante…

…ora nem mais.

Não há setor algum que possamos dizer que está a salvo. Neste momento, quer o setor público, quer o privado, estão a contribuir para o drama social que o país vive. É o desemprego; é o empobrecimento; é a exploração da mão-de-obra e dos trabalhadores; é o ataque à dignidade de quem trabalha…

 

…mas  aindahá alguns bons exemplos, no meio desta trapalhada toda. Na indústria do calçado, o número de exportações aumentou significativamente. Lá para o sul, a AutoEuropa funciona muito bem. 

Há, no distrito do Porto, bons exemplos na relação entre os trabalhadores e as entidades patronais?

É claro que há!

Há empresas que funcionam bem, mas as notícias das empresas que funcionam bem, não são as que nos chegam. O que nós queremos é que as empresas funcionem bem! Nós valorizamos esses bons exemplos.

 

Por exemplo: há uma fábrica de pneus, aqui no distrito do Porto, em que as coisas também funcionam bem…

…sim, a “Mabor”. Nós sabemos disso! Desses bons exemplos, nós nem precisamos de falar porque, normalmente, os sindicatos estão sempre associados a tudo aquilo que de pior pode haver.

Mas, a verdade é que quando falámos dos bons exemplos podemos estar a exagerar.

 

Há esse receio? O receio de “exagerar?

Pois há, porque ao dizermos que ali não há problema algum; que não há qualquer despedimento, é, contudo, capaz de não haver qualquer aumento salarial condigno.

 

 

 

“Não há democracia

no interior das empresas”

 

Porque é que só cerca de 16 por cento da população ativa se encontra sindicalizada?

Não sei se são 16 ou mais por cento. Nós sabemos os sócios que temos. A CGTP deverá ter entre os 600 e os 800 mil trabalhadores associados.

Não é fácil ser-se sindicalizado! Não é fácil ser-se delegado sindical.

Isto tudo é tudo muito democrático, mas essas pessoas depois são apontadas.

Tomar a iniciativa, estar à frente e dar a cara, não é para todos… não é fácil!

Nós sabemos que não há democracia no interior das empresas… mesmo na administração pública! Começa a haver a ideia, mesmo na administração pública, de que quem vai “ali” é apontado; quem vai aos plenários e de quem faz greve…

 

A base dos trabalhadores associados na CGTP são funcionários públicos?

A base dos trabalhadores associados na CGTP está no setor privado, ou seja, nos setores tradicionais, onde a classe operária tem muita força. Agora, também temos forte representação na administração pública. ..

 

…700 mil trabalhadores.

Desses, penso que 500 mil – os números devem estar por aí. Digamos que a força da CGTP é o seu todo!

 

Alguns dos nossos leitores já alertaram para o facto de, quando se é sindicalizado, o trabalhador sente a defesa da organização, mas quando cai no desemprego e deixa de pagar as quotas, o sindicato vira-lhe as costas. É verdade?

Não.

Há, também aí, uma falsificação de ideias. As pessoas são levadas a pensar que os sindicatos só defendem quem tem emprego…

 

…quem paga a quota.

Era o que faltava se acontecesse o contrário, mas, mesmo assim, essa ideia não corresponde, inteiramente, à verdade.

Os sindicatos são as organizações dos trabalhadores, e se os sindicatos querem ser livres e independentes; se querem ser isentos e terem uma atitude… uma postura que não deixe um mínimo de dúvidas, só podem depender de alguém, e esse “alguém” só pode ser dos trabalhadores e das suas quotizações.

É legitimo que os sindicatos vivam e sobrevivam das quotizações e que só a esses devam respeito e respostas.

Entendamos as respostas na perspetiva daquilo que é possível, porque os sindicatos não são nenhuma extensão do poder… não são os sindicatos que legislam.

Mas, quando nós estamos a defender os trabalhadores que não querem ir para o desemprego, nós não estamos a defender o seu emprego?

Quando nós solicitamos aos desempregados para que participem nas nossas manifestações, estamos ou não estamos a lutar por eles?

É evidente que estamos a lutar por eles!

 

 

“A extinção de freguesias é mais

do que razão para haver preocupações”

 

  

O movimento associativo tem vindo, ou não, a ganhar força nos últimos anos?

O que eu acho é o seguinte: esta política está a causar no distrito, como também a nível nacional, bastantes dificuldades. De qualquer forma, o esforço que nós fazemos para compensar as saídas em termos de sindicalização, têm surtido algum efeito.

Continuamos a ter, no distrito do Porto, uma base à volta de 100 mil trabalhadores inscritos, o que significa também, uma redução de verbas, porque os que saem são mais velhos e com salários mais elevados, e os que entram são mais novos.

Há setores aí, em que a saída de um implica, para cobrir a quota, a entrada de três novos sindicalizados.

E a gente sabe que os novos sindicalizados, entram com salários na ordem do “mínimo nacional”.

Isso causa-nos, por um lado, dificuldades financeiras, e, por outro, de organização.

 

Outra das preocupações que têm surgido diz respeito ao futuro dos trabalhadores da administração local, tendo em conta o facto de milhares de freguesias poderem ser extintas. As pessoas estão com medo…

… a verdade, é que aquilo que se perspetiva no que concerne à extinção de freguesias é mais do que razão para haver preocupações.  Isto não é apenas o reduzir o número de freguesias, é também reduzir a qualidade dos serviços que se prestam às freguesias… é aumentar a distância que separa as populações de uma instituição com determinados e importantes serviços de apoio.

Se tudo isto é verdade, depois ainda faltará o resto: a eliminação de freguesias vai reduzir o número de trabalhadores; se vai reduzir o número de trabalhadores, eles trabalharam para quê?

 

O Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local (STAL) mostrou-se muito preocupado com a situação…

… e nós também, até porque o STAL é nosso filiado.

 

Mas os trabalhadores não sabem o que está a acontecer e o que lhes poderá vir a acontecer

Há muita coisa que está em discussão pública e ainda haverá muita luta.

 

“Não somos uma organização

social virada para as virtudes”

 

 

Com o novo líder, a CGTP ganhou mais força?

No congresso confirmou-se aquilo que a gente já sabia, é que a CGTP é uma grande organização, e que não fica órfã mesmo depois de terem saído 53 dirigentes da sua direção.

 

Tudo isto com uma forte presença do Partido Comunista.

Pois! Também não podia ser de outra forma, pois, caso contrário, não seríamos a CGTP.

 

Mas há outras sensibilidades políticas, isto desde socialistas, bloquistas passando por católicos

…claro! Mas esse é o projeto da CGTP. É um projeto unitário que une, em torno dos seus objetivos concretos, dos quais a defesa dos mais elementares direitos dos trabalhadores. Eles são comunistas, socialistas, social-democratas, sem-partido, independentes, católicos, bloquistas…

Depois, cada um é livre de ser filiado ou desfiliado politicamente.

 

Qual o maior atentado feito, recentemente, aos trabalhadores?

Estas alterações ao Código do Trabalho são, sem margem para dúvidas, das maiores ofensivas alguma vez feita aos trabalhadores desde os tempos do fascismo.

Isto é um acerto de contas com o 25 de abril! Com os grandes beneficiários das conquistas da Revolução; com os trabalhadores… com as camadas mais sofridas da nossa população.

Há alguma tendência, para certos fazedores de opinião, em relevar a dita “cassete” da CGTP, a ideia que a gente bate sempre na mesma tecla e que falamos sempre nos mesmos problemas. Isso satisfaz-nos, porque é o sinal de que tem valido a pena termos resistido, porque se a gente fala das mesmas coisas, as mesmas coisas ainda valem! Portanto, vamos no bom caminho!

 

Mas, o futuro é continuar a bater na mesma tecla, ou numa outra qualquer, porque as coisas estão a mudar?

Nós não podemos deixar de falar da exploração sobre os trabalhadores. A gente não pode deixar de falar dos baixos salários, quando aquilo que está aí é o comprimir dos salários. A gente não pode deixar de falar dos direitos dos trabalhadores, porque aquilo que se pretende é desvalorizar o trabalho, deixar de pagar horas extraordinárias, despedir à borla… de desregular os horários de trabalho. A gente não pode deixar de denunciar estas coisas!

Nós não somos uma organização social virada para as virtudes, nós somos uma organização sindical!

Nós somos uma organização de trabalhadores! Aqui só cabem trabalhadores! Nós não aceitamos a sindicalização de patrões!

Eles, os patrões, que se organizem em outro lado.

Se nós fugirmos desta linha deixaremos de ser o que somos, e nós não queremos deixar de ser aquilo que somos!

 

 

Além das obras, que, por sinal, estão paradas em Amarante, não há nenhuma obra pública de destaque que possa empregar trabalhadores?

Esse é um problema da crise!

O meu camarada Álvaro Ribeiro fala muitas vezes, e bem, na possibilidade de amortecer as dificuldades do setor da construção civil, através da recuperação urbana nas grandes cidades, o que criaria muitos postos de trabalhos diretos e indiretos.

O problema, contudo, é que as autarquias não têm dinheiro, fruto dos constrangimentos desta crise e da aceitação servil e canina das imposições da Troika…

 

…”servil e canina”?! Essa é a primeira vez que ouço…

… mas pode publicar.

Outra questão que se coloca é o: mas, então, os proprietários? Os proprietários estão na mesma, também estão tesos.

Quando estou a dizer que estão tesos, estou a falar na maioria das pessoas, porque, por exemplo, os proprietários das casas aqui no Porto, não são todos capitalistas.

 

Como se pode, então, ultrapassar estas barreiras… estas dificuldades?

Não tenho uma ideia concreta de como se pode ultrapassar isto, mas sei que não vai ser fácil. Criar linhas de crédito para proprietários, alguns dos quais podem já estar endividados? Isto é um ciclo vicioso.

E depois, as casas servirãopara albergar quem?

Os nossos jovens desempregados que estão a emigrar?

Estamos com problema seríssimos, que têm a ver com toda esta perspetiva de construção de um presente e de um futuro por caminhos que não se coadunam com estas exigências.

 

 

“As eleições no nosso país

são tudo menos democráticas!”

 

  Para terminar – e agora remeto-me a algumas questões levantadas por alguns dos nossos leitores – as pessoas não compreendem que os maquinistas façam greve, tendo as regalias que têm; que o mesmo aconteça com os trabalhadores da STCP e por aí fora.

Qual é o seu comentário?

Não há nenhum trabalhador neste país que tenha imposto ao patrão, qualquer que ele fosse, um tipo: ou dás isto, ou mato-te!

Tudo foi negociado!

Mais: as regalias só as têm os ricalhaços que vivem do trabalho dos outros.

Os trabalhadores, por seu turno, têm os seus direitos.

Sejam os maquinistas, sejam os trabalhadores de que setor ou profissão forem. Se lutaram pelos seus direitos merecem esses mesmos direitos.

Aqui há pouco tempo, dizia-se que rico era uma pessoa que ganhasse acima dos 1.500 euros. Esses agora, dizem que rico é os que ganham acima dos 600 euros, rendimento a partir do qual se começa a pagar, por exemplo, o transporte de doentes para os hospitais.

Mas há alternativas a esta política. A CGTP não se cansa de falar em alternativas…

 

 …mesmo tendo em conta as sondagens continuam a dar a maioria aos partidos que se encontram no poder?

Sim. Mas é preciso que as pessoas entendam, de uma vez por todas, que as eleições que se fazem neste país são tudo menos democráticas… não passam de autênticas manipulações!

São batalhas importantes em que todos os trabalhadores se devem envolver, mas não passam de autênticas manipulações.

Se alguma vez os mandantes deste país desconfiassem que os trabalhadores iam chegar ao poder através do voto, acabavam as eleições!

 

Bem. Mas há alternativas! E elas estão inseridas no contexto europeu?

É evidente. Mesmo neste quadro de Europa há alternativas.

 

Nem que nós tenhamos que regressar – como muita gente defende – ao escudo?

Relativamente a isso, não sei qual vai ser o nosso futuro O que nos parece, é que as decisões, quer de, na altura, integramos a CEE, quer a de fazermos parte da Zona Euro, foram precipitadas.

As eleições, ou os referendos, dão lhes jeito quando presumem que as coisas serão boas; quando presumem um “não”… fogem das eleições como o diabo da cruz, aliás como vimos com o referendo que os partidos do arco do poder – PSD,CDS e PS – tinham prometido relativamente ao Tratado de Lisboa…. Não o fizeram, porque aperceberam-se que as coisas poderiam correr mal.

 

E, agora sim, para terminar…

…para terminar, quero dizer que a CGTP, e eu pessoalmente, temos muita confiança nos trabalhadores e no nosso povo. Não há tempestade a que não suceda uma bonança! Estamos a viver períodos complicados, mas desde que queiramos há soluções para o nosso país! É preciso insistir e não desistir, porque essa é a pior das derrotas.

 

 

 

Texto: José Gonçalves

Fotos: António Amen

 

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